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Antero Greco
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Alívio e vergonha

Quem acompanhou pela tevê ou esteve no novo estádio viu a reação intensa e contraditória da torcida do Palmeiras. Assim que terminou o jogo em Salvador, com o Santos a bater o Vitória, houve comemoração e aplausos nas arquibancadas. Alívio porque, com a combinação de resultados, o clube se salvava do terceiro rebaixamento em 12 anos. Logo depois, explodiram as fortes vaias e o coro indefectível de "Vergonha, time sem vergonha!", com os jogadores em discreta comemoração ainda no gramado.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2014 | 02h02

Os palestrinos entraram em parafuso com atitudes extremadas? Da euforia para a fúria em questão de segundos mostraram descontrole emocional? Quase. A oscilação de humor faz sentido, tem lógica e salienta a sabedoria popular, mesmo às avessas. O lado fanático veio à tona com a vibração pelo fato de a equipe, fonte de paixão, ter ficado livre da degola. O aspecto racional deu as caras, na sequência, por revelar o quanto é frágil e limitada essa turma que veste a camisa verde.

É isso: o palmeirense não suporta mais humilhação seguida, não aguenta angústia provocada por repetidas temporadas de decepção, não se conforma com elencos de meia-tigela, cansou de sofrer, de ser espezinhado por rivais e pelos próprios dirigentes. Não tolera sucessivas diretorias que há décadas, cada uma à sua maneira, conturbam uma história gloriosa. Já deu.

O Palmeiras frequentará a elite nacional em 2015 sem merecer, por aquilo que não apresentou. A gestão Paulo Nobre, ao menos nos dois anos iniciais, montou um dos piores times jamais vistos em 100 anos. Um horror, que não custou pouco. Contratações, de técnicos e de atletas, se sucederam aos borbotões para desembocar no quê? Num conjunto descadeirado, amorfo, sem coragem ou qualidade, que penou diante de um Atlético-PR reserva e juvenil. E que, para driblar o descenso, contou com colaboração do árbitro - pra lá de duvidoso o pênalti no empate - e com um gol de Thiago Ribeiro diante do Vitória. O santista fez o gol mais importante no ano do centenário verde.

Justiça se faça também a Fernando Prass. O goleiro evitou tragédia com ótimas defesas. Valdivia, o mago improvável, enfim contribuiu ao jogar fora de forma, assim como tiveram importância os jovens pratas da casa escalados na fogueira. Se pretende investir de modo adequado, Nobre precisa dar hoje o pontapé inicial no planejamento de 2015. E com uma penca de dispensas, de jogadores a executivos. Ou leva a sério o recado deste ano ou oferecerá ao público novos capítulos de terror. Milagres existem, e não é sempre que Santos estão dispostos a interceder.

Balanço. O Brasileiro padece da doença crônica de perda de talentos. Não é de hoje que os times empobrecem à custa de êxodo da rapaziada. Nem por acaso não há craque muito acima dos demais. Há bons valores, e só.

Mesmo assim, a competição proporcionou momentos de emoção, teve disputa equilibrada pelas primeiras e pelas últimas posições. Até a rodada de encerramento persistiu a expectativa por definições, com resposta positiva do público.

O destaque de novo foi o Cruzeiro, com a conquista serena e incontestável do bicampeonato. O Palestra mineiro recolheu safras generosas porque soube plantar bem e com critério, conservou técnico e base. Os paulistas se consolam com São Paulo como vice e Corinthians na Libertadores. O Santos ficou no limbo. Os cariocas amargaram o rebaixamento do Botafogo, enquanto Fla e Flu não saíram do lusco-fusco. A tristeza atingiu os baianos, com a queda de Vitória e Bahia, e merece reflexão o vaivém constante da dupla. Pena.

Pausa. O ano foi intenso, com mais de 220 crônicas. Mas, como sempre, valeu a pena, pela interação gentil com os leitores e pela liberdade de expressão total que recebo do Estado, da direção ao editor de Esportes. Obrigado a todos, um santo Natal e 2015 harmonioso. Nos vemos na primeira quinzena de janeiro.

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