Aos 68 anos, medalhista olímpico Nelson Prudêncio morre em São Carlos

Especialista em salto triplo ganhou prata no México e bronze na Alemanha. Ele sofria de câncer

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2012 | 08h21

SÃO CARLOS - O medalhista olímpico Nelson Prudêncio morreu nesta sexta-feira, à 0h15, em São Carlos. Aos 68 anos, o ex-atleta sofria de câncer no pulmão e estava em estado de coma induzido na Unidade de Terapia Intensiva da Casa de Saúde, no interior paulista. A doença foi descoberta tardiamente, já em estado irreversível. O velório já está sendo realizado no Cemitério Municipal Nossa Senhora do Carmo e o sepultamento ocorrerá às 16h30.    

 

Nascido em Lins, no interior paulista, em 1944, Prudêncio fez história ao conquistar duas medalhas olímpicas, uma de prata nos Jogos da Cidade do México/1968 e uma de bronze em Munique/1972.

"Quero agradecer a todos os brasileiros pelo apoio que me deram. Eu não desapontei o Brasil. Agora, por favor, deixem-me só que quero chorar. Acho que nunca chorei na minha vida, mas agora vou chorar."

Com essas palavras, Nelson Prudêncio se dirigiu aos repórteres que foram entrevistá-lo após a final olímpica do salto triplo dos Jogos do México, em 68. O brasileiro chegou a ser detentor do recorde mundial, ao registrar um salto de 17,27m, e saboreou a possibilidade de pendurar o ouro no peito. Ele havia voado para desbancar o italiano Giuseppe Gentile, que alcançara 17,22m. Mas o soviético Viktor Saneyev, em sua última tentativa, superou Prudêncio com uma marca ainda mais excepcional, de 17,39m, e se sagrou campeão olímpico.

De qualquer forma, Prudêncio inscreveu seu nome como um dos protagonistas de uma das mais fantásticas finais olímpicas de todos os tempos, ao longo da qual o recorde mundial foi registrado nove vezes no decorrer de quatro horas.

Naquela época, Prudêncio treinava apenas duas vezes por semana, no Jundiaí Clube, porque trabalhava como torneio mecânico e fazia um curso técnico de projetista mecânico à noite.

Não à toa, o triplista embarcou para Munique sem conseguir o índice mínimo estipulado para integrar a seleção brasileira. O Comitê Olímpico Brasileiro, no entanto, o incluiu na delegação, baseado em seu potencial. Em 1966, ninguém menos do que um bicampeão olímpico da prova (52/56), Adhemar Ferreira da Silva, apontara o saltador de Lins, nascido em 44, como seu sucessor.

Em pouco tempo, Prudêncio demonstrou ser um atleta de primeira. Até 64, nunca havia treinado atletismo. Na época, foi chamado por um treinador, que apostou em seu corpo esguio (1,80m e 72kg) para conhecer a modalidade no Jundiaí Clube, que ficava a duas quadras de sua casa. Prudêncio gostou e treinou por apenas cinco meses antes de se sagrar campeão sul-americano de salto triplo.

Nos Jogos Pan-Americanos de 1967, em Winnipeg, no Canadá, Prudêncio conquistou a prata. E isso numa época em que o Pan tinha alto nível em algumas modalidades. Para ficar num exemplo, o cubano Perez Prado Dueña quebrou o recorde mundial no Pan seguinte, em Cáli, ao saltar 17,40m.

Mesmo com medalha olímpica num país que dispunha de estrutura precária para o atletismo, Prudêncio era questionado. O Brasil vivia sob regime ditatorial, e o Comitê Olímpico Brasileiro era comandado pelo major Sylvio de Guimarães Padilha.

Depois da Olimpíada da Cidade do México, Prudêncio entrou para a Aeronáutica, como soldado, pois as Forças Armadas dispunham de melhores instalações esportivas do que o Jundiaí Clube, por exemplo.

Assim, a ausência de Prudente das Olimpíadas do Exército, organizadas em Porto Alegre em 72, levou Padilha a ameaçá-lo de excluí-lo da delegação brasileira que participaria dos Jogos Olímpicos de Munique. O presidente do COB alegava que não poderia incluir um atleta que não estava competindo, pois sua forma física e competência técnica não estavam sendo observadas.

No início da década de 70, os países mais desenvolvidos no atletismo já dispunham de pistas com a superfície emborrachada chamada de tartan. A Cidade Universitária ainda estava instalando, na época, esse revestimento em sua pista. Dessa forma, Prudêncio não titubeou quando recebeu o convite alemão para treinar em uma de suas universidades. O atleta viajou em junho, a fim de apressar sua adaptação às condições alemãs. O convite não se estendia a seu treinador na época, Clóvis Nascimento. Prudêncio abriu mão do acompanhamento do técnico, que consultava enviando cartas pelo correio.

A pressão sobre Prudêncio era grande. Padilha recuou e o convocou. Prudêncio demonstrou, de forma cabal, que a ameaça do militar era absurda e infundada ao conquistar outra medalha em 72, o bronze, com a marca de 17,05m. Saneyev novamente levou o ouro (17,35m), seguido pelo alemão oriental Jörg Drehmel (17,31m).

Prudêncio encerrou a carreira de atleta, mas não a carreira no atletismo. Ele já havia concluído a graduação, em Educação Física, em 71, pela Universidade Federal de São Carlos. Em 82, defendeu sua tese de mestrado, voltado para técnicas de impulsão no salto em distância e triplo. Seus conhecimentos contribuíram para elevar o nível de conhecimento sobre essas provas no Brasil. "Queria ter 20 anos sabendo o que sei agora", disse na época o professor Prudêncio, que depois se tornaria vice-presidente da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo).

O Brasil ainda teve, depois de Prudêncio, mais um grande triplista, João Carlos de Oliveira, o João do Pulo. Dono de duas medalhas de bronze (76 e 80), João foi o primeiro a nos deixar, em 99. Dois anos depois, foi a vez de Adhemar. Agora, o último dos grandes triplistas do Brasil se despede.

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