Ameaça do IRA paira sobre os Jogos

Para autoridades britânicas, dissidentes do grupo separatista irlandês assustam mais que a rede Al-Qaeda

ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2012 | 03h07

LONDRES - Dissidentes do Exército Republicano Irlandês (IRA) são vistos por autoridades britânicas como uma ameaça mais real do que a Al-Qaeda à segurança dos Jogos Olímpicos de Londres. O IRA entregou as armas e abandonou oficialmente a campanha para retirar a Irlanda do Norte do Reino Unido em 2005. Mas facções internas que não concordam com o acordo de paz se reorganizaram.

Em um ato histórico, em junho, a Rainha Elizabeth II e o vice-premier da Irlanda do Norte, Martin McGuinness, ex-comandante do grupo separatista, apertaram as mãos. Na mesma época, a Polícia Metropolitana de Londres alertou fornecedores envolvidos no receptivo dos Jogos sobre a ameaça representada pelos dissidentes.

"Há cerca de um mês, recebemos informações da polícia sobre ameaças do IRA para a Olimpíada e fomos instruídos sobre o grupo", disse ao Estado a diretora de um dos principais hotéis da cidade, cadastrado pelo Comitê Organizador dos Jogos para receber delegações e credenciados. Ela não pode se identificar ou dar detalhes sobre segurança, mas diz que a preocupação sobre um ataque é grande. Os 110 funcionários sob sua supervisão receberam treinamento antiterrorismo da Scotland Yard e, entre outras medidas, ela teve de mudar o plano de evacuação do hotel para o caso de um atentado.

Também em junho, a rota da tocha olímpica foi desviada ao chegar à Irlanda do Norte por causa de protestos contra a prisão de membros do Real IRA e Continuity IRA, dois grupos dissidentes. "Eu ficaria muito surpreso se os dissidentes (do IRA) não tentassem algo durante a Olimpíada. Uma pequena bomba próxima de uma das arenas os colocaria na primeira página dos jornais", disse à época o diretor do Centro de Estudos de Terrorismo e Violência Política da Universidade St. Andrews, na Escócia, à Associated Press. Os novos grupos são mais radicais e menos abertos a negociações do que na formação original e, segundo ele, estão "desesperados para serem levados a sério".

Conflito. A irlandesa Joan McCreery conhece bem o conflito que dividiu protestantes e católicos por quatro décadas e deixou 3,5 mil mortos, entre eles o cunhado dela. Fugiu com os três filhos quando o mais velho quase foi morto após o marido, protestante, envolver-se na luta para vingar o irmão. Foi em 1999. Hoje está divorciada, vive no interior da Inglaterra e trabalhará como voluntária nos Jogos. "A situação é instável na Irlanda do Norte. Esses grupos dissidentes são mais violentos e um ataque durante a Olimpíada é possível."

O ministro britânico dos Esportes, Hugh Robertson, alertou, em fevereiro, para informações da inteligência britânica que apontavam ataques terroristas por dissidentes do IRA como uma "ameaça real" aos Jogos Olímpicos. "Quando começamos a falar sobre segurança, há dois anos, ninguém previa o aumento do perigo que os dissidentes republicanos representam."

As ameaças se intensificaram no último ano. Em janeiro, a polícia da Irlanda do Norte evitou um ataque a bomba em Belfast pelo Oghlaigh, outro grupo dissidente. As autoridades não tinham sido avisadas sobre o ataque, como era tradição do IRA.

O serviço de inteligência britânico e o Comitê de Segurança dos Jogos estão sob forte pressão. Na semana passada, 3,5 mil soldados do Exército foram convocados, após a empresa G4S declarar que não garantiria o efetivo de 10,4 mil homens, como prometido. Hoje, outros 1,2 mil soldados entram em ação. No total, haverá mais forças de segurança na Olimpíada do que os 9 mil soldados britânicos que lutam no Afeganistão.

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