Ainda tem bobo

Perdeu a conta de quantas vezes você ouviu que não existe mais bobo no futebol? Eu já. Clichê adorado pelo pessoal do métier e lembrado toda vez em que ocorre um resultado decepcionante em vez da barbada prevista. Mas se trata de meia-verdade, pois existem, no mínimo, os ingênuos e incautos no universo da bola.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2012 | 03h03

Nessa categoria estão hoje os que levaram a sério os 8 a 0 da seleção sobre a China. O que se viu, na noite de anteontem, no Recife, foi um folguedo, uma festa tardia de São João (linda naquelas bandas), uma prévia do animado carnaval pernambucano. Pareceu bobinho de aquecimento antes dos jogos, esteve mais para pelada depois de churrasco de fim de semana do que confronto entre representações oficiais de dois países.

Sejamos sensatos e práticos: aquilo no Mundão do Arruda foi um disparate! A seleção vermelha era de uma fragilidade de dar dó. Os jogadores brasileiros perceberam a moleza nos primeiros minutos, embora tenham feito suas dancinhas, depois de cada gol, mais por cara de pau do que por alegria espontânea. Tenho conhecidos chineses - legítimos -, que trabalham na 25 de Março e na Santa Ifigênia com mais intimidade com a gorduchinha do que os patrícios deles que embarcaram nessa canoa furada.

A partida não valeu nem como treino, foi um "me engana que eu gosto" de lascar! Não houve confronto, não ocorreu o antagonismo que estimula a garra, a técnica, que testa a estratégia. Foi perda de tempo, embora tenha servido para manifestações tolinhas dos boleiros. Não sei se você teve oportunidade de acompanhar entrevistas, na volta do estádio. Mas deu a impressão de conversa ensaiada no vestiário. Vários lembravam que a Espanha marcou só 1 a 0 nesse mesmo time. "Fizemos o jogo ficar fácil" foi declaração de pelo menos três que ouvi - e isso não é coincidência.

Como também nada me convence de que não combinaram falar que o desempenho "acima da média" ocorreu como consequência do carinho do torcedor. Ou seja, uma cutucada nos fãs paulistas, que vaiaram com gosto a péssima apresentação diante da África do Sul. A propósito dos apupos na Pauliceia: muita gente que esteve no Morumbi não entendia bulhufas de bola e foi lá só para enchouriçar? Ok, concordo. Mas, se esse mesmo público tivesse delirado com o jogo feio, seria inteligente? É conhecedor de futebol quem se encantou com os 8 a 0 contra os chineses? Pra pensar.

Agora, vem outra lenga-lenga, travestida com o pomposo nome de Superclássico das Américas. Serão mais dois jogos caça-níqueis entre Brasil e Argentina, como em 2011. Conseguem banalizar o maior duelo mundial.

Puxa vida, gastei a maior parte deste espaço nobre com uma fanfarrice - que, a bem da verdade, não é inédita: até na época de Telê Santana o Brasil enfrentou babas para aquecer-se. Ou seja, coisa antiga, feita sem pudor. Cabe a nós não nos iludirmos.

O que interessa, pra valer, são os jogos de hoje e amanhã, pela 24.ª rodada do Brasileiro. O tempo vai ficar quente em várias frentes. O Palmeiras com cara de Série B leva seu desespero para São Januário, diante de um Vasco sem técnico. Está com jeito de jogo ótimo. Santos e Flamengo, 27 pontos por cabeça e em fase ruim, têm encontro marcado na Vila. Duelo épico como o do ano passado? Duvido. O Atlético-MG recebe o São Paulo, com uma pinta de empate. A Lusa pode aprontar pro líder Flu. E vai sair fumaça em Sport x Bahia e Atlético-GO x Coritiba, porque também tem rebaixamento envolvido.

Agora, sim, teremos futebol.

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