Marco Antonio Teixeira/MPIX/CPB
Marco Antonio Teixeira/MPIX/CPB

Após ser atropelado, atleta encontra redenção em uma bicicleta

Acidente mudou a vida de Johnatan, que tenta levar o Brasil ao pódio no Mundial de Paraciclismo

Catharina Obeid, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2018 | 07h00

O paulistano Johnatan Mineiro, crescido na Vila Prudente, estreia nesta quinta-feira no Mundial de paraciclismo de pista que acontece no Velódromo do Parque Olímpico, no Rio. De origem humilde, ele e seu irmão mais novo foram criados por uma mãe solteira e tiveram de aprender a se virar desde cedo. No meio de tudo isso, aos 15 anos, aquele garoto que gostava de brincar na rua e subir em árvores foi atropelado por um motorista bêbado.

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Johnatan estava andando de bicicleta com outros dois amigos no município de Guapiaçu. Nesta idade ele já morava ali pertinho, em São José do Rio Preto, onde permanece até hoje. "Eu estava na estrada e esse individuo entrou no acostamento, quebrou todo o meu lado esquerdo e foi embora", afirma. Dos três, só ele foi atingido pelo veículo.

Seus amigos começaram a pedir ajuda, quando viram um carro voltando. Era o mesmo senhor no mesmo Kadett. "Já vi o estado que ele estava quando entrei no carro, mas ele mesmo disse que estava num churrasco e que quando viu já se encontrava dentro do acostamento", conta. Naquele momento de desespero e muita dor, toda ajuda era bem-vinda. Então seguiram para o hospital mais próximo dali. As consequências? Além de uma fratura exposta grave no braço esquerdo, outros ossos quebrados tanto na costela quanto no tornozelo.

Chegando lá o susto foi ainda maior. “A primeira coisa que me falaram é que teriam de amputar o meu braço”, relembra. Foi a médica, esposa do senhor que o atropelou, que impediu a ação precipitada. Ficou internado por quase dois meses e passou por diversas cirurgias, mesmo sabendo que os danos eram irreversíveis.

Além de todo sofrimento do processo de recuperação e fisioterapia, que durou cerca de dois anos, Johnatan ainda tinha de lidar com as inseguranças comuns a qualquer adolescente. Ele, que era o “galã da escola”, agora se via com vergonha, usando roupas longas para esconder os ferimentos e tendo de enfrentar o bullying diário.

Com o tempo, Mineiro – como é chamado pelos amigos – foi se aceitando. Aos poucos, Johnatan se encontrou em uma paixão que ele tinha desde cedo: a bicicleta. Três anos depois do acidente, ele foi assistir os Jogos Abertos de sua cidade e ao ver os ciclistas seus olhos brilharam. Então ele decidiu que era isso que ele iria ser.

Sua estreia no ciclismo foi em outubro de 2001, com 19 anos, pela categoria estreante. De lá para cá foram 17 anos e muito treino. De segunda a segunda, acumulando até 500 quilômetros por semana. Inúmeras conquistas também. Campeão dos Jogos Regionais, vice brasileiro na prova de quilômetro, bronze na perseguição individual e pentacampeão de bicicross regional são alguns de seus resultados. “Eu me considero normal na bicicleta. Aos olhos das outras pessoas a gente é torto, aleijado, mas com ela eu me tornei mais forte”, diz o atleta de 36 anos.

O sonho no Mundial, que começa nesta quinta e vai até domingo, é ficar entre os três mais bem colocados do mundo na prova de quilômetro da categoria C5 – para atletas com deficiência físico-motoras e amputados que competem em bicicletas convencionais.

As suas principais metas são bater seus tempos no relógio, repetir o resultado de seus treinos e, quem sabe, alcançar pódios ainda mais altos. “Quero viajar em competições fora do Brasil para ser reconhecido internacionalmente”, afirma.

Depois de 20 anos sendo atleta do ciclismo, competindo em categorias convencionais e paralímpicas, Johnatan só tem a agradecer. “Foi o esporte que me tirou de um lugar ruim, perigoso e cheio de necessidades. O meu fim ali onde eu morava era ser igual aos outros. Hoje uns estão presos, outros já morreram”, comenta.

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