Nilton Fukuda/Estadão
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Andamos na contramão

A covid-19 vai atingir em cheio as favelas onde brotam há décadas os craques brasileiros

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 04h00

A história do futebol brasileiro, com seus cinco títulos mundiais e uma legião de jogadores reverenciados, entre eles o melhor de todos, Pelé, sempre contou que nossos craques foram forjados na rua, descalços e adaptando a própria bola da pelada. Sempre ouvimos dizer que eles vieram das comunidades pobres e desfavorecidas dos centros urbanos. A literatura esportiva comprova isso. O jornalismo contou histórias de todos eles. O retrato de nossos esportistas continua fiel ao passado. O perfil do jogador de futebol é o de um garoto pobre, que mora em condições precárias nas periferias das cidades e que tem no futebol chance única de dar uma vida melhor a seus pais e parentes e, claro, a si próprio.

No momento em que todos se unem na luta contra a covid-19 e a pandemia no Brasil, esses meninos que sustentam o futebol brasileiro por décadas correm perigo. Esqueçam os jogadores consagrados e os que reverenciamos por suas obras e conquistas. Refiro-me aos que ainda não chegaram lá, aqueles que estão nas bases ou que alimentam o sonho de estar nelas. Digo mais. Aqueles que ainda nem nasceram e pode ser que nem nasçam caso seus pais sejam contaminados e mortos pela doença que desce do Hemisfério Norte e atinge em cheio favelas do Sul.

Nossos futuros craques estão condenados numa sociedade que não tem lugar para eles. Comunidades estão sendo esquecidas nesta batalha contra o coronavírus. Não há água em muitas delas. Sabão para lavar as mãos é produto raro. Cômodos separados para quem apresentar sintomas não faz parte da concepção de quem vive em tais condições. Tudo o que está sendo feito no Brasil para coibir o avanço da doença não é feito pensando nessa gente. Mais do que nunca, estão excluídos.

A conclusão não é apenas minha. É dos líderes comunitários que tentam se organizar para fazer o trabalho que nossos governantes não fazem. O sistema está contaminado. Daí a necessidade de mudar o Brasil, de deixar de lado disputas políticas em prol da construção de uma sociedade mais igualitária, sem retórica, onde a doação individual e o trabalho voluntariado, sempre bem-vindos, não podem ser a forma mais eficiente de tratar dos menos favorecidos. Agora, tudo é improvisado, feito puxadinhos. Espero que o Brasil tenha bons jogadores nas próximas décadas, quando o País superar a pandemia e apresentar para a sociedade o perfil dos seus mortos.

Construímos estádios para a Copa do Mundo e centros esportivos destinados aos Jogos Olímpicos. Sabemos que essas obras foram importantes para gerar empregos e referência. Trouxeram negócios ao Brasil. Sabemos ainda que muito dinheiro foi mal empregado e que construções foram inúteis, sem entrar no mérito das falcatruas que estão sendo investigadas por órgãos competentes. O fato é que precisamos também de outros tipos de obras e atenção que o coronavírus nos joga na cara. Hospitais aparelhados, equipamentos de saúde, moradias, saneamento básico, educação, menos trabalho informal e mais trabalho regular, empresas consolidadas, riqueza para superar turbulências, verbas para pesquisas... Não é errado querer ser sede de Copas e Olimpíadas. Errado é abandonar a população pobre, de onde brotam nossos craques, por exemplo. O Brasil anda na contramão.

A paralisação que a doença causa no futebol brasileiro dá também um soco no estômago de nossos dirigentes, que agora se encontram sem reservas para sobreviver. Não há dinheiro em caixa. Não há bilheterias porque não há jogos. Não há venda porque o mercado está com outras preocupações. Clubes vão cair de joelhos na porta de governos e bancos. É outra derrota que o vírus nos impõe.

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