Alto nível ocasiona mais lesões

Problemas como o de Jade podem abreviar carreira de atletas de ponta

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

Jade Barbosa, Daiane dos Santos e Diego Hypólito. Nomes que, além de figurarem no mural dos principais ginastas brasileiros, entram juntos na mesma estatística: têm as lesões como companheiras constantes na vida de cada um desses atletas, entre tantos outros.A dor é parte inerente na preparação e na vida de um competidor de alto nível, dizem os especialistas. Mas, quando uma garota de 17 anos, como Jade Barbosa, tem o diagnóstico de uma lesão séria como a necrose do principal osso do punho direito, e a informação de que o desgaste da região é comparado ao de uma pessoa de 50 anos, um sinal de alerta aparece. A ginástica teria um potencial de comprometimento maior do que outros esportes? E que tipo de seqüelas um atleta leva para o resto da vida?Profissionais da área tentam desmistificar a impressão de que a modalidade é potencialmente mais perigosa do que outras. "Até pelo risco iminente, devido aos saltos e às grandes alturas, a ginástica é cercada de muito cuidado com a prevenção de acidentes", afirma Mariana Tsukamoto, professora de ginástica artística da Faculdade de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP). Um estudo americano de 1999, que investigou internações resultantes da prática esportiva, ratifica a tese: indica que a ginástica artística foi apenas o 24º esporte dentre as incidências de acidentes no ano anterior.O problema, diz a especialista, é a maneira como atletas e técnicos encaram a rotina de treinos nos tablados. "Tudo faz parte de um processo. Os atletas sempre querem buscar o máximo e alguns não respeitam os limites em busca do melhor resultado", explica. "Os técnicos, às vezes, podem exagerar nas cargas. O problema não é o treinamento, mas como ele é realizado. Na maioria dos casos, o exagero aparece em conseqüências futuras - e isso não é uma exclusividade na prática da ginástica."A ex-ginasta Soraya Carvalho, por exemplo, sabe o que é ver a carreira prejudicada pelo excesso. Às vésperas da Olimpíada de Atlanta, em 1996, relatava dores insuportáveis - que, segundo afirmou à época, foram ignoradas pela técnica Georgette Vidor. No médico, a constatação: fratura por estresse na tíbia e sangramento nas áreas de crescimento da perna. Foi operada e perdeu os Jogos.Também com um histórico longo de lesões durante sua carreira, a ex-ginasta Luisa Parente, a primeira atleta de destaque da modalidade no País (foi finalista nos Jogos de Seul, em 1988), decidiu abandonar o esporte de alto nível há 13 anos. Hoje, aos 35, afirma que não tem seqüelas nem sente dores. "Posso falar com propriedade: a aposentadoria veio após o Pan de Mar del Plata, em 1995, quando eu já tinha sofrido muito com lesões e cirurgias. Depois de um período inicial em que sentia dores nos pés e na coluna, digo que hoje sou saudável."O médico Moisés Cohen, contudo, faz um alerta. Chefe do Centro de Traumato-Ortopedia do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), informa que muitos atletas estão exagerando na carga de treinos. "E uma vida com muitas lesões dificilmente vai manter um ex-atleta saudável", aponta o especialista em aparelho locomotor. "Quem abusa da sobrecarga precisa saber: vai pagar a conta mais à frente."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.