Werther Santana / Estadão
Werther Santana / Estadão

Apaixonada por corrida, Neide Santos muda vida de jovens e mulheres com projeto no Capão Redondo

Baiana radicada em São Paulo é a responsável pelo 'Vida Corrida', programa que há 23 anos incentiva a prática esportiva aos moradores da comunidade na zona sul paulista

Rodrigo Sampaio, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 05h00

O ano era 1996. Neide Santos havia acabado de fazer sua estreia na Corrida de São Silvestre quando foi interpelada por um repórter de TV pouco tempo após cruzar a linha de chegada. Era a primeira mulher moradora do Capão Redondo, bairro pobre da zona sul de São Paulo, a realizar a tradicional prova. A repercussão da sua presença na maratona chamou a atenção de algumas de suas vizinhas, admiradas com o seu ímpeto. Toda aquela curiosidade foi um dos estalos para que ela desse início ao Vida Corrida, que há 23 anos empodera mulheres e visa tirar crianças do caminho da marginalidade.

Atualmente, o Vida Corrida atende cerca de 240 crianças e adolescentes com idade entre 6 e 15 anos, oferecendo acesso à prática esportiva. As atividades são desenvolvidas três vezes por semana, no período da manhã e da tarde para turmas de até 15 participantes. O programa conta com aulas de futebol para meninas, treinos de atletismo e condicionamento físico para mulheres, além de um espaço público intitulado "Rua de Brincar", destinado à comunidade do Capão Redondo para o incentivo de atividades físicas e o lazer, com o objetivo de democratizar o acesso ao esporte.

Natural de Porto Seguro, na Bahia, Neide, atualmente com 61 anos, mora na capital paulista desde os 6 anos, e enfrentou dificuldades ainda muito jovem. O som das crianças brincando nas ruas do Bom Retiro, onde morava em uma oficina de costura na qual trabalhava já naquela época, era combustível para anseio de sair e correr ao lado das meninas e meninos que observava de longe. Cerceada na infância, foi na adolescência que ela começou a dar seus primeiros passos no esporte, com o atletismo surgindo por um acaso, em 1974, durante uma competição intercolegial no Centro Esportivo Municipal Joerg Bruder, em Santo Amaro.

"Eu jogava bola, mas nunca tinha treinado atletismo. (Certa vez) faltou uma menina no revezamento 4x100m e o professor me chamou. Naquele dia eu comecei a correr e nunca mais parei", conta a ex-aluna da Escola Davina Aguiar Dias. "Aquela menina de 14 anos queria muito ir para uma Olimpíada, mas meus sonhos se foram para trabalhar e cuidar dos meus irmãos."

Na década de 1980, ela se mudou com a família para o Capão Redondo e se deparou com a rotina de violência da região. É um dos bairros mais violentos de São Paulo. Dois anos após se casar e dar à luz ao primogênito, Mark, perdeu o marido, vítima de um assassinato. Apesar do baque, seguiu encontrando um alento no atletismo competindo de maneira amadora em corridas de rua.

Na década seguinte, a dedicação ao esporte ganhou a companhia de outras mulheres. A maioria possuía rotina semelhante, deixando os filhos "ao deus-dará", como define Neide, para cuidar e criar dos filhos dos patrões no trabalho. Essa lacuna também foi apontada por Mark, que pediu à mãe, na época presidente da associação de moradores do Capão, que fizesse algo pelas crianças da comunidade. Assim, em 1999, foi criado o Vida Corrida.

"O Vida Corrida nasceu da necessidade da comunidade em atender essas mulheres. Tudo o que envolve a prática de esportes veio depois. Não tinha plano de negócios, não tinha nada", explica. "Claro que sou suspeita para falar, mas essas mulheres têm um sentimento de gratidão muito grande pelo Vida Corrida. A busca por vagas, sem fazer publicações em mídias sociais, é sempre muito grande", diz.

Ao longo de mais de duas décadas, o Vida Corrida ganhou um novo significado para Neide. No ano seguinte à criação do projeto, Mark, então com 21 anos, foi morto a tiros por um adolescente durante um assalto. Neide buscou ressignificar a perda do filho no atendimento de crianças na comunidade, pedido antigo do primogênito, com o objetivo de evitar que jovens entrem para a vida do crime.

"(O Vida Corrida) É muito ligado ao Mark. Porque se houvesse políticas públicas que atendessem todas as crianças da comunidade, ou parte delas, aquele menino de 14 anos não tinha puxado o gatilho", diz. "Aquele menino teve poucas oportunidades, assim como o meu. Mas o Mark teve o esporte, que educa, disciplina e é transformador. Então, quando isso aconteceu, tive de propor para mudar a vida daquelas crianças."

Aposentada, Neide Santos se dedica exclusivamente ao Vida Corrida. Graças ao projeto, ela viaja o mundo e dá palestras sobre a sua história. Ela ainda mora no Capão Redondo, a 80 metros de onde funciona a ONG, em uma região em torno de uma área remanescente da Mata Atlântica. Convidada para a levar o programa para outros lugares, ela rechaça a ideia, pois acredita ser necessário acompanhar as atividades de perto para se certificar que as mesmas estão causando impacto positivo na região.

"Você só consegue transformar algo naquilo que você está inserido, no que você vivencia. Se você tem um projeto, você precisa conhecer a sua comunidade, saber quem é o seu vizinho, onde ele mora, se ele estuda, se ele tem SUS, se o filho estuda... Se você não consegue vivenciar, não é engajamento comunitário", explica. "Todo mundo encontra a felicidade em alguma coisa, e eu encontrei minha felicidade no Vida Corrida. Eu acordo todos os dias e penso 'eu vou fazer algo por alguém hoje'."

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