Afunilando

Uma equipe com a estrutura técnica da McLaren é capaz de uma nova virada no campeonato, mas a sensação que ficou depois do desempenho modesto na última corrida é a de que a McLaren começa a se afastar da briga pelo título. O prazo de validade das declarações otimistas do diretor Martin Withmarsh e do piloto Lewis Hamilton, com o intuito de levantar o ânimo da equipe, termina na próxima corrida se não vier uma vitória convincente.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Exceto pelo campeonato passado, que teve Jenson Button liderando de ponta a ponta, nos dois anos anteriores o título foi decidido por um ponto. O que, pelo sistema atual, tomando por base a pontuação de uma vitória naquela época em relação a hoje, equivaleria a 2,5 pontos. Hamilton, por exemplo, quer mostrar que está na briga usando o exemplo do campeonato que perdeu para Raikkonen em 2007, quando tinha uma vantagem de 17 pontos faltando apenas duas corridas. Pelo mesmo raciocínio anterior, esses 17 pontos seriam 42,5 no sistema atual. Bem mais do que os 28 que separam Hamilton do líder Webber. Que ainda dá, certamente dá. Mas tem que ganhar todas.

Tudo bem que aquela dura lição de 2007, bem como o final feliz de 2008 de Interlagos, serviram para ensinar Hamilton que o título é disputado até a última volta da última corrida. Mas se ele acerta nas probabilidades matemáticas, erra nas probabilidades técnicas. Para acontecer de novo aquela aberração de 2007, o piloto que lidera o campeonato tem de errar muito. Ou - como defendem os autores de uma teoria da conspiração surgida na época - é preciso uma firme determinação de entregar o titulo em troca de favores da FIA, como a não eliminação da McLaren por conta do roubo de desenhos e informações secretas da Ferrari. Em vez da eliminação, a McLaren recebeu uma multa recorde de US$ 100 milhões, que não há como ter sido paga.

Para a McLaren ficou difícil. Para a Ferrari, sim, é uma missão ainda não impossível. Mas, pelo que está andando o carro da Red Bull, torna-se quase impossível. É aí que se pode dar razão à política que vem sendo usada pela equipe austríaca de não favorecer nenhum de seus pilotos. É a receita para ter dois contra um na briga pelo título. Existe o outro lado da questão, que é o risco de permitir a aproximação do adversário. Se, por exemplo, o resultado do Japão tivesse sido invertido, com Webber à frente de Vettel, Alonso já estaria 21 pontos atrás em vez de 14. Mas, fora o lado saudável da competição esportiva ser definida no campo de jogo, enquanto a equipe for suficientemente forte para fazer dobradinhas, mesmo que a ordem não favoreça aquele que tem mais pontos no campeonato, o rival de outra equipe vai ficando mais para trás.

O que não pode acontecer, de forma alguma, é os dois se baterem. Acredito que esta lição o Vettel já tenha aprendido bem na corrida da Turquia. Mas como Webber não anda disposto a arriscar, não houve ainda uma possibilidade de ser testado. Porém, se os dois vierem a decidir a parada entre eles na última corrida, certamente o australiano será mais agressivo. E a equipe, que tem preferência por Vettel, se verá numa posição complicada.

Para Alonso, a hora é do tudo ou nada e ele é bom nisso. Com o pódio no Japão, ele completou seis corridas com três vitórias, um 2.º e um 3.º, que lhe deram 108 pontos, mais da metade do que ele somou o ano todo. A diferença para o líder é 14 pontos - metade dos 28 que separam Hamilton de Webber. Mas, ainda assim, é suficiente para mostrar que só há um caminho a ser tentado - partir para o ataque.

O circuito coreano de Yeongam é novo para todo mundo, mas amplamente conhecido através dos simuladores em que os pilotos já somam muitos quilômetros de treinos. O importante é que a pista tem largura suficiente para permitir ultrapassagens. Uma característica deste campeonato equilibrado é que muitas vezes a gente viu pilotos voltarem à briga depois de já considerados fora. Agora isso acabou. O único que ainda tem direito de errar é Webber.

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