REUTERS/Bruno Kelly
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Catharina Obeid, Paulo Favero e Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 17h02

O que poderia ser um enorme legado esportivo no Brasil, trampolim para novos tempos, ainda mais depois da primeira Olimpíada na América do Sul, tornou-se um duro golpe no esporte olímpico brasileiro. Dirigentes presos – neste sábado, Carlos Arthur Nuzman pediu afastamento da presidência do COB por meio de uma carta –, fuga de patrocinadores e futuro incerto tiraram o brilho de uma competição marcada por alegria e bons resultados no Rio.

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O momento serve para repensar as relações entre os poderes estabelecidos e tornar a gestão olímpica do Brasil mais forte. Se antes dirigentes e atletas evitavam atritos por temer a perda de recursos importantes, e ficavam em silêncio em momentos turbulentos, agora acham que podem colocar em prática ideias para melhorar o esporte como um todo no País.

“Eu vejo essas coisas de maneira positiva. O erro se transforma em aprendizado. Estou confiante de que todo movimento e situação vão servir para esclarecer a responsabilidade de cada um e fazer melhor. Isso tudo faz parte do legado”, comenta Marco Aurélio de Sá Ribeiro, presidente da CBVela.

Ele lembra que a entidade que comanda soube aproveitar o legado da melhor maneira. A sede da CBVela foi construída com recursos da iniciativa privada e existe até eleições diretas agora. “Temos transparência. A partir do momento que uma entidade está dentro de uma estrutura de boa gestão, isso se transforma. Essa situação vai obrigar todo mundo a ter padrão de governança”, diz.

Se em um primeiro momento os dirigentes esportivos evitaram falar sobre a prisão de Nuzman, depois dos esclarecimentos os presidentes de confederações decidiram colocar seus pontos de vista. E, para além do aspecto político, o que impera é o lado financeiro, de muita dificuldade após os Jogos do Rio.

“A posição da CBAt não muda em relação à situação atual do COB, até porque não temos elementos jurídicos sólidos para comentar. A CBAt preocupa-se com o atletismo e com toda a situação esportiva do País, corte de verbas, tudo o que pode dificultar o desenvolvimento da modalidade até Tóquio”, afirma José Antonio Martins Fernandes, presidente da Confederação Brasileira de Atletismo.

Francisco Ferraz, presidente da Confederação Brasileira de Badminton, foi um dos poucos a se manifestar no dia da prisão temporária de Nuzman. “Para a gente não faz muita diferença no aspecto financeiro, pois nossos recursos já são bem reduzidos. Não temos nenhum tipo de recurso privado. Somos prejudicados com a arrecadação baixa das loterias”, diz, lembrando que a entidade receberá neste ano quase R$ 2,3 milhões de repasses da Lei Agnelo Piva. “Esse valor é pago em parcelas.”

APOIO

A situação turbulenta no esporte olímpico pode afugentar patrocinadores, mas duas grandes marcas ouvidas pelo Estado, que têm histórico de investimento nas modalidades dos Jogos, garantiram que não vão mudar seus rumos, mesmo depois da suspensão do COB pelo COI. “A Coca-Cola Brasil mantém sua crença na importância do esporte para o desenvolvimento de uma sociedade plural, que zela pela inclusão social e pelo bem-estar das pessoas”, disse a empresa em nota.

“A Nissan acredita no esporte como forma de transformação social e, por isso, apoia atletas com seu ‘Time Nissan 2.0’. A empresa pretende manter seu planejamento inalterado nessa área”, afirmou a montadora, que patrocina 11 atletas de nove modalidades esportivas.

No lado de quem compete e vive o dia a dia do esporte, a crise no movimento olímpico não pode afetar ainda mais as modalidades, que já convivem com dificuldades. Para Hugo Hoyama, que representou o Brasil em seis edições dos Jogos Olímpicos, entre 1992 e 2012, a expectativa era outra após os Jogos do Rio.

Na Olimpíada, por exemplo, tivemos bons resultados, a questão do público foi excelente, da torcida. Mas infelizmente não ficou aquele legado que todos desejavam, de estrutura e verbas para cada confederação. Espero que depois de tudo isso acabar a gente possa ter essa ajuda. Com mais apoio, verbas e motivação a tendência é voltar a crescer”, argumenta.

Ele entende que a prisão temporária de Nuzman e a suspensão do COB são fatos ruins para o esporte, mas defende a investigação. “O que precisa ser feito é justiça para que essa má imagem possa desaparecer aos poucos. Aqueles que erraram precisam ser punidos.”

Experiente, ele dá um conselho importante para a nova geração. “Os atletas têm de continuar treinando firme, fazendo sua parte. Muitas vezes os investidores poderão ficar com o pé atrás ou algo do tipo. Eu, como ex-atleta, passei por algumas situações parecidas, que não tinha muito apoio, mas sempre continuei treinando.”

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Catharina Obeid e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 17h02

A principal fonte de renda do Comitê Olímpico do Brasil é via a Lei Agnelo/Piva, que prevê que 1,7% do valor arrecadado com loterias federais seja repassado à entidade. De acordo com o Ministério do Esporte, a decisão do COI de afastar Carlos Arthur Nuzman e suspender o COB não afeta de nenhuma maneira essa transferência de recursos. Neste ano a quantia obtida foi de R$ 210,5 milhões. Esse montante é dividido entre as confederações e projetos que visam à preparação e planejamento para os Jogos Olímpicos de Inverno e Verão (leia arte abaixo).

Dirigentes de confederações se calam diante de denúncias contra Nuzman

“As regras de transferência de recursos públicos a entidades esportivas estão descritas na Lei Pelé. Apenas após descumprimento de tais determinações a entidade seria impedida de recebê-los”, afirmou o ministério em nota.

No entanto, uma ameaça financeira real foi enviada à Câmara dos Deputados: o governo federal fez uma proposta para a Lei Orçamentária Anual que prevê uma redução de 87% na comparação com a verba deste ano. Sobre isso, o ministério alega que trabalha junto ao Parlamento para que as ações de apoio ao esporte de alto rendimento não sejam comprometidas em 2018 e prevê crescimento nas arrecadações. “O cenário econômico mostra claros sinais de recuperação, com aumento da arrecadação, o que permite projetar um orçamento maior.”

COB BUSCA PATROCÍNIOS

Após a saída da Nike no fim do ano, o COB acertou o contrato de patrocínio com a chinesa Peak, fabricante de material esportivo. Os valores não são revelados, mas estima-se que a marca pague o dobro de sua antecessora. Isso implica o fornecimento de uniformes para a delegação e dinheiro para algumas ativações.

Além dela, o COB conta com parcerias com Travel Ace (seguros de viagem), Aliansce (administradora de shoppings centers), Srcom (marketing de eventos) e Brw Sport Group (fornecedora de equipamentos fitness).

A entidade corre atrás de outros patrocínios e está no mercado em busca de empresas nas áreas financeira, de telefonia, aviação e saúde. A intenção é firmar novos negócios que tragam mais recursos para o COB.

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O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 17h02

A prisão de Carlos Arthur Nuzman e a suspensão na última sexta-feira do Comitê Olímpico do Brasil pelo Comitê Olímpico Internacional mancham o esporte olímpico brasileiro. Esses fatos podem afetar diretamente o desenvolvimento de jovens atletas e o surgimento de novos talentos olímpicos no País.

Para se ter uma ideia, competidores de alto rendimento levam, em média, de 10 a 15 anos para serem formados no esporte. Diante desse cenário, eles vão ficar cada vez mais raros de existir, ou seja, ficará difícil aparecer novos Gugas e Zanettis.

O momento que vivemos é o pior do esporte olímpico do País na história e a gente corre sério risco de perder todo o legado olímpico. Não adianta ter investido tanto no último ciclo olímpico para acabar desta maneira. Tudo que foi feito de bom virou pó e a perspectiva é a pior possível agora.

Neste ano, a verba para o esporte foi cortada em 87% (R$ 11,25 milhões), muitas empresas pularam fora, o COB não consegue captar patrocínio, os atletas recebem cada vez menos e, assim, eles têm menos incentivo e estrutura para treinar.

A solução a curto prazo é fazer uma limpeza geral e criar uma nova realidade, isto é, colocar pessoas capacitadas e sérias para elaborar um planejamento estratégico e dar início a um trabalho de transparência a fim de buscar novos parceiros para a entidade.

Se houver transparência e um trabalho de qualidade, o mercado publicitário abraça a ideia e as empresas voltam a querer associar suas marcas ao esporte brasileiro. Deve haver união e mobilização para mudar, afinal, o esporte, de alto rendimento ou não, é fundamental para o funcionamento de qualquer sociedade.

O Brasil tem boas pessoas para trabalhar. Elas precisam se juntar e aparecer. Vimos o sucesso que foi a última Olimpíada aqui no Rio de Janeiro em termos esportivos. O esporte educa, muda e transforma, e é nisso que todos deveriam apostar.

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Mackenzie Carlos Nuzman

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