Após ''inferno'', André sonha com Pequim

Velocista viu-se nas páginas policiais no ano passado. De volta às pistas, quer ir à China para encerrar a carreira

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 00h00

A entrada confiante na pista e as passadas seguras durante os 100 metros de competição mostram que o velocista André Domingos, com a experiência de seus 35 anos, está de volta ao habitat natural: o pódio e as páginas esportivas. Em 2007, por "maldade e injustiça", diz o atleta, sua vida esteve de ponta-cabeça. Pouco menos de um ano atrás, André virou notícia - mas no noticiário policial. Viu-se envolvido num caso de duplo homicídio em Presidente Prudente, cidade onde mora, no interior paulista. Conhecia uma das vítimas e, também, o confesso assassino. Oficialmente, era uma testemunha. Na boca do povo, tornou-se homicida."Virei assunto em toda Presidente Prudente, do boteco ao restaurante mais chique", disse André, ontem, ao Estado, pouco antes de ser o 2º colocado nos 100 metros rasos de um torneio da Federação Paulista - correu 10s43, sete centésimos abaixo do campeão Sandro Viana. "Depois de ficar sem chão, conhecer o inferno, estou voltando para onde nunca deveria ter saído: a seleção brasileira." Em março de 2007, o empresário Edílson Alves e a secretária dele, Vivian Matias da Silva, desapareceram. André processava e era processado por Edílson, dono de uma loja de automóveis, por causa de problemas em uma transação. Em maio, quando o velocista se preparava para o Troféu Brasil, competição que definiria a equipe para o Pan do Rio, o pedreiro Carlos Eduardo Almeida Ribeiro, amigo de André, foi preso. As histórias se encontraram quando a polícia descobriu que o corredor havia repassado ao pedreiro um carro comprado na loja de Alves. O assassinato aconteceu, após confissão de Carlos Eduardo, porque o empresário não pagou o IPVA do automóvel. "Falaram coisas horríveis, que eu tive um caso com ele, mas não podia ser condenado por conhecer alguém que cometeu um crime."A última competição de André, antes do retorno às pistas, em março, havia sido justamente o Troféu Brasil, em junho. "Foi horrível. Eu estava no meio de um bombardeio. Só chorava, não comia, não dormia. Não suportava que as pessoas me vissem como assassino." Para o velocista, a situação determinou a ausência no Pan e no Mundial de Osaka, em setembro. Duas vezes medalhista olímpico - bronze em Atlanta/1996 e prata em Sydney/2000, no revezamento 4x100 m -, André perdeu a chance de correr seu último Pan-Americano. Durante a competição, foi comentarista de uma emissora de televisão e só teve forças para voltar aos treinos em novembro, quando começou a fazer a preparação visando a um único objetivo: encerrar a carreira em Pequim, participando de sua 5ª Olimpíada, marca inédita no atletismo brasileiro.Caso a equipe nacional fosse definida hoje, André estaria arrumando as malas para a China. Tem o 5º melhor tempo do ranking (10s33) e faria parte da equipe do revezamento. "Tenho quase 36 anos, mas estou com um corpinho de 15."As brincadeiras, aliás, voltaram a acontecer naturalmente para um André aliviado e, novamente, focado. Considerado um atleta "talentosíssimo e privilegiado", o técnico Jayme Netto aposta na presença de André na Olimpíada. E destaca a importância da experiência do corredor para um revezamento 4x100 m renovado. O velocista aceita de bom grado a missão. "Agora é vida nova e bola para frente. Voltei a ser feliz competindo e sei que a minha estrela está voltando a brilhar."

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