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Além das peladas

Uma semana, um mês, um ano? Quanto tempo deve ser concedido ao treinador para que seu trabalho comece a apresentar resultados? Em se tratando de futebol brasileiro, a resposta não é simples, embora o bom senso aponte para algo em torno de um ano, uma temporada pelo menos, como período razoável dedicado ao progresso de uma ideia.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2014 | 02h04

Até o início dos jogos de sábado, o Campeonato Brasileiro viu 18 trocas de comando, uma por rodada. É a prova inequívoca do destempero técnico que mina a estrutura esportiva de um país humilhado na Copa do Mundo.

O placar das substituições justifica a falta de rumo. E intensifica a percepção de que paralelamente às questões técnicas, o jogo pede um sentido, um debate filosófico sobre o que cada associação almeja como futebol. Vale para os clubes e para a seleção.

E aí notamos o nosso ruidoso atraso, amplificado pela certeza de que apenas o resultado é suficiente, independentemente do conteúdo e da forma. Isso explica a volta de Dunga à CBF. Ele não veio com propostas ou ideias, veio para o óbvio, vencer.

As vozes do atraso também dizem que tudo está uma porcaria. Recentemente, um importante centroavante dos anos de 1960 e 1970 reclamou na TV da falta de oportunidades como treinador, mas não tinha noção de quem era um de seus entrevistadores. Tratava-se apenas de Juan Pablo Sorín, ídolo da torcida cruzeirense e capitão da Argentina na Copa de 2006.

O tempo escasso para bons trabalhos é uma das verdades do futebol, tão real quanto a necessidade de libertá-lo urgentemente de algumas mentiras. Você pode não ser fã de José Mourinho, mas jamais conseguirá contestar seu conhecimento, seu contexto teórico e os títulos forjados com a prática.

O treinador português define uma equipe como modelo de organização, na qual todos consigam pensar e agir em função do mesmo objetivo, e simultaneamente. "Mas isso só é possível com tempo, trabalho e tranquilidade. Porque uma coisa é o jogador perceber e tentar fazer o que eu quero, outra é conseguir fazê-lo como equipe. E isso demora tempo."

Mas o tempo sozinho não resolve. A raiz dos times brasileiros é a desorganização, a pressa e a falta de significado. Veja o caso do Vasco. Instável dentro e fora do campo, Adílson Batista foi despachado do cargo de treinador na semana passada. A direção tentou Enderson Moreira, mas contratou Joel Santana.

Qual é o problema? É preocupar-se apenas em preencher a vaga aberta, sem definir o perfil do profissional. Recentemente demitido do Grêmio, Enderson é formado em educação física, forjado na academia, com bom trabalho no Goiás. Papai Joel ficou com o serviço, pela quinta vez o Vasco fechou com o mais boleiro dos "professores".

Acreditar no estabelecimento de uma ideologia dentro do departamento de futebol parece coisa de intelectualoides. O Palmeiras até que tentou. Com Ricardo Gareca traçou planos, tentou romper a mesmice. A realidade, porém, foi mais forte do que a proposta diferente.

O fracasso de Gareca pode ter afastado por um bom tempo outras experiências com treinadores estrangeiros no Brasil. A adaptação ao ritmo alucinante do calendário de jogos pode levar muitas rodadas. No futebol tudo é para ontem. Talvez no basquete, pela diferença de pressão, a gente consiga esperar.

Ontem, a seleção brasileira derrotou a Argentina pelo Campeonato Mundial, disputado na Espanha. E com um argentino no banco, o campeão olímpico Rubén Magnano. Também não tem sido fácil conduzir o basquete nacional, mas neste caso foi possível esperar mais para organizar a equipe que conta com vários jogadores da NBA.

Por que Magnano? Porque, também aqui, não se trata apenas de tempo. O conteúdo é a base, o fundamento para recuperar um basquete vitorioso e talentoso no passado. Um dia, quem sabe, perceberemos o futebol como algo que vai além das peladas.

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