Após dez anos, Vila Olímpica de Atenas está abandonada

Após realização da Jogos Olímpicos em 2004, arenas modernas tiveram pouco uso e se tornam 'elefantes brancos' para a Grécia

KAROLINA TAGARIS, REUTERS

07 de agosto de 2014 | 11h03

Pouco menos de dez após a realização dos Jogos Olímpicos de 2004, Atenas atualmente é palco de uma manada de 'elefantes brancos'. Considerada uma chance de transformar a imagem da Grécia no exterior e impulsionar o crescimento, algumas instalações esportivas, que à época custaram 9 bilhões de euros (R$ 27 bilhões), estão completamente abandonadas, enquanto outras são utilizadas ocasionalmente para conferências e casamentos.  

No ex-centro olímpico de remo, na cidade de Maratona, que deu o nome à tradicional prova de corrida de rua, cachorros abandonados brincam entre o mato alto enquanto alguns jovens treinam na água. Palco da medalha de ouro conquistada pelos brasileiros Ricardo e Emanuel, o estádio de vôlei de praia é um dos locais que estão ao relento na capital grega. Sem receber cuidados, o local, que ainda abriga o mastro da rede, tem parte de seu terreno coberto por plantas que cresceram com o passar do tempo.

Um dos locais que mais chamam a atenção pelo abandono é a piscina olímpica. Local do primeiro recorde quebrado pelo norte-americano Michael Phelps, o complexo possui água parada da chuva em sua piscina com direito  a lixo espalhado e até mesmo cadeiras. Os complexos de canoagem, hóquei e de remo são outros que chamam a atenção. Abandonada, a Vila Olímpica possui diversas rachaduras em seu complexo, além de objetos enferrujados, montantes de cadeiras quebradas e pichações por todos os lados. 

Poucos dias antes do aniversário dos Jogos de 2004, realizados entre 13 e 29 de agosto, e em um momento no qual o Brasil se prepara para os Jogos Olímpicos do Rio em 2016, muitos questionam como a Grécia, um dos menores países a sediar as Olimpíadas, beneficiou-se desse evento multibilionário.  

POPULAÇÃO FRUSTRADA
Para os gregos, cheios de orgulho na época, os Jogos agora são uma fonte de frustração, à medida que o país luta contra uma recessão que já dura seis anos, com desemprego recorde, muitas famílias desalojadas e pobreza. 

O país tem tido dificuldades para gerar receita com essas arenas. "Celebrar o que?", disse Eleni Goliou, que administra uma mercearia na capital. "Eles gastaram dinheiro que não tinham -nosso dinheiro, dinheiro do contribuinte- em uma grande festa. Você vê algum dinheiro de sobra para uma celebração?", questionou. 

Após fracassar em uma tentativa de abrigar os Jogos Olímpicos de 1996, a Grécia, fundadora das Olimpíadas antigas e modernas, obteve os direitos de realizar a competição em 2004, após derrotar a favorita Roma. Quando o então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) Juan Antonio Samaranch declarou o resultado a favor da delegação grega, incluindo o ex-primeiro-ministro George Papandreou -um ministro à época- o país encheu-se de alegria, com bandeiras e abraços por todos os lados. 

POUCO LEGADO
Quando a euforia acabou, no entanto, Atenas desperdiçou os três primeiros anos, de um período de preparação de sete anos, e recebeu um alerta do COI em 2000 para aumentar consideravelmente seus esforços de organização sob o risco de perder os Jogos. 

O país então embarcou em um frenético modo de construção para completar os projetos apenas algumas semanas antes dos Jogos, gastando excessivos três turnos por dia para garantir que as arenas estivessem prontas. Novos transportes, novas rodovias e uma série de arenas olímpicas novíssimas apareceram junto a antigas e obsoletas estruturas na capital de quatro milhões de habitantes. 

"Foi uma perda de dinheiro e tudo para se exibir. Custou muito caro", disse Dimitris Mardas, professor de economia da Universidade de Aristoteles, em Tessalônica, que então era o secretário-geral de comércio. Diferentemente de outras cidades-sede cujas arenas incluíam estruturas pré-fabricadas e desmontáveis, Atenas optou por amplas edificações que "serviram apenas para os interesses das construtoras", disse Mardas. 

A Companhia de Propriedades Públicas da Grécia, que assumiu algumas das arenas olímpicas em 2011, rejeita alegações de que elas estão em más condições, dizendo em um comunicado que os prédios estão sob sua supervisão.

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