Alê Cabral / CPB
Alê Cabral / CPB

Após recordes, nadador paralímpico Gabriel Bandeira sonha com medalhas em Tóquio

Brasileiro de 20 anos é uma das apostas do País após seis ouros na classe S14 em sua estreia

João Prata, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2020 | 04h30

Era para esconder o jogo, não dar pistas ao adversário. O torneio regional de natação deveria ser apenas a estreia no esporte paralímpico, as primeiras braçadas de olho em um feito maior, a conquista da vaga para os Jogos de Tóquio – a seletiva é neste mês. Mas a estratégia não deu certo. Gabriel Bandeira, de 20 anos, faturou seis medalhas de ouro e bateu quatro recordes brasileiros na classe S14 (deficiência intelectual) em sua estreia na etapa do Centro-Oeste realizada em fevereiro, em Brasília.

O desempenho fez do jovem nadador uma das principais promessas da delegação brasileira na Paralimpíada de Tóquio. “É atleta para trazer três medalhas. Ele não é conhecido ainda, mas surpreendeu a todos na estreia em Brasília”, disse ao Estado Alberto Martins, diretor-técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro.

O coordenador técnico da natação paralímpica, Leonardo Tomasello, também se mostrou entusiasmado com o novo atleta. "Tem potencial para ser multimedalhista. Tem todas as características, é jovem, nada muitas provas. Vinha nadando no convencional e agora pode evoluir ainda mais. Mas natação é na hora, lado a lado."

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Não consigo prestar atenção, ficar quieto. Para memorizar algumas coisas também é difícil
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Gabriel Bandeira, nadador paralimpico

Nascido em Indaiatuba, no interior de São Paulo, Gabriel começou a nadar aos 10 anos. Logo passou a fazer parte da equipe da cidade e, com 16 anos, se mudou para Belo Horizonte para defender o Minas Tênis, que tinha nadadores da elite nacional como Bruno Fratus e Kaio Márcio. Até então ele nadava no esporte convencional, com uma vida independente.

Gabriel foi criado pela avó Carmen. Sua mãe tinha 16 anos quando ele nasceu. "Ela era novinha e o relacionamento com o pai não foi adiante. Anos depois, conheceu outra pessoa, casou e o Gabriel não quis mudar. Quis ficar comigo", conta dona Carmen. Na infância, o garoto teve dificuldade na alfabetização. A avó o colocou em aulas de reforço, procurou psicólogos, realizou exames. Achavam que ele tinha só déficit de atenção.

Gabriel repetiu quatro vezes de ano na escola e chegou a largar os estudos – terminou o Ensino Médio com aulas à distância. Na natação também tinha dificuldades para entender as aulas. "Não consigo prestar atenção, ficar quieto. Para memorizar algumas coisas também é difícil", comentou.

O técnico da natação em Indaiatuba, Luiz Antonio Candido, o Maceió, sugeriu para a avó que ele fizesse um teste de QI. A cidade é uma das potências paralímpicas na natação. Carmen e Gabriel rejeitaram a ideia de início. "Foi quando ele recebeu o convite para nadar pelo Minas. Teve o último ano no juvenil bom", lembrou Carmen.

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Espero ir e lá (Jogos Olímpicos de Tóquio) e brigar por medalhas
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Gabriel Bandeira, nadador paralimpico

Gabriel morou oito meses no alojamento do clube mineiro. Sua avó conseguiu transferência no banco em que trabalhava e foi também para Minas Gerais. Viveram três anos em Belo Horizonte. No ano passado, o garoto disputou o Troféu Maria Lenk e conseguiu ir para uma final B. Foi quando o técnico do Indaiatuba voltou a sugerir o teste de inteligência. "Ele veio me dizer que os tempos do Gabriel no convencional eram para brigar por medalha no paralímpico", comentou Carmen.

Desta vez eles aceitaram, mas sem muita confiança. "Achava que não ia dar em nada. Só que o nível intelectual dele é abaixo do normal. A autonomia social é boa, mas o intelectual não é. Nos surpreendeu", disse a avó. Como o Minas não possui natação paralímpica, Gabriel se mudou no início deste ano para o Praia Clube, em Uberlândia. Em janeiro, passou uma semana no CT do Comitê Paralímpico Brasileiro para ser classificado e entrou para a S14. A entidade internacional da natação aprovou a documentação. Ele já possui o número de registro internacional de nadador.

Para poder brigar por vaga dos Jogos falta obter autorização do Comitê Internacional Paralímpico (IPC, na sigla em inglês). Essa última fase acontecerá dias antes da disputa do Open de Natação, marcado para este mês. “É praxe do IPC fazer a avaliação dias antes da competição. Mas não deve ter problema. Nunca vi o IPC negar", disse Tomasello.

A expectativa de Gabriel é disputar seis provas nos Jogos de Tóquio: 100m livre, 200m livre, 100m costas, 100m peito, 100m borboleta e 200m medley. O forte dele é o nado borboleta e costas. Para o garoto de 20 anos, o importante é estar no Japão. "Espero ir e lá e brigar por medalhas". O plano inicial é competir três provas na seletiva de março e outras três na última seletiva, em abril. Mas os planos nem sempre correm como o planejado.

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