Aguenta, coração!

Depois dos jogos deste meio de semana, só insensíveis continuarão a manter a soberba em relação ao Brasileiro de 2011. Disputadas 22 rodadas, os quatro primeiros colocados estão separados por três pontos. Isso é raro em qualquer lugar - lembro da Alemanha de alguns anos atrás - e prova de emoção alucinante até o final. Não significa que tenha nível técnico extraordinário - não tem, e disso já falei em crônicas anteriores -, mas conta com adrenalina total.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

Atire a primeira pedra quem se mostrar indiferente ao duelo que Corinthians e Flamengo fizeram ontem à noite no Pacaembu lotado. Um clássico dos mais empolgantes, com público frenético do começo ao fim. O anfitrião pressionou, se lançou à frente, levou o gol de Deivid, não esmoreceu. No segundo, aumentou a intensidade do ataque, mandou bola na trave, sufocou. Liedson aguentou até murro covarde de Gustavo, fez o gol de empate, marcou o da vitória, de virada, na raça. O Corinthians foi a 43 pontos, 2 à frente de Vasco e São Paulo. O Bota tem 40 (um jogo a menos); o Fla, 36. Que briga espetacular!

Não há como não recorrer ao inigualável Fiore Gigliotti: "Aguenta, coração!"

Amargos regressos. Francesco De Gregori é compositor italiano que faz músicas que pegam na veia e no coração. Poeta de alta sensibilidade, infelizmente quase desconhecido por aqui. Um Chico Buarque daquelas bandas. Em Cardiologia, uma de suas obras-primas, canta dois versos estonteantes: "Há amores do passado sempre vivos na memória/Porque do amor nada se joga fora". Isso serve para a vida e para o esporte.

Não tenho talento para falar de dor de cotovelo - essa até hoje só soube sentir. Escrever a respeito de sobressaltos do afeto é tarefa para cronistas de fina estampa, como o Loyola e o Marcelo Paiva,para citar bambas da casa. Mas entendo frustrações de torcedores com ídolos, sobretudo dos que vão embora e mais tarde voltam. Tentativas de reatar, no futebol como no cotidiano, não têm regras fixas, porém com frequência não dão mais liga e caem no vazio.

Pegue o caso de Valdivia. O rapaz desembarcou no Palestra em 2006, cativou o público, virou "El Mago", foi campeão paulista. No momento em que era mais paparicado se mandou para o futebol árabe. Foi, ficou um tempo no ostracismo bem pago e voltou em 2010. Regressou como o príncipe encantado para despertar a Bela Adormecida verde.

Até agora não vingou. Em um ano, passou mais tempo na enfermaria do que em campo. Falou-se dele mais por dúvidas a respeito dos métodos de tratamento e de rusgas veladas, ou nem tanto, com Felipão do que por passes, dribles ousados e gols que outrora estimularam carinho dos fãs e fizeram o clube lançar-se na aventura de investir no resgate.

Enfim, neste período apareceu pouco do Mago que estava na lembrança afetiva do palmeirense. E, como ocorre com desilusões amorosas, a mágoa deu o ar da desgraça. Não por acaso parte da torcida o rechaça. Ele se fechou, murchou, quase disse adeus definitivamente e recuou. Diz que não quer separação, a diretoria ficou com medo de críticas da ala da torcida que ama o chileno e, como numa tentativa desesperada de evitar nova ruptura, acena com aumento.

O exemplo de Valdivia não é único. O Palmeiras viveu casos parecidos e divididos entre martírio e glória. Evair saiu em 94 e voltou em 99 mais maduro e útil, algo semelhante com o que ocorreu com Zinho e César Sampaio, o capitão do título na Libertadores. Com Edmundo não foi assim, em sua segunda passagem, em 2007.

A gente gastaria horas de conversas aqui com relatos de segunda chance que deram certo e os que resultaram em furo n"água. Uma polêmica sem fim, pois o problema é que se idealiza muito no amor e no futebol. Quando as expectativas não são correspondidas, o sentimento de perda tende a crescer e, se bobear, acaba com o que aconteceu de bom. Machuca, a ponto de o Mago hoje sofrer rejeição - ou, no mínimo, desconfiança - de parcela de palestrinos desacorçoados.

Vai reconquistar afeto com a intenção de ficar? Não sei. Quantos casais voltam e se separam de novo? Pode ser o caso dele com o Palmeiras. É da vida e o tempo dirá. Sei que há amores que deveriam ficar guardados para sempre na memória pelo que foram no passado. Retomar é dar murro em ponta de faca e se ferir. O De Gregori conhece a alma humana.

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