Argentina: a jogada que salva o jogo

JORGE

Jorge Valdano, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2014 | 02h03

VALDANO

A Argentina ainda não se encontrou como equipe, e Messi ainda não se encontrou com o jogo. Quando a Argentina está em campo, basta uma jogada de Messi para adiar o debate sobre o funcionamento da equipe e confirmar sua condição de gênio. Bósnia, Irã e Nigéria não são a medida para sabermos as possibilidades da Argentina no Mundial, mas exatamente por isso cada partida era uma boa oportunidade para o time crescer e chegar à altura dos desafios que encontrará a partir das oitavas de final. Tenho a impressão de que Sabella sai do laboratório confuso.

Porque, até agora, Homero destacou-se como herói por sua partida diante do Irã e não por ajudar a alcançar a glória, mas para evitar o fracasso. E o campeonato consagrou Messi como salvador por atuar como um craque, esporadicamente. Higuaín procura os espaços com a inteligência de sempre, mas não encontra o gol; Agüero parte em busca da bola com desespero, mas não se encontra com Messi para criar a parceria atraente e eficaz que esperávamos; Di María procura ajudar com a generosidade física de sempre, mas não cruza com a bola para dar profundidade ao jogo. Eles estão em torno de Messi e não se pode duvidar de sua categoria.

Mais atrás, Mascherano cumpre sua obrigação pontualmente, como sempre, e Gago tenta dar fluidez à partida, jogando a um e dois toques.

Se encontra Messi, melhor, mas Leo é marcado como o gênio que é. Além disso, procura espaços vazios caminhando e todos nós sabemos que até para se distanciar do adversário é preciso saber enganar com todos os meios autorizados pelo futebol: acelerando e freando, ameaçando ir para a frente para acabar voltando, pedindo a bola no pé e também no alto.

E é impossível que isso ocorra com ele caminhando. Sua falta de mobilidade contrasta com a clareza mental e a qualidade muscular necessária para a manobra de seu extraordinário gol aos 46 minutos do segundo tempo contra o Irã. Mas o certo é que, no caso de Leo, é preciso levar a bola até seus pés e isso atenta contra toda a possibilidade de surpreender. Messi salva o jogo com prodígios individuais que só estão ao seu alcance.

Na defesa. há pouco a criticar. Mas não é por meio da defesa que a Argentina pretendia ganhar o campeonato. Pedir aos que estão atrás para projetar a seleção ao nível de excelência não é realista.

Por onde começar a construir um time competitivo? Como responder a tantas expectativas? Como conquistar o respeito dos adversários? Como dissimular a falta de dinâmica, de jogo, de gol? Até agora, a resposta a todas as perguntas é uma apenas: Messi. Mas o nome que dá esperanças aos argentinos e deslumbra o mundo frustra o técnico, que propõe um time firme atrás de Leo para ele se sentir seguro e ter mobilidade a sua frente. Se o técnico conseguir essas respostas coletivas, podemos confiar no jogo argentino. Do contrário, teremos de continuar esperando a jogada do 10.

Tudo o que sabemos sobre:
Jorge Valdano

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.