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Ainda pode ser pior

Ficar fora da abertura do Mundial na Austrália, mesmo sendo uma situação muito longe de se imaginar quando Alonso apostou na McLaren como a equipe que poderia dar a ele os títulos que não conseguiu em quatro anos de Ferrari, pode não ser o pior dessa história. O mistério que se criou pelas circunstâncias estranhas do acidente do dia 22 leva a especulações de todos os tipos, a começar pela possibilidade de Alonso ter sido vítima de um choque elétrico proveniente do ERS, o que o fez apagar antes da batida. A hipótese do choque elétrico não está fora de cogitação, mesmo diante da negativa da McLaren. Existem opiniões diferentes, inclusive de médicos. Mas o que parece mais do que certo é que o bicampeão, de fato, perdeu a consciência antes de bater no guardrail. Só o fato de a batida ter ocorrido a 135 km/h, uma velocidade muito baixa para a F-1, já é suficiente para se acreditar nisso, e há testemunhas que chegam a precisar em três segundos o tempo de desmaio do piloto antes do acidente.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

07 Março 2015 | 02h05

É nisso que aposta a revista alemã Auto Motor Und Sport, que costuma ser muito bem informada, ao medir a velocidade com que Alonso entrou na Curva 3 (215 km/h) e a final do momento do choque (135 km/h), após um movimento repentino em direção ao guardrail e sem sinais de freada. A própria McLaren, depois de tanto fugir do assunto, tomou a decisão de confirmar a perda temporária de memória em consequência de uma concussão cerebral.

Para nós, os jornalistas que cobrem a F-1 há muito tempo, a concussão como consequência de acidentes até parece normal. Mas não há médico que concorde com isso. Para eles, qualquer ferimento na cabeça, mesmo os que parecem leves, devem ser levados a sério. Os que trabalham com esporte usam o exemplo na NFL, liga norte-americana de futebol, e a alarmante constatação de que um em cada três jogadores corre risco de sofrer danos no cérebro, mesmo depois de encerrarem a carreira. Os choques entre jogadores, que usam capacete, costumam ser violentos. E até no futebol que conhecemos melhor, como o jogado na Premier League inglesa, foi introduzida este ano a regra de que um jogador que sofrer um golpe na cabeça deve ser avaliado pelos médicos antes de ser autorizado a voltar a campo.

No automobilismo americano, o escocês Dario Franchitti foi aconselhado a encerrar a carreira ao se constatar que há um efeito cumulativo quando o piloto sofre vários traumas na cabeça. Isso levou à lembrança de, pelo menos, um acidente grave de Alonso, de Renault, ocorrido em Interlagos em 1993, seu segundo ano de F-1, quando ele bateu em destroços do Jaguar de Mark Webber e sofreu um forte impacto contra o guardrail. Era a 20.ª corrida de Alonso e a 19.ª de Webber, os dois tendo iniciado carreira na Minardi. E, para ambos, foi o acidente mais grave de uma extensa carreira.

Desde o acidente de Ayrton Senna em Ímola e o de Karl Wendlinger em Mônaco, ambos em 1994, graças a uma sensível melhora nas condições de segurança de autódromos e um aprimoramento nos sistemas de sinalização de pista, o único acidente grave que ocorreu foi o de Jules Bianchi em Suzuka no ano passado. Para mim, por culpa da sinalização.

O de Alonso não teve a mesma gravidade, mas o desmaio, antes ou depois do acidente, ainda não tem uma explicação. Isso trouxe preocupação a todos os outros pilotos, que estão solicitando, por meio da GPDA (Grand Prix Drivers Association) explicações detalhadas. Entre eles é certo que um piloto como Alonso não bateria o carro daquela forma se não estivesse desacordado, seja por um choque elétrico ou qualquer outra razão que está sendo estudada.

O mais conceituado jornal espanhol, El País, relata as respostas curiosas de Alonso para os médicos no momento em que ele recuperava os sentidos durante o atendimento no hospital. Ele respondeu às questões formuladas pelos médicos como se estivesse em 1995: "Eu sou Fernando, corro de kart e quero chegar à Fórmula 1". O jornal chama a atenção para o fato de que em 1995 Alonso tinha 14 anos. Ouvindo e lendo tudo o que se diz sobre ele, para mostrar que está bem, Alonso resolveu brincar com isso no twitter, criando um jogo que ele chamou de "onde você acordou hoje?"

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