America?s Cup no caminho de Scheidt

Numa classe em que todos os barcos são iguais, como a Laser, o que diferencia um campeão é muito talento, disciplina e o gosto pela vela. Na definição do técnico Cláudio Bieckark foram esses os fatores que fizeram de Robert Scheidt o maior velejador da classe Laser de todos os tempos - bicampeão olímpico, dono de uma medalha de prata, sete vezes campeão do mundo, tricampeão pan-americano e 110 títulos na carreira, que deslanchou a partir de 1995. "É um apaixonado pela vela", disse o treinador. Scheidt retribuiu os elogios. "Se eu pudesse dava metade da medalha para ele." A America´s Cup, torneio de vela oceânica - o iatista já recebeu algumas sondagens - pode ser o caminho do campeão enquanto decide a classe olímpica que escolherá para Pequim, em 2008. Robert Scheidt acabou com a angústia da falta de uma medalha de ouro que já durava quatro anos (em Sydney o Brasil ganhou seis pratas e seis bronzes) e o que isso significou ficou evidente hoje, no dia seguinte a conquista, quando sua entrevista lotou, pela primeira vez, o auditório da Casa Brasil em Atenas. E quando ao invés de gols e faltas se falou sobre largadas escapadas e vento. Desde o primeiro telefonema de congratulações, do presidente Luis Ignácio Lula da Silva, ainda na Marina de Agios Kosmas, no fim da tarde, Scheidt só parou de receber parabéns bem tarde da noite, quando foi jantar com os pais Karen e Fritz, que acompanharam a regata. Ligaram a irmã, sobrinha, parentes e amigos. Também recebeu cumprimentos de todos os atletas brasileiros na Vila Olímpica, "do restaurante ao dormitório". A medalha ficou na cabeceira, ao lado da cama, para ver que era verdade quando acordasse pela manhã. "Eu entrei no quarto e ele estava com a medalha na mão. Agora não sei se ele dormiu ou não com ela", comentou o técnico Cláudio Bieckark. Hoje, Scheidt ainda relembrou momentos do tenso último dia de competições, quando esperou bastante para largar, teve uma largada cancelada e quase foi campeão olímpico sem velejar, tudo por falta de vento na raia de Agios Kosmas. "O mais difícil foi ficar com a cabeça na regata que poderia acontecer a qualquer momento. Pensava que estava chegando no limite da hora e que eu poderia ser campeão olímpico sem correr a 11.ª regata. Faltam 20 minutos para às 4 horas, para ser campeão olímpico, mas ainda tem de correr uma regata. Poderia ocorrer a largada e eu já sair meio derrotado. Eu tinha de pensar na regata, em ganhar a medalha, indo bem na regata." Fez uma prova conservadora, evitando confronto direto com outro barcos, tomando muito cuidado na hora de montar as bóias e também com a regra 42, que pune iatistas por propulsão do barco com o corpo - um bote do juri esteve ao seu lado durante toda a regata. Disse que a sensação foi diferente da conquista do ouro em Atlanta, em 1996. "Na primeira Olimpíada, em Atlanta, eu era imaturo, e o fato de ter perdido por um ponto em Sydney, ter recuperado o título agora dá um gostinho mais legal. Quando acabou Sydney eu comecei a criar aquele sonho de quero ser campeão de novo. A sensação de realização é tremenda, dá vontade de apertar o pause nesse momento." Sua popularidade em São Paulo, onde vive, já aumentou muito - ganhou uma lavagem de graça em um posto de gasolina, peixe numa peixaria de Ilhabela - mas entende que deve manter a humildade. Ainda teve de responder perguntas sobre Bem Ainslie, seu rival em Sydney, quando ficou com a medalha de prata. "Ele tomou um rumo diferente, foi para a classe Finn, que requer uma transformação do corpo, foi de 80 para 95 quilos, mas enfim, continuou mostrando o valor individual dele, é campeão olímpico, é bicampeão mundial de Finn, um velejador magnífico, não é demérito nenhum ter perdido o ouro para ele." Sondagens - A America´s Cup pode ser o caminho paralelo para Scheidt na opinião do conselheiro e técnico Cláudio Bieckark, paralelamente a uma classe olímpica. "Eu não descartaria uma participação em America´s Cup, um apoio muito grande na carreira de qualquer velejador. Isso vai depender de convites. Quanto as classes olímpicas acho que teria a opção de ir para qualquer uma delas, com exceção da Mistral. Se adaptaria na 49er, Tornado e Star. Na Finn tem a questão do peso", observou Bieckark. Scheidt observou que deseja expandir seus horizontes na vela. "Se eu for velejar de barcos maiores vou aprender coisas que não sei ainda, desde o trabalho com equipe, o desenvolvimento de velas, mastros, com match race. Se eu for velejar de star vou aprender muito de regulagem de barco, se eu for para o Tornado vou aprender a velejar em dupla, num catamarã, ou até no 49er, um barco bem radical. Tem esse lado saudável de começar da estaca zero." Mas não descartou totalmente a possibilidade de velejar de Laser como havia dito no dia anterior. "O Laser mora no meu coração, é o barco pelo qual tenho carinho especial. Se eu ver que vale a pena tentar de novo uma campanha para Pequim de Laser..."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.