Aperitivo indigesto

Há consenso de que a fase de grupos representará etapa adicional na preparação da seleção masculina do Brasil no torneio olímpico de futebol. Um aperitivo antes do prato principal a ser servido na forma dos duelos de eliminação direta. Mais do que presunção se trata de constatação óbvia, pela diferença de história, nível e qualidade dos jogadores nacionais em comparação com Egito, Bielorrússia e Nova Zelândia. Também pudera...

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2012 | 03h06

O tira-gosto inicial quase fica entalado na garganta da equipe de Mano Menezes, no jogo disputado ontem no Old Trafford, o estádio do Manchester United com ocupação parcial de público. Os egípcios pareciam estendidos mais placidamente do que as múmias conservadas nas pirâmides, depois de tomarem três gols em trinta minutos no primeiro tempo. Mas despertaram no segundo, marcaram dois e provocaram calafrios generalizados na armada verde-amarela. O risco de empate existiu, e ficou por um triz.

A animação egípcia se deu na mesma proporção do relaxamento brasileiro. E, mais uma vez, ficou demonstrado que presunção é pecado fatal no mundo da bola. Pois foi nessa tentação que caíram Neymar e a turma dele. Quanto mais consideravam liquidada a tarefa de estreia, tanto mais os faraós se enchiam de brios e iam para cima. Fizeram um gol aos cinco minutos e outro aos 30 por desatenção geral do sistema defensivo brasileiro.

A pressão do Egito ressaltou falhas na estratégia de Mano que, no início, estavam encobertas pelos gols marcados por Rafael, Leandro Damião e Neymar. A dupla de zaga Thiago Silva-Juan bateu cabeça em diversos momentos, assim como Marcelo não teve cobertura suficientemente eficaz nas constantes descidas para o ataque. Que o lateral-esquerdo se arrisque a ir à frente é ótima iniciativa. Desde que tenha a contrapartida da retaguarda a protegê-lo. Isso nem sempre aconteceu e, por lá, os egípcios enveredaram. O debutante goleiro Neto não foi muito incomodado, e ainda assim mostrou insegurança. A seu favor, tem a atenuante da emergência, pegou em cima da hora a vaga que era de Rafael.

Houve méritos, também, ora como não?! A largada com Hulk, Leandro Damião e Neymar mais adiantados, com Oscar a municiá-los, demonstrou vocação para o ataque. Ousadia que está na origem da fama e da glória do futebol brasileiro. Os três se movimentaram bem no começo, assim como o mais jovem integrante do elenco do Chelsea. Oscar parecia tão disposto a deixar boa impressão aos britânicos que participou dos dois primeiros gols - com assistências para Rafael e Leandro Damião, em jogadas rápidas. Caiu de produção no segundo tempo, como os demais.

Mano fez experiências, ao notar que o Egito encorpava. Uma delas não deve ter-lhe colocado a pulga atrás da orelha: tirou Hulk, que se empenhava, e colocou Ganso, para cadenciar o jogo e liberar Oscar. O meia do Santos demorou a engatar. Quando começava a se ligar no que ocorria em volta , já estava quase na hora do apito final do italiano Gianluca Rocchi. Ganso ainda não deslanchou, desde a mais recente cirurgia. Pato entrou no lugar de Leandro Damião e passou em branco.

A vitória importa, sempre, sobretudo em torneio de tiro curto. Por esse aspecto, o Brasil cumpriu a primeira parte do roteiro traçado para o ouro, ao contrário da Espanha, surpreendida pelo Japão na derrota por 1 a 0. Mas fica o alerta para Mano e seus rapazes: não se pode diminuir a marcha. Se o adversário está grogue, o melhor a fazer é mandá-lo a nocaute e não esperar que recobre o fôlego. Ele pode ir à forra e causar estragos.

Boca-livre. A CBF levou para Londres cartolas de diversas federações. O presidente da entidade não negou o voo da alegria e considerou a atitude natural e justa, por ser " gente do futebol". Espanto?! Ora, não faz sentido. Afinal, somos um povo que adora uma boca-livre.

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