Al-Qaeda ameaça atacar e pela 1.ª vez Rali Dacar é cancelado

Organização terrorista prometeu agir contra os competidores e Organização da prova resolveu abortar uma das competições mais caras - e lucrativas - do automobilismo, que neste ano completaria 30 edições

Jair Rattner, O Estadao de S.Paulo

04 de janeiro de 2008 | 00h00

O terrorismo causou o cancelamento do Rali Lisboa-Dacar, o mais importante do mundo. A prova, que neste ano teria o percurso entre a capital portuguesa e a capital do Senegal (9.273 quilômetros), nem começou. Ontem, um dia antes do início, os organizadores optaram por cancelar a corrida. "Tivemos informações ontem (anteontem) à noite de que a facção da Al-Qaeda no Magreb se preparava para atacar a prova. Eles citaram diretamente o rali", afirmou Etiènne Lavigne, o responsável pela ASO, empresa que organiza a prova off-road, que deveria passar por cinco países: Portugal, Espanha, Marrocos, Mauritânia e Senegal. O motivo foi a situação na Mauritânia, por onde passavam oito das 15 etapas da prova. Na semana passada, grupos fundamentalistas muçulmanos mataram quatro turistas franceses e três soldados mauritanos, no sul do país. Com base em informações fornecidas pelo governo francês, Lavigne descartou fazer uma prova passando só por Portugal, Espanha e Marrocos. "As recomendações do Estado francês foram de que não se começasse o Dacar. Eles deram razões de Estado e eu não discuto razões de Estado." O ministro do Artesanato e do Turismo da Mauritânia, Menadin Ba, disse que o país é seguro. "Reforçamos as medidas de segurança e posso garantir a qualquer turista que venha à Mauritânia, porque não haverá problemas. O adiamento deve-se a outras questões." Ba mostrou a dependência do país em relação à religião, ao ser perguntado pelo Estado sobre a força dos fundamentalistas muçulmanos na Mauritânia. "Foram feitas duas fatwas (decretos religiosos) para que a população ajude a levar à Justiça quem matou os turistas franceses e os soldados." Não é a primeira vez que o Rali Dacar tem problemas com violência. O piloto brasileiro André Azevedo, que há 20 anos participa da prova, lembra: "Em 1991, em Mali, um piloto de caminhão foi metralhado e morreu no local onde pouco depois eu passei de moto. Em 1996, um piloto de caminhão passou em cima de uma mina que explodiu e o caminhão pegou fogo. Ele não conseguiu sair a tempo do caminhão (ver mais ao lado)." Mesmo quando o rali fez o percurso entre Dacar e o Cairo, no Egito, houve problemas. Em 2000, os pilotos foram retidos em Niger durante cinco dias até que fosse organizada uma ponte aérea até a Líbia, para que os concorrentes evitassem grupos de fundamentalistas muçulmanos. Em 2002, na Mauritânia, foram utilizados militares no percurso. "Eles ficavam a cada cinco quilômetros, mas entre cada patrulha militar não havia nada", lembra André. Em 2004, duas etapas foram anuladas no Mali. Em 2007, pouco antes de iniciar a prova, o Mali foi cortado do percurso. O mais importante rali do mundo pode parar na América do Sul em 2009 (leia mais na pág. 2). Entre os organizadores, ninguém quis avaliar a dimensão dos prejuízos. Mas será enorme. Ao anunciar o cancelamento, Lavigne disse que até fevereiro o valor da inscrição será devolvido aos participantes.Para as equipes, a perda será milionária. "A Mitsubishi investe 30 milhões em cada carro oficial. A Volkswagen põe 20 milhões. Nós, na BMW, investimos 3 milhões", conta o piloto brasileiro da BMW, Paulo Nobre, o Palmeirinha. Na Volkswagen, a gigantesca operação de marketing em torno da corrida inclui o lançamento na Europa de um novo modelo fabricado na Alemanha.Foram inscritos 588 veículos - 214 motos, 273 carros e 101 caminhões -, mas nem todos comparecem às verificações técnicas. O mínimo que se paga para comprar uma moto que corre o Dacar - considerando-se uma equipe amadora - é de 70.000,00. Um carro não fica por menos de 220.000,00 e um caminhão sai por 200.000. Isso sem contar a preparação dos carros e os patrocínios. Além disso, as prefeituras nas etapas européias pagam para ter o rali, como forma de estimular o turismo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.