Água da esperteza

A água é dos bens mais caros que a natureza nos concedeu. Fundamental para a vida na terra e, muitas vezes, motivo de discórdia. Até em jogo de futebol. Pois dois golinhos do precioso líquido fazem um barulho danado desde a noite de anteontem. A intenção de matar a sede se transformou em golpe de mestre de Ronaldinho Gaúcho e deu origem ao primeiro gol do Atlético-MG, marcado pelo atacante Jô, no clássico com o São Paulo, na estreia de ambos na Libertadores. O lance teve diversas interpretações - de genialidade a sorte, de astúcia a jogada combinada, de intuição a falta de fair-play, de habilidade a desatenção geral.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2013 | 02h02

Na prática, o episódio teve pitadas de quase tudo isso e se mostrou um dos requintes de duelo frenético e agradável, com resultado (2 a 1 para os mineiros) aberto até o último segundo, quando Ganso finalizou de esquerda e a bola passou rente à trave de Vítor. O empate se dissipava no ar e o chute provoca a subida da adrenalina do público.

A trama desenvolvida no estádio Independência foi dissecada pela televisão e pelos sites, o tema do dia teve inúmeras repetições e teorias, sobretudo de conspiração. Há quem defenda, com argumentos plausíveis, que se tratou de enorme encenação, previamente imaginada pelos atleticanos. E, de fato, se percebe o caminhar descompromissado de Ronaldinho em direção a Rogério Ceni, que lhe dá de beber. Depois, o astro anda pela área um tanto a esmo, como se estivesse a espairecer, até receber livre de marcação a bola longa, lançada por Marcos César, em cobrança de lateral. Então, domina, faz o cruzamento, até que Jô, na corrida, ganha da zaga e emenda. Os são-paulinos ficaram estupefatos.

Coisa de gênio, elogiaram alguns. O peso da experiência, emendaram outros. Que movimento ensaiado, aplaudiram os mais entusiasmados. Que cochilo imperdoável do tricolor, castigaram os mais críticos. Que presença de espírito, prefiro dizer. E fico com o próprio Ronaldinho Gaúcho, que admitiu, na saída de campo, ter sido afortunado.

Noves fora o fingimento, aquela disfarçada para driblar polêmicas, o ídolo não mentiu. Houve estalo, percepção de conjuntura favorável e execução impecável e sincronizada. A ocasião fez o ladrão, pra ficar no popular. Tudo começou com o jogo interrompido, após dividida no meio-campo, e o árbitro a autorizar atendimento para Júnior César perto da área do Atlético. O lateral tinha sido atingido numa disputa anterior. Lá pelo meio-campo, Marcos Rocha aguardava a recuperação do colega e estava a postos para repor a bola. Enquanto isso, Ronaldinho se desgarrou e foi beber água ao lado de Rogério. Daí, Marcos Rocha notou o companheiro soltinho da silva, ao mesmo tempo em que a turma do São Paulo olhava para as estrelas. O desfecho? Bola na rede.

Malícia à parte, Ronaldinho não foi finório só em tal oportunidade. A retomada da camisa 10 (em 2012 vestiu a 49) lhe fez bem: deslocou-se, driblou, regeu o time, construiu o segundo gol (Réver), se manteve atento ao recital do começo ao fim. Sobressaiu, como se espera sempre de jogador da qualidade dele. Mas o Atlético não foi só o gaúcho. O desempenho deixou evidente que o conjunto tem condições de cumprir trajetória notável na competição e alcançar título inédito.

O São Paulo se enroscou no primeiro tempo, se precipitou na armação, pecou por oscilações defensivas. Reagiu na segunda parte e volta para casa com a necessidade de reagir como mandante e com lição nova: nunca dar água pro adversário, ainda mais se for tinhoso como o Ronaldinho.

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