Arquivo Pessoal
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Ângelo Assumpção ressurge na passarela do SP Fashion Week ainda com objetivo de seguir na ginástica

Atleta, que não compete há mais de dois anos e meio, vai desfilar com roupas da coleção "Panterona", do estilista Isaac Silva; aos 25 anos, ele ainda não desistiu de carreira esportiva

Roberto Salim, especial para o Estadão

03 de junho de 2022 | 10h00

Em vez de giros acrobáticos e exercícios de técnica e força, passos cadenciados. Talvez apenas os olhares na plateia permaneçam os mesmos: fixados em cada movimento de quem se exibe. A poucos dias de completar 26 anos, Ângelo Assumpção muda momentaneamente de palco: do tapete da ginástica para a passarela da moda. Neste sábado, ele vai ser um dos modelos a desfilar na São Paulo Fashion Week vestindo roupas da coleção "Panterona", do estilista Isaac Silva.

"Recebi em novembro o convite para desfilar e como o Isaac é um estilista representativo das culturas pretas e indígenas, isso pesou muito na minha decisão de aceitar o desafio", contou o ginasta, que não compete há mais de dois anos e meio, desde que não teve o seu contrato renovado com o Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, onde passou muitos anos de sua vida. "Desde que o contrato foi rescindido, eu não competi mais."

Muito se falou na época, inclusive em acusações de racismo para explicar sua saída do clube. A verdade é que a polêmica foi tão grande que até hoje Ângelo não conseguiu um lugar para retomar sua carreira no alto rendimento do esporte nacional. E não foi por falta de tentativas. "Fiz vários contatos, mas nunca obtive uma resposta", afirmou o atleta, que atravessou períodos de depressão, mas nunca parou de treinar improvisadamente no quintal de sua casa ou em academias. "Não tive acesso aos ginásios específicos de ginástica, mas isso não me fez desistir, embora tenha mexido com a parte psicológica."

No momento, Ângelo aguarda contatos que podem indicar o reinício de sua carreira esportiva, busca ginásios e está próximo de conseguir um. Mas, por enquanto, não pensa em aceitar um convite para trabalhar em um circo na Europa - o caminho de muitos ginastas quando encerram sua carreira no esporte. Ele acredita que ainda não acabou seu ciclo na ginástica. 

"Creio que retomando os treinos agora, eu poderei voltar a competir a partir do ano que vem, porque mesmo me mantendo em forma durante todo esse período, o alto rendimento exige muito mais do atleta. E hoje estou longe da condição que me faria executar graus mais difíceis dentro do meu esporte, porque a ginástica não é simples." E ele mesmo conclui: “a moda também não é!”

Sendo assim, o frio na barriga sentido antes das grandes competições, vai ser sentido também quando entrar na passarela do Komplexo Tempo, no bairro da Mooca. "Existe uma ansiedade, mas tenho aprendido a viver um dia de cada vez. Assim, acredito que na hora em que começar a maquiagem e a preparação para o desfile, estarei mais tranquilo e à vontade, porque o trabalho do estilista Isaac Silva busca a pluralidade, veste todos os corpos. Pessoas altas, baixas, gordas, pretas, indígenas, trans, não binários, gays, bissexuais", diz Ângelo 

"Ele é um estilista baiano que leva a sério a representatividade preta e indígena não só dentro da passarela, mas fora também. E ele consegue linkar isso com a roupa de competição, que não deixa de ser a moda esportiva." Levar a sua história para a passarela é o grande objetivo do ginasta neste momento. "Sou sim, de uma família preta e periférica e discutimos muito isso em casa. Sabemos o quanto é necessário se enxergar para buscar a igualdade racial."

Como se vê, se o afastamento forçado do alto rendimento o tirou do mundo do esporte momentaneamente, mas esse mesmo distanciamento o aproximou da questão que atinge milhares de jovens pretos em todo o País. E é contra o desemprego e o desprezo social que Ângelo Assumpção se propõe a lutar: como modelo a partir deste sábado e como ginasta ainda este ano. Seu cachê não foi revelado.

CASO NORY

Durante uma fase de treinamentos da seleção em Portugal, em 2015, os ginastas Arthur Nory, Henrique Flores e Fellipe Arakawa, então companheiros de Ângelo, publicaram um vídeo em uma rede social em que provocam o amigo, que também aparece na tela. "Seu celular quebrou: a tela quando funciona é branca. Quando ele estraga é de que cor?", pergunta Nory, que ouve "Preto!", como resposta do grupo. "O saquinho do supermercado é branco. E o do lixo? É preto!" Constrangido, Ângelo fica calado nas imagens.

Diante da imediata repercussão negativa, os ginastas correram e postaram outro vídeo, pedindo desculpas e dizendo que era brincadeira. Foram afastados por 30 dias pela Confederação Brasileira de Ginástica. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) arquivou o caso, sem qualquer punição. Arthur Nory, que conquistou diversos resultados importantes na carreira, como o bronze no solo dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, admitiu o erro e pediu desculpas anos depois, em 2020.

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