Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

'Algumas modalidades esportivas poderão ficar sem temporada', diz médico do governo Trump

Anthony Fauci comanda a força tarefa contra o coronavírus nos Estados Unidos

Entrevista com

Anthony Fauci, médico que comanda a força tarefa dos EUA contra o coronavírus

Wagner e Ken Belson, New York Times

29 de abril de 2020 | 15h00

Segundo o Dr. Anthony Fauci, especialista de saúde pública que comanda a força tarefa do presidente Donald Trump contra o coronavírus,  será difícil que grandes modalidades esportivas retornem às atividades neste ano. Várias liga vêm analisando algumas opções para retomar os jogos que estão suspensos desde meados de março uma vez que a epidemia se tornou cada vez mais aparente.

O Dr. Fauci disse numa entrevista na terça-feira que isso será possível se o país conseguir amplo acesso a testes rápidos. Ele afirmou que as fabricantes têm feito avanços no desenvolvimento desses testes, mas não o suficiente para que as grandes competições esportivas sejam retomadas.

“A segurança, para os jogadores e torcedores, está acima de tudo. Se você não conseguir garantir a segurança, infelizmente terá de aguentar o tranco e se conformar com o fato de que “podemos ficar sem esta modalidade nesta temporada”. As observações do Dr. Fauci foram feitas no momento em que a liga de beisebol, a NBA e outras entidades, vêm lutando para encontrar uma maneira de reunir, com segurança, seus jogadores para treinos e jogos, com ou sem torcedores.

O presidente tem insistido para os dirigentes esportivos voltarem a campo o mais rápido possível e o governador Andrew Cuomo, de Nova York, sinalizou a possibilidade de se realizarem jogos importantes de beisebol em campos vazios no Estado ainda este verão. Mas outros governadores, como Gavin Newson da Califórnia, estão mais cautelosos.

O Dr. Fauci, diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases desde 1984, afirmou que embora o número de casos confirmados da doença tenha diminuído em boa parte do país, provavelmente haverá um aumento de infecções novamente. “Se deixarmos que nosso desejo de voltar prematuramente à normalidade prevaleça, simplesmente voltaremos à mesma situação problemática em que estávamos há algumas semanas”, disse ele.

Segundo o médico, uma retomada dos jogos deve ocorrer gradativamente e com grande cuidado, acrescentando que as autoridades têm de estar preparadas para uma resposta se o número de casos voltar a crescer. Fauci, que cresceu jogando basquete e beisebol, é torcedor do The Washington Nationals e do New York Yankees. Ele disse que só se sentirá tranquilo em retornar a um estádio quando o nível de infecções for bem menor do que no momento. “Eu adoraria o retorno dos jogos. Mas como autoridade de saúde pública, médico e cientistas, tenho de dizer que, neste momento, vendo a situação do país, ainda não estamos prontos”. Veja trechos da entrevista com o médico:

Quando e como as atividades esportivas podem retornar?

O que precisamos para chegar a isto, como país e como locações individuais, é manter o controle. O que às vezes leva mais tempo do que você gostaria, e se deixarmos que nosso desejo de voltar rapidamente à normalidade prevaleça, simplesmente voltaremos à mesma situação problemática de algumas semanas atrás.

Temos de assegurar que, quando retornamos à vida normal, incluindo a possibilidade de jogar beisebol no verão, futebol no outono, e basquete no inverno, isso seja feito gradativamente e cuidadosamente. E quando novos casos começarem a surgir novamente - o que sem dúvida ocorrerá - teremos de ter a capacidade de identificar, isolar e monitorar os contatos.

O esporte é um negócio e existe um imperativo financeiro para o retorno das atividades o mais breve possível. Alguns governadores e prefeitos têm debatido a possibilidade de um retorno dos eventos esportivos sem torcedores. Mas há centenas de funcionários que têm de administrar os estádios, as sedes dos clubes, etc. O que precisa ser feito para que eles também estejam seguros?

O melhor que temos a fazer é tentar e manter a distância de, no mínimo, dois metros e usar máscara. E manter hábitos de higiene para impedir o contágio, como lavar as mãos com frequência, usar luvas, particularmente no caso do serviço de alimentação, e eles fazem isso, de qualquer modo; mudar as luvas frequentemente. E, se você está num estádio, se certificar que as pessoas estão mantendo a distância física necessária porque o vírus não viaja muito mais longe do que isso.

Se conseguir isto, assim mesmo não estará completamente livre de riscos, mas vai diminuí-lo substancialmente. A densidade da infecção na comunidade vai ditar o quanto podemos ser flexíveis. Já disse muitas vezes que o vírus é que vai decidir o quão rápido retornaremos à vida normal. Você pode tentar influenciar com programas para atenuar os riscos, mas no final é preciso ter o vírus sob controle antes de uma retomada da atividade normal.

Nem todos os esportes são iguais. O golfe está mais adaptado para se manter a distância, mas isso é difícil no caso do basquete ou do hóquei. O que pode ser feito?

É preciso ser criativo. O que vai ser mais difícil e mais problemático. Mas há algumas sugestões de que, numa situação em que os jogadores têm de estar em contato, caso do basquete, há determinadas coisas que podem ser feitas. Podem não funcionar. Não estou dizendo que essa é a maneira de agir, mas se você deseja isto, pelo menos que os jogadores atuem diante de uma câmera de TV, sem um público. E depois é necessário testar todos os jogadores e se certificar de que estão negativos para o vírus e mantê-los num lugar onde não têm contato com nenhuma pessoa de fora que você não sabe se é positiva ou negativa.

Será difícil do ponto de vista logístico, mas pelo menos existe a possibilidade de agir assim. Em outras palavras, no caso do beisebol, manter os jogadores da Major League, selecionar algumas cidades e alguns hotéis, testar os jogadores e mantê-los segregados. Sei que é difícil não se socializar, mas é o preço a pagar se você quer jogar.

Quantos testes precisamos fazer a cada dia, semana, ou mês antes de o país poder reabrir? E o quão breve chegaremos aí?

Não é possível colocar um número. Depende do nível da epidemia e quantas pessoas teremos para rastrear os contatos. Assim, quando as coisas estiverem controladas podemos começar estudos de monitoramento e de anticorpos.

É justo achar que as ligas esportivas e equipes devem ter amplo acesso aos testes se o público em geral, ou outros setores, não têm o mesmo acesso?

Espero que, quando chegarmos a esse ponto, de ter o pessoal do esporte testado, nós então teremos testes suficientes para qualquer pessoa que necessite ser testada.

O quão distantes estamos disso?

Não posso dar datas, mas os testes devem aumentar em número rapidamente nas próximas semanas e meses.

O quanto o senhor já conversou com as ligas sobre suas ideias para retomar os jogos?

Tenho me dirigido ao mundo esportivo por meio de entrevistas com pessoas como você, se as pessoas lerem o que tenho afirmado. Mas estou sempre aberto para ajudar sob qualquer aspecto. Tenho conversado com alguns dirigentes esportivos, mas não vou dizer quem são.

O senhor aprovou algumas propostas feitas por eles?

Não é apropriado da minha parte. Essas serão decisões deles.

O esporte é uma atividade peculiar, porque os atletas ficam muito próximos durante muitos meses. Que caminho as ligas precisam seguir para reiniciar as atividades?

Daí a razão pela qual enfatizo a ideia de testar todo mundo e disponibilizar para eles testes com resultados rápidos. Só assim você saberá ou não se alguém está infectado e manter o atleta afastado por um tempo, 14 dias mais ou menos, que é o período de incubação.

Não quero dizer que vai ser fácil. Podemos não conseguir fazer isto. Vamos ver: é possível? Temos capacidade de levar isso a cabo com segurança? Porque a segurança, para os jogadores e torcedores, está cima de tudo. Se você não consegue assegurar a segurança, então vai ter de aguentar o tranco e dizer que “podemos passar sem o esporte nesta temporada”.

Algumas pessoas estão clamando pela retomada dos eventos esportivos, incluindo Trump. Acha que é um impulso correto?

Há uma diferença entre impulso e o que você vai fazer. Você não deve agir por impulso. Adoraria a volta dos eventos esportivos. Mas como autoridade de saúde, médico e cientista, preciso dizer que no momento, vendo o país como está, não estamos ainda prontos. Seria possível, dependendo da modalidade esportiva, mas ainda não.

O esporte, no final, é entretenimento. O senhor acha que atividades essenciais têm de vir em primeiro lugar?

Acho que os serviços essenciais são uma grande prioridade. Sem dúvida. Não queremos que a economia desmorone completamente. Mas o esporte também é importante para a saúde mental e o bem-estar do país. Acho que podemos fazer as coisas simultaneamente, priorizando algumas em comparação com outras.

Obviamente o esporte profissional está mais equipado financeiramente para um retorno. Mas há também os esportes colegiais, os esportes juvenis. Como poderão monitorar tudo isto que o senhor está falando?

Tem a ver com separação física, quando você vai ter equipes jogando basicamente sem público ou com espectadores bem separados fisicamente. Pode ser uma loteria. Ao invés de permitir 5 mil pessoas no colégio ou academia, caso abriguem 20 mil ou 30 mil, você permite um número consideravelmente menor, se eles estiverem separados fisicamente. Mas não agora. Isso poderá ser feito quando a taxa de infecção ficar tão baixa que, se alguém for infectado,  você consegue impedir que a infecção se transforme de novo em uma epidemia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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