Lucy Nicholson / Reuters
Lucy Nicholson / Reuters

Allyson Felix diz tentar ver lado positivo de Tóquio-2020 ser adiado: 'tempo para ficar mais forte'

Velocista norte-americana comenta sobre a preparação para mais uma Olimpíada e o fato de treinar em casa

Entrevista com

Allyson Felix, velocista norte-americana

Elena Bergeron, The New York Times

11 de maio de 2020 | 13h40

Allyson Felix passou os últimos dois anos esperando o verão (europeu) de 2020. Allyson, velocista seis vezes campeã olímpica, precisou de oito meses para se recuperar após dar à luz prematuramente a filha, Camryn, em novembro de 2018.  Enquanto planejava seu retorno às pistas, Allyson, de 34 anos, criticou seu principal patrocinador, a Nike, por reduzir o pagamento ou rescindir contratos com atletas grávidas e tornou-se uma defensora da saúde materna. Ela conseguiu um novo patrocinador, a Athleta, marca de roupa esportiva.

O marido de Allyson, Kenneth Ferguson, pediu demissão de seu emprego na Chrysler, e a família se mudou de Michigan para Los Angeles, para que Allyson pudesse treinar com seu treinador, Bob Kersee, antes das Olimpíadas de Tóquio, que estavam programadas para começar em julho. Então, em 24 de março, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que os jogos estavam adiados até 2021.

"Quando você já está esperando há um ano, outro ano parece tão distante e há tantas pessoas que se reúnem para me ajudar a fazer isso acontecer", disse Allyson. "Pedir a todas essas pessoas que continuem fazendo isso por mais um ano fez com que eu me sentisse um pouco confusa com tudo isso."

O New York Times conversou com Allyson sobre como ela está lidando com a situação atual, seu treinamento e se é possível encontrar um lado positivo na interrupção (do calendário de competições).

Diga como são um dia e uma semana normais para você. Qual é a diferença entre o normal e o agora?

Levanto e passo um tempo com minha filha todas as manhãs, meio que deixando ela pronta. E então vou treinar, e agora estamos treinando onde quer que seja possível - trilhas isoladas, campos de beisebol vazios, em qualquer lugar, mesmo no próprio bairro onde moro, como nas ruas ao redor da minha casa. Em qualquer lugar onde as pessoas não estejam e possamos correr de alguma maneira.

Faço isso e depois volto para casa e faço meu programa de levantamento de peso. Basicamente, eu tenho uma academia em casa, de modo que tem funcionado muito bem fazer esse trabalho aqui. E eu vejo minha filha entre alguns intervalos do treino, porque ela está em casa e ela gosta de espiar por cima do corrimão e me ver levantar os pesos e tudo mais. Foi uma grande mudança, mas é divertido olhar para cima e vê-la.

No momento, passo entre duas horas e meia a três horas correndo e fico em torno de duas horas na academia. E então eu meio que faço alguma tarefa doméstica ou coloco minha filha para cochilar naquele momento. Ela tira uma soneca e eu vou limpar a casa, trabalhar ou fazer o que for necessário. E depois faço o jantar e jantamos em família. 

Podemos passar algum tempo no quintal ou dar um passeio, apenas fazendo algo juntos antes de eu começar a rotina de sono da minha filha. Preparo isso e, em seguida, relaxo um pouco ou faço algum tratamento ou tomo um banho de gelo ou faço algum tipo de autotratamento, já que agora estou fazendo tudo isso sozinha.

Você está treinando na academia sozinha ou com um treinador? Como você gerencia isso com o distanciamento social?

Geralmente, treinamos em grupo, mas por causa de tudo o que está acontecendo agora, somos apenas eu e meu treinador. Ele está usando uma máscara e luvas, e estamos mantendo uma distância de cerca de dois metros enquanto treino. Normalmente, eu chego uma hora antes dele e faço meu aquecimento completo para que ele esteja lá apenas para a administração do treino.

Ainda estamos em um ponto muito intenso de treinamento, porque continuaremos avançando e ainda treinamos e tentamos simular um pouco da temporada para tentar ter a sensação de competição, mesmo que seja apenas eu contra o relógio.

Muitos já escreveram: "Ela tem mais um ano. Tenho certeza que ela vai gostar disso. " Como você reage quando as pessoas dizem isso? Existe uma vantagem em ter mais um ano para treinar?

Estou optando por focar definitivamente no lado positivo. Estou tomando uma decisão consciente ao fazer isso, mas não era a situação ideal. Como atletas, treinamos com um pico específico para estarmos prontos em um momento específico. Agora que esse momento mudou, e para mim, com 34 anos, preferia que isso (Olimpíadas) acontecesse agora. Mas, definitivamente, estou tentando ver o lado positivo e perceber isso como um tempo para ficar mais forte e tudo mais.

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Agora que esse momento mudou, e para mim, onde estou, com 34 anos, preferia que isso (Olimpíadas) acontecesse agora. Mas, definitivamente, estou tentando ver o lado positivo e perceber isso como um tempo para ficar mais forte e tudo mais
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Allyson Felix, velocista norte-americana

Você está acompanhando algum programa de TV, lendo um livro ou um assistindo a algo para passar o tempo? Como você tem se divertido quando não está treinando?

Estamos acompanhando muitas coisas. Recentemente, li o livro de Michelle Obama Minha história. Isso foi muito inspirador e aconteceu na hora certa. Ter mais tempo para fazer coisas como essas que eu não teria antes por conta das viagens. 

Nós conversamos sobre (o seriado) Ozark, apenas algumas coisas divertidas. Fazemos churrasco no quintal e aproveitamos o fato de estarmos perto um do outro. Eu acho que essa parte é um presente porque minha agenda era tão louca antes que eu não teria tido esses momentos para fazer coisas assim. Então isso tem sido bom.

O que você gostaria de ter feito antes do isolamento ter começado?

Meu Deus, algo como passar tempo com as pessoas. Eu fico tão ocupada com o trabalho. Para mim, é difícil apenas encontrar meus amigos e familiares. Sinto que isso está amplificado agora, porque faz tanto tempo que não conseguimos, tipo, fazer qualquer coisa, sair ou simplesmente ir a um jantar. Principalmente com minhas amigas. Sinto que consigo dar um jeito com todos os demais.

Você percebeu se algum de seus vizinhos começou a sair de casa para lhe observar treinando, já que agora não há nada de esportes para se ver na TV?

Alguns vizinhos têm aparecido em suas varandas. Temos algumas crianças menores no bairro que apareceram e meio que ficaram observando. Eu acho que no começo eles pensavam: "O que está acontecendo?". Agora eles aparecem de tempos em tempos. Eu acho que, como todos estão em casa, eles estão muito mais conscientes do que está acontecendo no bairro. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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