Ajuda crítica

A vitória difícil sobre o Egito anteontem exigiu passagens cautelosas no tom otimista que vinha crescendo a respeito do trabalho de Dunga como técnico da seleção. Uma coisa é reconhecer resultados; outra é esquecer que esse trabalho não foi feito apesar das críticas, mas com ajuda de boa parte delas. Por provincianismo ou conveniência, a imprensa chapa branca quer nos fazer acreditar que os fatos demonstraram que Dunga estava certo e, portanto, seus críticos estavam errados. Mas a análise isenta da sequência de fatos mostra outra realidade. Foi Dunga quem mudou. E ainda tem muito a mudar.Nem é preciso lembrar aquele técnico inexperiente que durante tanto tempo insistiu em convocar jogadores insignificantes como Afonso. Ou que tanto prometeu uma seleção renovada, com "cara brasileira", enquanto convocava diversos veteranos que atuam na Europa. Ou que fracassou na Olimpíada com um futebol medroso. Basta pensar que Dunga até recentemente jogava com uma dupla de primeiros volantes, Josué e Gilberto Silva, incapazes de se aproximar a menos de 20 metros da área adversária. Ou que não considerava pôr em campo um jogador que tivesse sido convocado menos vezes.Pressionado pela opinião especializada e pública, Dunga foi se adaptando. Desobrigado de convocar nomes como Ronaldinho Gaúcho (não houve mais que dois ou três muxoxos de lamentação), montou um time que espera os adversários para sair no contra-ataque, um time mais defensivo que o de Parreira em 1994 e com a desvantagem de não ter Bebeto e Romário - isso para não falar do trio de 2002, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo, obviamente superior ao de Kaká, Robinho e Luís Fabiano. Igual carência se vê na lateral esquerda, pós-demonização de Roberto Carlos. Dunga não tem culpa da perda de recursos humanos, mas o elenco ainda é melhor que o desempenho.Trocam-se poucos passes, não se vê criatividade a não ser esporadicamente. Tudo depende, como se viu mais uma vez contra o Egito, das disparadas de Kaká e dos lances que começam de bola parada para a cabeça de Juan ou Luís Fabiano - além, claro, das defesas de um goleiro em grande fase. Não há variação tática. Raramente o Brasil chega pelas pontas; os volantes não dão cobertura à subida dos laterais e tampouco tabelam com eles lá na frente. Robinho só quer saber de se exibir numa faixa restrita. O resultado não poderia ser mais burocrático, embora competitivo. O estilo, enfim, é o treinador.A melhor coisa a fazer é continuar ouvindo as críticas, principalmente aquelas feitas por quem quer apenas ver o bom futebol brasileiro, não lavar a honra nacional ou sei lá o que mais. Felipe Melo pode atuar mais à frente na Itália, mas tem as características adequadas a um volante de marcação. Com a saída de Gilberto Silva, que recua demais e só passa de lado, Ramires poderia ter mais chances. No Brasil faltam armadores como Xavi e Fábregas, da Espanha, embora esta não tenha ninguém com o poder de decisão de Kaká. Mesmo assim, é preciso escalar gente com mais iniciativa no meio. As substituições também precisam ter em vista a narrativa do jogo. Nilmar cairia melhor que Pato contra o Egito justamente porque se movimenta pelos lados para partir em diagonal para a área. André Santos passa e conduz melhor que Kléber, mas é preciso que alguém escolte seus apoios como faz Cristian no Corinthians. Os EUA têm um setor de marcação alto e forte, menos ingênuo que o egípcio, embora no ataque Aboutrika e Zidan tenham mostrado um jeito "brasileiro" de toques rápidos e dribles. Marcar forte não elimina a necessidade de ousar. E o cansaço? É mais uma razão. Como dizia o grande Didi, a bola deve correr mais que o jogador. Bola pra frente, Dunga.

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