Imagem Reginaldo Leme
Colunista
Reginaldo Leme
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Ah, o poder!

Não pensei que tão cedo eu viria a condenar uma atitude de um piloto que admiro tanto, seja do ponto de vista profissional como pessoal. Mas Sebastian Vettel escorregou feio ao se deixar levar pelo conceito do "vencer a qualquer custo" que tantas vezes manchou a carreira até mesmo do seu ídolo Schumacher, o maior vencedor da história da Fórmula-1.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2013 | 02h05

Nunca defendi ordem de equipe a não ser em situações especiais, como em uma decisão de título, mas a partir do momento em que os dois pilotos recebem uma determinação de seu time para diminuir o ritmo e um deles resolve, por conta própria, não cumprir, cabe chamar de trapaça. Vai além da deslealdade e desrespeito ao companheiro rival. É ganhar trapaceando.

Quando um piloto se sente acima do bem e do mal, grande parte da culpa vem de sua equipe. A convicção de que poderia fazer qualquer coisa sem merecer punição tem origem nas atitudes de seu time, principalmente de Helmut Marko, o consultor com alto poder de decisão, que sempre concedeu privilégios a Vettel. O pedido de desculpas não encerra o caso, apenas mostra o reconhecimento do erro perante os 600 funcionários, que ele foi visitar anteontem. A alegação de que esses oito pontos podem fazer falta no final do campeonato não justifica e até agrava a situação, porque traz a presunção de que só a ele esses oito pontos poderão fazer falta, e não a Webber.

A comparação com Senna e Prost em 1989 não é novidade, mas a gente deve levar em conta que a geração atual não viveu a era Senna. Era também a segunda corrida do ano e Ayrton descumpriu um acordo de não atacar o companheiro na primeira volta. A alegação? Parece piada, mas como a corrida teve uma interrupção e uma segunda largada, Senna disse que para ele o acordo só valia na largada original. Foi assim que o ano terminou em guerra, com Prost jogando o brasileiro pra fora na corrida que decidiu o título e continuou no ano seguinte, com Ayrton dando o troco.

Vettel deixou a Red Bull em situação delicada. Como equipe, ela tem agora a obrigação de mostrar quem manda. Resolver o problema internamente, mas deixar claro que há um comando e ele está acima da vontade de Vettel. Se Webber, em último ano de contrato, com 36 para 37 anos de idade, resolvesse partir para a guerra, a F-1 agradeceria, mas seria por pouco tempo. Hoje em dia, do box, a equipe apagaria o fogo de Webber com alguns giros a menos no motor.

Como a grande maioria, eu tenho Sebastian Vettel como um supertalento ao lado de Lewis Hamilton e Fernando Alonso - esse o mais completo dos três. Mas, na verdade, ele ainda tem o que provar no dia em que pilotar um carro que não seja criação de Adrian Newey ou derivado (é o que se diz daquela Toro Rosso de 2008, vencedora em Monza). Na época da última renovação de contrato, ele não deu o sim para a Red Bull enquanto a renovação de Newey não estivesse assegurada. Não que seja novidade, mas o anticlímax do pódio da Malásia é uma nova marca da história da F-1. A novidade mesmo é a mancha no caráter de Vettel. Aquele garoto alegre, que angariou a simpatia do mundo todo, parece ser mais um caso de ser humano que o poder transforma.

Tudo o que sabemos sobre:
Reginaldo Leme

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.