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Arenas pra quê?

Enquanto jorrava dinheiro pelo ladrão, na construção de belos e funcionais estádios para o Mundial, uma das justificativas para o investimento se concentrava no conforto e tranquilidade que trariam pro público. Dizia-se que as praças esportivas "padrão Fifa" representariam, além de avanço no relacionamento com o freguês, mentalidade nova na maneira de todos se comportarem. Benefício permanente, à semelhança do que há de melhor na Europa e nos EUA.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h02

As arenas, como foram rebatizados os tradicionais campos de futebol, estão aí, com desenhos arrojados, assinados por famosos escritórios de arquitetura, mereceram elogios dos gringos e finalmente trouxeram o Brasil para o século 21. Pelo jeito, só no visual. Porque, na prática, parecem mais frágeis do que os mastodontes que substituíram ou aqueles que insistem em resistir à onda reformadora.

Pelo menos essa a impressão que passa o poder público, com a colaboração significativa da cartolagem, ao tratarem dos grandes jogos. E o fazem à maneira antiga, com o isolamento de áreas nobres para evitar proximidade entre torcidas rivais, com a liberação parcial da capacidade de alguns estádios. Ou com a moda que ameaça expandir-se, a da política da torcida única em confrontos domésticos.

A justificativa para medidas conservadoras? A precariedade na segurança que as arenas apresentam, por causa da ausência de alambrados ao redor do gramado e nos diversos setores das arquibancadas. Com isso, na visão oficial, há risco de invasão de campo ou de confrontos entre grupos de fanáticos. A saída para prevenir males está na descaracterização dos projetos originais, ou seja, a mesma de sempre.

A primeira pergunta que vem em mente até dói de tão óbvia: pra que ergueram esses estádios com concepção avançada, que partem da suposição de que se trata de espaços para espetáculos de vária natureza? De que adianta a noção de liberdade e convivência, se justamente é o que se poda com as atitudes dos últimos dias em São Paulo?

Em vez de estimular a cidadania, a tolerância e a aproximação dos contrários, o que se fez durante a semana, sob o manto da boa vontade (e até acredito nisso), foi atiçar a sede de briga dos arruaceiros de sempre. A turma radical nem precisa de motivos para arranjar confusão; se lhe derem corda, então, aí têm prato cheio e desculpa pronta para eventuais duelos. As polêmicas, as ordens, as pressões e os recuos provocam reações antagônicas: temor no torcedor comum, o sujeito sossegado que só quer diversão, e sensação de onipotência e munição para quem só se comunica na linguagem do ódio.

É preciso quebrar o círculo vicioso - e isso se faz com respeito, educação e firmeza. Antes de só proibir, coibir, reprimir, o Estado deve tratar todos como cidadãos - mesmos os baderneiros. Precisa fazer com que se sintam integrados aos estádios, que notem os benefícios oferecidos. Ao mesmo tempo, tem de agir com justiça nos casos de abusos, e só com quem transgredir, sem generalizar. Mas também sem se omitir. O desafio é mudar a mentalidade e desarmar.

E no campo? A gente gasta tanta energia com as discussões periféricas que o jogo passa para segundo plano. Uma inversão estúpida, infelizmente. Palmeiras e Corinthians podem fazer um clássico memorável, apesar de início de temporada e as limitações que isso implica.

A responsabilidade maior recai sobre os palmeirenses. Nem tanto por jogarem em casa, mas pelas contratações feitas, pelo tropeço diante da Ponte Preta, pela enorme expectativa criada na torcida. Osvaldo de Oliveira mexe na escalação, pouco e ainda em busca da combinação ideal. Há potencial para muito crescimento no grupo do que dispõe - e o teste de hoje é importante. O Corinthians divide-se com a busca por vaga na Libertadores e Tite pode poupar titulares. Por outro lado, se jogar com a força máxima e vencer, aumenta o moral da tropa. Bom dilema.

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