Arce e Gamarra dirigem time com ginga brasileira

Até hoje os palmeirenses sentem a falta do lateral-direito Arce. Os corintianos, por sua vez, não se esquecem do zagueiro Gamarra. Nos anos 90, os dois fizeram sucesso no Brasil e também no Paraguai, onde defenderam a seleção nacional. Atualmente, vivem em seu país, mas não cogitam a possibilidade de aposentadoria. Ambos dirigem o pequeno Rubio Ñu, fundado em 1913 e que nunca havia conquistado um título. Mas, desde a chegada da dupla, a história mudou e o time passou a dar trabalho aos grandes e a encantar os paraguaios.

Fábio Hecico, ENVIADO ESPECIAL, ASSUNÇÃO, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

Francisco Arce optou pelo agasalho e se tornou técnico. Carlos Gamarra foi para trás das mesas, como dirigente. No pacato bairro de Trinidad, onde o lazer se limitava ao zoológico e às missas na tradicional Igreja da Santisima Trinidad (Santíssima Trindade), resolveram atender a um pedido do amigo de seleção, o ex-goleiro Ruben Dias, para recuperar o futebol de um clube quase centenário que estava abandonado.

"Estava no Olímpia em 2007 quando o Arce e o Ruben começaram a traçar os planos. Como o Ruben ganhou a eleição para presidente, pudemos acertar a parceria", conta Gamarra. Formaram a RCF (empresa de administração com as iniciais do trio).

Na chegada, levaram um susto. Faltava tudo. A arquibancada estava inacabada, o gramado parecia um matagal e não havia estrutura administrativa, como sede social, nem do futebol (vestiários e sala de imprensa). Arce e Gamarra trataram de reformar o clube. O que não tinha agora está lá, cheirando a tinta. A arquibancada ganhou mil lugares - agora cabem 5 mil pessoas no Estádio La Arboleda -, a fachada está bonita e até um campinho de grama sintética foi construído.

Reforços. Como tinham muito trabalho, Arce e Gamarra buscaram nas categorias de base de Cerro Porteño, Olímpia e Libertad, as potências paraguaias, jovens pouco aproveitados. Era janeiro de 2008 e a dupla que tanto fez pela seleção tentava não manchar a imagem de vencedora.

"O planejamento era para formar uma base. Não esperávamos um retorno tão rápido", diz Arce. "E não podíamos apenas subir, era preciso formar um grupo que fizesse bonito na Primeira Divisão." Gamarra endossa as palavras. "Nosso objetivo era subir em dois anos, mas a molecada atropelou todo mundo", orgulha-se o dirigente, ao lembrar a conquista do título, o primeiro dos profissionais, que garantiu a volta à Série A após 28 anos.

As outras cinco conquistas são da base e estão registradas em pequenos quadros na nova sala de imprensa, com cadeiras estofadas e ar-condicionado.

O projeto dos amigos vai até 2012. E pode ser renovado por mais quatro anos. Com folha salarial de US$ 22,5 mil (R$ 40,5 mil, valor que não paga um jogador de time grande no Brasil) para um grupo de 25 atletas, o Rubio Ñu é um sucesso na elite paraguaia. Ao contrário dos outros clubes do país, que apostam na força física e na cadência, o time de Arce é rápido e habilidoso.

Ginga verde-amarela. Um dos segredos vem da música brasileira (forró e sertanejo) que toca no vestiário. Com tanta ginga, o time brigou pelo título de 2009 até três rodadas do fim (acabou em quarto, mas viu seu treinador ser eleito o melhor do campeonato) e agora ocupa a terceira posição - ganhou do Olímpia e empatou com o Cerro Porteño na casa do rival. "Buscaremos vaga nas competições internacionais. Vamos estar na Libertadores de 2011", planeja Gamarra. "Em 2009 foi uma tristeza grande, pois o título estava nas nossas mãos. Agora, não deixaremos escapar", garante Arce.

A confirmação só virá após 44 rodadas (22 no Apertura, em turno e returno, e outras tantas no Clausura). Mas Arce e Gamarra já sentem o gostinho de serem vencedores. Basta vê-los caminhando até o campo. No percurso de cerca de 100 metros são cumprimentados por todos que estão no local, agradecidos pelo renascimento do Rubio Nu.

O CLUBE

Rubio Ñu: O Club Rubio Ñu foi fundado em 24 de agosto de 1913. A sede fica no bairro da Santíssima Trindade, em Assunção, endereço também do Estádio La Arboleda. A equipe verde e branca tem esse nome porque um de seus fundadores é alemão (e, por isso, foi apelidado de Rubio, que significa loiro em espanhol) e por ter sido criada num enorme campo de mata fechada (Ñu, em guarani).

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