Wilton Junior/Estadão
Pito e Arthur, da seleção brasileira de futsal Wilton Junior/Estadão

Após turbulência, Brasil inicia busca pelo hexa no futsal

Competição organizada pela Fifa ocorre na Lituânia a partir deste domingo e vai até 2 de outubro

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 05h02

RIO - A busca pelo hexa da Copa do Mundo começa oficialmente para o Brasil nesta segunda-feira - pelo menos no futsal. A competição organizada pela Fifa acontece na Lituânia a partir deste domingo e vai até 2 de outubro, sendo que o Brasil estreia às 14h do dia seguinte, diante do Vietnã (com transmissão da TV Globo e do SporTV). No total, 24 seleções brigam pela taça. Maior vencedor da história, o Brasil é um dos favoritos, mas antes de pensar em título o time precisará apagar de vez o fiasco protagonizado na última edição, quando caiu nas oitavas de final.

O fracasso do Mundial de 2016, disputado na Colômbia, precisa ser colocado dentro de um contexto. Campeã quatro anos antes, a seleção vinha em um ciclo complicado, agravado por uma crise financeira e institucional na Confederação Brasileira de Futsal (CBFS), que desde sempre geria a seleção. Naquele ciclo, houve duas trocas na presidência da entidade e nada menos do que quatro mudanças na comissão técnica. A situação era tão caótica que chegou ao ponto de alguns dos principais jogadores do País promoverem um boicote.

O momento, agora, é outro. Desde abril, a seleção passou oficialmente a ser vinculada à CBF, entidade filiada à Fifa - como, aliás, ocorre com as seleções de futsal na maior parte do mundo. Com isso, passou a contar com toda a estrutura disponível às seleções brasileiras, inclusive período de preparação na Granja Comary, em Teresópolis.

"A falta de organização da entidade maior que conduzia o futsal levou àquele momento (fracasso em 2016). Agora é um novo ciclo, e a gente sabe que temos que iniciar bem, para que ele se concretize, se alicerce. Esses jogadores e esta comissão que estão aqui podem fazer história, retomar esse título para o Brasil", disse ao Estadão o coordenador de futsal da CBF, o ex-goleiro Lavoisier Freire Martins, que defendeu a seleção em quadra por dez anos.

A reta final de preparação para a Copa do Mundo foi dividida em três partes. Primeiro, a delegação ficou três dias na Granja Comary para avaliações físicas. Depois, treinou por duas semanas na Arena Carioca 2, no Parque Olímpico da Barra. E, desde o fim de agosto, a equipe passou por um período de aclimatação na Polônia. Lá, a seleção fez quatro amistosos, ganhando três e empatando um.

O período de treinamentos e a qualidade oferecida foi bem superior ao que o futsal brasileiro estava acostumado, mas se justificou por duas razões: os empecilhos causados pela pandemia, e a melhor condição financeira e de estrutura que a CBF pode oferecer.

"A gente perdeu bastante (tempo de preparação), de uma forma assustadora. O último evento que a gente havia feito foi em janeiro de 2020, nas Eliminatórias da Copa do Mundo, lá em Carlos Barbosa. De lá para cá, não tivemos mais convocação", recorda Lavoisier, que enalteceu a fase final antes da viagem à Lituânia.

DISPUTA

Apesar de ser chamada oficialmente de Copa do Mundo de Futsal da Fifa, jogadores, comissão técnica e todo mundo que acompanha a modalidade de perto se refere à disputa como "Mundial".

A diferença talvez seja uma herança de outras épocas, quando o futsal era ainda chamado de "futebol de salão". Tratava-se de um período em que o esporte era mais amador, e a própria disputa da Copa do Mundo não ficava a cargo da Fifa. E isso, aliás, é até hoje motivo de certa polêmica ou discórdia.

Isso porque, oficialmente - ou, ao menos, de acordo com a Fifa -, o Brasil é "apenas" pentacampeão do Mundo. Ocorre que a entidade máxima do futebol mundial passou a organizar torneios de futsal de seleções somente em 1989. Antes disso, era a antiga Federação Internacional de Futebol de Salão (Fifusa) que organizava campeonatos mundiais. O Brasil venceu os torneios de 1982 e 1985. Ou seja: ainda que a Fifa não reconheça, para quem é apaixonado pelo futsal o Brasil está na Lituânia em busca do octa.

A Copa do Mundo deste ano conta com as 24 seleções divididas em seis grupos de quatro. O Brasil está no D, ao lado de Vietnã, República Tcheca e Panamá. Os dois melhores colocados de cada chave, além dos quatro melhores terceiros, avançam às oitavas.

Se até uma década atrás a seleção era franca favorita ao lado da Espanha, a história agora é diferente. Além dos espanhóis, o Brasil tem como principais adversários ao hexa (ou ao octa) as equipes da Rússia, Portugal, Irã, Argentina e Cazaquistão.

"Várias seleções têm muito potencial, e no último Mundial deu pra ver isso, quando o Irã desclassificou o Brasil. O futsal mudou bastante", pondera o pivô Pito, que atua no Barcelona e acabou de lançar um documentário sobre sua carreira. "Mas o Brasil sempre é favorito, não importa se estiver num momento ruim ou bom. Temos que carregar esse peso."

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Capitão da seleção busca redenção em sua última Copa do Mundo

Aos 37 anos, defensor diz que edição na Lituânia será sua última e espera encerrar sua trajetória com uma nova conquista

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 05h01

RIO - Capitão da seleção brasileira de futsal, o fixo Rodrigo é o atleta mais experiente do grupo e, como tal, já experimentou um pouco de tudo no futsal - do bom e do ruim. Campeão do mundo com a seleção em 2012, ele também esteva no grupo que fez a pior campanha da história em Mundiais, em 2016. Agora, aos 37 anos, o defensor diz que a Copa da Lituânia será sua última, e por isso ele sonha em encerrar sua trajetória com uma nova conquista.

"Eu defendi com unhas e dentes a seleção brasileira. Bateram muito já em mim, mas em nenhum momento eu deixei me abater. Quando a gente perdeu para o Irã, eu coloquei na cabeça que a gente não podia sair daquele jeito, eu tinha que dar um jeito. Trabalhei quatro anos a fio pensando neste momento, e quando saiu a lista do Marquinhos eu fiquei muito feliz", disse o jogador, que atua pelo Magnus.

O capitão avalia que a seleção terá uma campanha muito melhor do que aquela vista na Colômbia, há cinco anos. E se mostrou empolgado com o fato de agora o Brasil jogar com o escudo da CBF, o que garantiu uma estrutura de preparação e uma visibilidade muito maiores.

"Estou sentindo que desta vez vai ser diferente, que a torcida vai estar com a gente. Quando eu fui pra Granja, eu era um torcedor lá dentro. As redes sociais começaram a inflamar. Vai ter TV aberta, a nossa cara vai estar para o Brasil todo. E mesmo o cara que não gosta muito de futsal, ele vai estar com a TV ligada depois do almoço e vai ver lá o Rodrigo, o Ferrão, ele vai começar a olhar pra gente. Isso pra mim é o maior reconhecimento", comentou o fixo.

O "capita", como é chamado pelos companheiros, também revelou seu sonho para esta sua última Copa. "A gente vai jogar para a nação. Meu sonho é ver igual o campo: o bar lotado, sair um gol do Rodrigo, o cara jogar a cerveja pro alto. Esse é meu sonho. E acho que nesse meu último ato pode ser que aconteça", afirmou Rodrigo.

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Entrevista - Marquinhos Xavier, técnico da seleção brasileira de futsal

Estudioso, meticuloso e antenado com o que acontece no esporte mundo afora, treinador reconhece a força do Brasil no futsal

Entrevista com

Marquinhos Xavier, técnico da seleção brasileira de futsal

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 05h01

RIO - Técnico da seleção brasileira de futsal, Marquinhos Xavier terá na Lituânia um de seus desafios mais difíceis na carreira. O treinador começou a ganhar projeção em 2009, quando começou a treinar o Copagril, time de Marechal Cândido Rondon (PR). Mas foi quando assumiu o Carlos Barbosa (RS), em 2014, que o técnico se destacou, conquistando dez títulos em pouco mais de cinco temporadas.

Estudioso, meticuloso e antenado com o que acontece no esporte mundo afora, Marquinhos Xavier reconhece o favoritismo do Brasil, mas reitera: "não estamos mais sozinhos". Confira a entrevista concedida ao Estadão.

A seleção conta com jogadores que atuam no Brasil, Rússia, Portugal, Espanha... Essa mescla foi de propósito, ou você simplesmente escolheu os melhores?

Nossa geografia no Brasil já é essa. A seleção sempre teve atletas atuando fora do nosso continente e dentro do País. Houve sempre uma mescla. Obviamente, pela projeção profissional eles acabam saindo do Brasil, às vezes muito jovens, e a gente tem um sacrifício a mais, um a trabalho a mais, de ficar monitorando todos eles. Eles acabam chegando a grandes equipes, o que vai facilitando o processo, e na hora da convocação os melhores são divididos entre os que estão aqui, na Europa ou na Ásia.

A pandemia atrapalhou muito a preparação?

De maneira particular, a preparação do Brasil foi bastante prejudicada. Já entramos na pandemia com alguns déficits de convocação. Perdemos algumas datas importantes, especialmente em 2019, que antecedeu à pandemia. Eram datas que poderiam ter sido utilizadas para que a gente pudesse ter tido a oportunidade de ver outros jogadores. Em 2020, após as Eliminatórias, a gente não teve mais convocações. Isso, de alguma forma, prejudicou a observação dos jogadores. Nós tínhamos ideias claras, de trazer mais jogadores para experimentar. Tratamos de focar na resolução desse problema com um período de preparação mais acentuado.

Atrapalhou também o monitoramento dos adversários?

Ele se dividiu em duas partes. A primeira é aquele monitoramento mais superficial, em que nas datas Fifa você acaba observando jogos dos adversários. E a segunda, e mais importante para nós, é a etapa atual. Está todo mundo jogando agora, e há uma mudança de convocação, de comportamento das equipes também. Há a influência da ansiedade, da pressão. Você consegue ter um raio-x mais próximo.

O Brasil teve uma experiência ruim na última Copa do Mundo, e teve uma série de problemas de organização com a CBFS. Agora, a seleção está sob o guarda-chuva da CBF. Queria que o senhor comentasse isso.

É importante a gente separar as coisas. Temos que valorizar o que a CBFS fez durante todos esses anos. Se o Brasil chega hoje como um dos favoritos para ganhar essa Copa do Mundo, e com as cinco conquistas que teve, isso se deu pelo trabalho da CBFS. A questão administrativa, nós do departamento técnico não nos envolvemos. A partir do momento que a gente passa a estar sob o guarda-chuva efetivo da CBF a gente está desfrutando da melhor maneira possível, treinando na Granja Comary, tendo as instalações do Parque Olímpico o tempo todo... Isso é bom porque recupera uma parte do processo. Acho que o futuro do futsal pode ser ainda mais profissional e melhorar com essa parceria. Nós ainda não sentimos efetivamente o poder de toda essa mudança, mas ela já existe. Acho que após o Mundial a própria CBF vai ter tempo de organizar tudo isso, da forma que ela entende o futsal. Acho que quem vier no próximo ciclo vai encontrar uma casa mais organizada nesse sentido. Acho que a gente vai caminhar para uma evolução e para uma profissionalização efetiva da modalidade.

O Fernando Ferretti (ex-técnico da seleção) tem ajudado vocês na preparação. Como isso se dá?

Ele é nosso coordenador técnico, está comigo desde o início do ciclo. O projeto passa muito pelas mãos dele, pela experiência e conhecimento que ele tem. Ele tem uma expertise não só técnica, mas também de gerência do grupo, sobre como administrar alguns problemas e conflitos. Isso acontece em qualquer lugar. Ele tem uma presença muito marcante na comissão técnica, e fico feliz de tê-lo ao meu lado dando um suporte, sendo um bom conselheiro. Ele é multicampeão, e talvez nossa maior referência no futsal.

O Brasil tem cinco conquistas e sempre foi considerado um dos principais mercados do futsal do mundo. Nos acostumamos a pensar na Espanha como principal adversário, mas nos últimos anos a gente viu o crescimento de Rússia, Portugal e Irã, e a Argentina é a atual campeã. Qual a real condição do Brasil para ganhar esta Copa do Mundo?

Nós não estamos mais sozinhos, não é? Eu tenho dito essa frase com bastante frequência. O Mundial de 2016 mostrou que há a possibilidade de vencer, e também de fracassar. Isso está claro hoje. Ao lado de todas essas potências que fazem o futsal no mundo, eu colocaria ainda o Cazaquistão, que é uma equipe que tem muitos brasileiros naturalizados e deve fazer um bom Mundial. Eu acho que nossas chances são reais, em função da competência técnica que nós temos e da qualidade individual dos nossos atletas. Agora, o nosso desafio - e isso ficou claro no último ciclo -, é que se nós não investirmos em preparação, em treinamento, em toda essa parte que forma uma grande seleção, a gente não ganha mais só com o talento. Não é mais só convocar e ir lá vencer. A gente precisa de estrutura, e estamos alertando há muito tempo. A estrutura que vai fazer a diferença: maior tempo de concentração e maiores oportunidades de convocação. A gente assume o favoritismo com muita humildade, sabendo que a gente não está sozinho, mas é a história da modalidade. Além dos cinco títulos que temos Fifa, nunca podemos esquecer que temos também dois Mundiais pela antiga federação internacional de futsal e que foi um marco. Temos que honrar esses sete títulos.

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