''Árbitro precisa fazer terapia''

Juiz do clássico diz que conta com ajuda de psicólogo para suportar a pressão e afirma ter acertado nas expulsões

Eduardo Maluf, O Estadao de S.Paulo

21 de outubro de 2008 | 00h00

Sálvio Spínola Fagundes Filho tem 39 anos, é árbitro de futebol profissional há mais de uma década e trabalha numa empresa da área têxtil. Nos últimos dias passou por momentos difíceis ao ter sido escalado para apitar Palmeiras x São Paulo e pressionado pela diretoria tricolor antes mesmo do início do jogo. A atuação no clássico lhe tirou enorme peso das costas. Não comprometeu e saiu de campo incólume, apesar das críticas - já rotineiras - dos dois times.Após o jogo, pegou as coisas e voltou para casa, onde descansou ao lado da mulher e dos filhos - e, claro, assistiu aos melhores momentos do Choque-Rei na tevê. Ontem, já cedo, retornou ao trabalho. No início da noite, após mais um dia de expediente, desabafou. "Hoje é preciso ter uma preparação psicológica cada vez mais forte", declarou, em entrevista ao Estado. "Foi um exagero (de pressão e de dificuldade) o que houve ontem (anteontem, no clássico)."Para suportar a carga, faz terapia regularmente. E discute com freqüência a carreira de árbitro com a família. Às vezes, questiona se vale a pena seguir no futebol... "Mas é uma profissão minha, eu gosto." Só sai do sério quando seus filhos sofrem com piadas dos colegas na escola por causa de um erro numa partida. Mas, por enquanto, garante estar preparado para os desafios do esporte.Mesmo quando os poucos erros (ou eventuais erros) ganham muito mais destaque do que os acertos. No clássico, por exemplo, o trio de arbitragem acertou três lances capitais: o pênalti cometido por Léo Lima, um gol de Dagoberto anulado e a cabeçada de Alex Mineiro, em que a bola caiu sobre a linha e não entrou - no lance, o gol não foi dado, apesar do protesto palmeirense naquele momento. A expulsão de Diego Souza e Borges - considerada rigorosa demais - foi muito mais comentada.Como lidou com a pressão nos dias que antecederam o clássico e no domingo?Nossa preparação psicológica tem de ser cada vez mais forte, me preparo muito mais do que antes, a pressão cresceu. Já estou acostumado com grandes jogos, como Cruzeiro e Atlético-MG, Gre-nal, Eliminatórias da Copa, mas ontem (anteontem) foi um exagero (a pressão e as dificuldades).Trabalha o lado psicológico, costuma fazer terapia?Ah, é necessário. Eu tenho um psicológo e faço terapia regularmente, às vezes mensalmente, às vezes a cada dois meses. É importante ter um acompanhamento para manter a concentração.O Juvenal Juvêncio (presidente do São Paulo) reclamou de sua escalação para o clássico e criticou seu trabalho antes da partida. Como acompanhou as declarações?Minha técnica foi não ouvir nada, não ler jornal, não escutar rádio. Como moro em São Paulo, num prédio, acabei tomando ciência do que ele falou, mas não me preocupei. Essas declarações têm como objetivo levar vantagem no jogo e influenciar as decisões do árbitro.Você e sua família suportam levar essa vida?Converso muito com minha família e sempre discutimos a necessidade de passar por isso. Mas é uma profissão minha e eu gosto dela. Enquanto estão atingindo só o árbitro, tudo bem. Só não dá quando começam a atingir o ser humano, o pai de família. É duro ver o filho ir à escola e ser satirizado pelos colegas por algo que falaram do pai na televisão, no rádio, no jornal... É difícil ver pessoas falando sobre você sem nem saber o que você faz ou quem é.Não achou rigorosas demais as expulsões do Diego Souza e do Borges?Não. Não há imagem (de televisão) que mostrou o que houve. Quando há troca de empurrões, o árbitro deve advertir. Mas primeiro um empurrou o outro e, depois, eles trocaram chutes, nada forte, mas trocaram chutinhos e, por isso, mereceram a expulsão.Como avalia sua atuação?Acho que dei boas vantagens e acertei lances dificílimos. O resultado foi legítimo. Imagine se tivéssemos dado o gol na cabeçada do Alex Mineiro. Ou se eu não tivesse marcado o pênalti do Léo Lima. Eu seria falado durante a semana toda.

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