Árbitros sem juízo

Prezado Joseph Blatter,Escrevo para o sr. na condição de alguém que convive com futebol desde antes de aprender a ler e escrever, que ainda gosta de bater bola e que costuma ver pelo menos três partidas por semana na TV. E que jamais foi desse tipo de torcedor e comentarista que passa mais tempo se queixando do juiz do que do gol perdido pelo atacante e do frango tomado pelo goleiro. Não levo o futebol tão a sério a ponto de perder o humor ou minha capacidade de admiração. Mas é por isso mesmo que preciso dizer que a má arbitragem tem conseguido tirar meu prazer de assistir às partidas. Alguém pode argumentar que no passado elas não eram muito melhores; quem ouve os comentários de ex-juízes hoje em dia talvez imaginem que dentro de campo eles jamais faziam lambanças... E há diversas situações no futebol que não são claras - a regra pode até ser, mas a aplicação não é - e que mesmo com câmeras lentas, as quais também distorcem os fatos, continuam não permitindo consenso. Mas é que o mundo mudou, mr. Blatter. E, se quisermos, para melhor.Não me refiro apenas à tecnologia. Considere outros esportes e a maneira como foram limitando a chance dos erros de avaliação. No basquete e no vôlei, por exemplo, nenhum jogo é realizado sem os juízes de linha. Por que o futebol não pode ter auxiliares nas linhas de fundo? Basta que cada um deles se poste ao lado do gol, na metade oposta à linha lateral onde corre o bandeirinha, ou então numa grua acima (como as das câmeras de TV), para evitar uma série de equívocos. Fico só em dois exemplos do jogo de domingo entre Corinthians e Botafogo: o pênalti cavado por Jorge Henrique e o gol feito por André Lima. Qualquer pessoa atrás da linha de fundo, perto da trave, viu que ninguém nem sequer resvalou no primeiro e que o segundo desviou a bola com a mão. Com essa medida, os bandeirinhas ficariam mais concentrados em marcar os impedimentos. Afinal, é difícil: o coitado precisa ter olhos de mosca para enxergar ao mesmo tempo o momento do passe e a posição do atacante em relação ao último zagueiro. Por isso, muita gente acha que o impedimento deveria ser abolido. Eu acho que não; temo que o futebol profissional ia perder o desafio tático que o distingue das "peladas". Já pensou se Romário pudesse ficar parado o tempo todo na área inimiga? Poderia continuar ativo até os 60 anos e triplicar o número de gols de Pelé. Mas os auxiliares poderiam errar menos se só tivessem essa atribuição. Eis um caso, por sinal, em que a tecnologia ainda é controversa. Se o árbitro assinala um impedimento que não existe, a jogada já parou e, portanto, o prejuízo foi causado - a não ser que o tira-teima seja imediato e dê a chance de reiniciar o lance em sua origem, como se faz no tênis. Nos casos em que se faz um gol irregular, porém, um monitor de TV diante do quarto árbitro ou numa cabine do estádio é suficiente para levar o juiz, via áudio, a revogar sua decisão, como aconteceu informalmente num jogo recente da seleção brasileira. Isso sem falar em outros recursos como o chip na bola. Obrigar os estádios a adotar o gramado em faixas de tom alternado seria útil também.Outra prática comum a outros esportes, como o futsal e o handebol, é a punição pelo número de faltas. No Brasil, onde se tem um futebol considerado "técnico", é corriqueiro ver partidas com mais de 40 faltas! Então por que não punir o time que fizer mais de dez faltas em 45 minutos com, digamos, uma cobrança de falta na linha da meia-lua? Novamente, essa medida reprimiria a violência, aceleraria o ritmo e daria menos trabalho para o juiz.Talvez o futebol sofra a síndrome de "esporte mais popular do planeta", o que explica que não aprenda com o exemplo dos outros. Mas tenho certeza de que o sr. não consegue defender plausivelmente a noção de que reduzir os erros de arbitragem tiraria a "graça". Abraços ludopédicos.P.S. Ah, sim, sr. Blatter: o spray para demarcar a posição da barreira nas cobranças de falta, tecnologia autenticamente nacional, funciona!

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