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Alvo de polêmica, novo tênis da Nike pode dar vantagem injusta a maratonistas

Sapatilhas podem ajudar atletas a bater recordes

Jeré Longman, The New York Times

22 de março de 2017 | 14h49

Os tênis têm as cores de drinques tropicais: verde-limão, laranja e cor-de-rosa, como se o logo fosse um guarda-chuvas, ao invés do desenho da Nike. Dá até para esperar que as palmilhas tenham cheiro de rum e coco.

Embora o esquema de cores possa sugerir certa frivolidade, o mesmo não pode ser dito dos resultados em corridas. Os sapatos estavam nos pés de todos os três medalhistas da maratona masculina dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. No mesmo ano, eles calçaram os pés dos vencedores das maratonas de Berlim, Chicago e Nova York.

O design mais recente parece ter produzido tempos mais rápidos e resultados impressionantes em corridas internacionais. Entretanto, isso também deu origem a outro debate a respeito dos avanços da tecnologia e a área obscura na qual a inovação se depara com regras extremamente vagas a respeito do que caracteriza uma vantagem injusta para os pés.

Qual é o limite da assistência?

Muitos esportes enfrentam dificuldades para resolver esse problema. A natação permitia o uso de roupas que cobriam o corpo todo e ajudavam a bater recordes, banindo os acessórios após os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, uma vez que as vestimentas aumentavam a capacidade de flutuar e a velocidade dentro da água. Da mesma maneira, o atletismo teve de encarar a questão difícil das próteses do corredor sul-africano Oscar Pistorius.

O problema mais recente são os sapatos. O órgão responsável pela modalidade, a Associação Internacional das Federações de Atletismo, afirmou por e-mail que havia recebido uma série de questionamentos sobre os corredores de elite que utilizam novos tipos de calçado feitos por diversas empresas.

Bret Schoolmeester, diretor sênior de calçados de corrida da Nike, afirmou: “Tenho certeza de que estamos fazendo tudo de acordo com as diretrizes oficiais”.

No dia 7 de março, a Nike lançou um novo modelo, uma versão customizada dos tênis usados pelos vencedores da maratona no Rio de Janeiro, além de outros grandes nomes do atletismo, como parte da campanha ousada – ou espalhafatosa, segundo muitas pessoas – sobre romper a barreira das duas horas na maratona em maio.

A Adidas, cujos tênis foram usados pelos últimos quatro responsáveis por bater os recordes mundiais em maratonas, também lançou recentemente um novo modelo de tênis, em uma campanha menos exagerada para baixar o atual recorde de 2 horas, 2 minutos e 57 segundos, para 1:59:59, ou menos.

George Hirsch, diretor da New York Road Runners, que organiza a Maratona da Cidade de Nova York e outras 50 corridas, afirmou que uma série de coisas – de corridas de elite a competições por faixa-etária – podem ser afetadas pelas novas tecnologias. Seria impossível conferir os calçados de centenas, ou milhares de corredores antes de cada prova, afirmou.

“Isso muda todo o cenário, já que se as empresas de calçados patentearem novos modelos e os colocarem no mercado, essas vantagens vão nivelar muita gente”, afirmou Hirsch.

Todo tipo de calçado melhora o desempenho. Do contrário, as pessoas correriam descalças. Mas qual é o limite em que essa melhoria se torna inaceitável para uma competição justa? Ninguém sabe ao certo.

O modelo de tênis da Nike utilizado pelos medalhistas nos Jogos Olímpicos, que será vendido a partir de junho por US$ 250, foi batizado de Zoom Vaporfly. O calçado usado no projeto Breaking2 – a campanha da Nike para superar a marca das duas horas nas maratonas – é uma versão customizada conhecida como Zoom Vaporfly Elite, e a empresa se refere a ele como um “protótipo de carro”.

Três maratonistas do leste africano patrocinados pela Nike, incluindo o campeão dos Jogos Olímpicos de 2016, Eliud Kipchoge, do Quênia, tentarão romper a barreira das 2 horas na pista de Fórmula 1 de Monza, na Itália. Entretanto, a Nike afirmou que a tentativa não atenderá todas as exigências necessárias para que o recorde seja oficial.

Alguns críticos acusam a Nike de criar uma simples jogada de marketing, ao invés de um evento esportivo de verdade.

Os corredores irão utilizar calçados que foram adaptados especificamente para seus pés. A questão que persiste é se os novos modelos de tênis usados nas Olimpíadas e em maratonas importantes estão de acordo com os padrões da IAAF, que não são muito claros.

Os calçados pesam cerca de 180 gramas e contam com uma entressola espessa, mas leve, que devolveria 13 por cento mais energia do que as entressolas convencionais. Kipchoge afirmou que gosta do amortecimento, que diminuiu as dores nas pernas durante a recuperação das corridas.

Uma chapa fina e rígida de fibra de carbono com a curvatura de uma colher foi embutida ao longo da entressola. De certa forma, essa curva também se assemelha a uma lâmina. A chapa foi projetada para reduzir a quantidade de oxigênio necessário para correr em um ritmo mais puxado. Ela é capaz de armazenar e liberar energia a cada passada, servindo como uma espécie de catapulta que lança os atletas para frente.

A Nike afirmou que a chapa de fibra de carbono economiza quatro por cento da energia necessária para correr a determinadas velocidades, quando comparada a outros calçados de corrida populares da marca.

Se isso for verdade, afirmou Tucker, o cientista esportivo sul-africano, “seria o mesmo que descer uma ladeira em um gradiente relativamente inclinado de 1 a 1,5 por cento”.

“Essa é uma diferença considerável”, acrescentou.

A regra 143 da IAAF afirma atualmente que os calçados “não devem ser construídos de forma a dar assistência adicional aos atletas, incluindo por meio da incorporação de tecnologias que deem ao usuário qualquer tipo de vantagem injusta”.

Mas o que é uma vantagem injusta? Nada disso está claramente explicado.

As autoridades da Nike afirmam que trabalharam lado a lado com a IAAF ao longo da criação do percurso do projeto Breaking2, submetendo inclusive os atletas a testes antidoping e “compartilhando” os calçados com o órgão internacional. A empresa também destacou que as solas de fibra de carbono já foram usadas anteriormente pelo setor dos calçados de corrida.

“Estamos dando aos nossos atletas um benefício que está de acordo com os termos das regras”, afirmou Schoolmeester, da Nike, acrescentando que “não estamos utilizando nenhum tipo de impulso ilegal, nem nada do tipo”.

Tucker, fisiologista esportivo da Faculdade de Medicina do Estado Livre de Bloemfontein, na África do Sul, afirmou que acredita que o tênis da Nike “provavelmente deveria ser ilegal”, já que seu objetivo é funcionar como uma espécie de mola. Segundo ele, essa possível proibição deveria ocorrer em conjunto com uma escrita mais clara das regras vagas da IAAF.

O maratonista mais rápido da Nike até o momento, Kenenisa Bekele, da Etiópia, faz parte de um projeto para romper a barreira das duas horas, organizado por Yannis Pitsiladis, cientista esportivo da Inglaterra. Durante a Maratona de Berlim, em setembro, Bekele usou o Zoom Vaporfly e registrou o segundo melhor tempo da história das maratonas: 2:03:03. Ele planeja usar o mesmo modelo para tentar bater o recorde mundial durante a Maratona de Londres, em abril.

Este ano, Pitsiladis realizou uma tomografia computadorizada dos tênis utilizados por Bekele em Berlim. Foi então que notou a chapa de fibra de carbono na entressola.

Uma vez que a chapa se assemelha a uma espécie de mola, afirmou Pitsiladis, ele espera que o calçado seja proibido. Entretanto, enquanto isso não acontecer, Bekele planeja continuar usando o modelo. Por meio de Pitsiladis, o maratonista afirmou que gostava do amortecimento e do fato de que suas panturrilhas não ficam tão doloridas após corridas longas.

“Será que ele poderá usar os tênis em Londres?”, questionou Pitsiladis, professor de ciência esportiva na Universidade de Brighton, na Inglaterra. “Ou será que, após a corrida, alguém irá dizer que o recorde mundial não é mais válido porque ele utilizou calçados proibidos?”

O ex-maratonista holandês Jos Hermens, cuja empresa de gestão esportiva representa o medalhista olímpico Kipchoge, Bekele e outros maratonistas do alto escalão, afirmou que ficaria “surpreso e desapontado”, caso o modelo fosse proibido.

O esporte deveria continuar a adotar avanços tecnológicos, afirmou, assim como quando as pistas deixaram de ser feitas de cinzas e passaram a ser feitas de borracha sintética, as varas para salto passaram a ser feitas de fibra de vidro, ao invés de bambu, ou os tênis passaram a usar ar e gel como amortecedores.

“Não estamos na Idade Média. Novas técnicas e materiais vão ser inventados. É hora de dar um passo à frente, ao invés de recuarmos”, afirmou Hermens.

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