Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Argentina distribui evento a aliados

Presidente Cristina Kirchner, que deve concorrer à reeleição, adota critério político na escolha das sedes

ARIEL PALACIOS - Correspondente, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

BUENOS AIRES - De olho no impacto político que o esporte preferido dos argentinos possui no país, a presidente Cristina Kirchner espalhará as doze seleções que participarão da Copa América 2011 em oito cidades. Coincidentemente, seis - La Plata, Mendoza, San Juan, Salta, Jujuy e Córdoba - são as capitais de províncias controladas por aliados leais ao governo. Outra delas, Santa Fé, é a capital da província homônima onde o governista Partido Justicialista (Peronista) confronta-se há meia década com os socialistas, que possuem o poder.

Ao designar Santa Fé - a cidade do peronista ex-piloto de Fórmula 1 Carlos Reutemann, que a presidente Cristina está tentando convencer para ser seu vice nas eleições presidenciais de outubro - o governo e a Associação de Futebol Argentino (AFA) preteriram a terceira maior cidade do país, Rosário, controlada pelos socialistas (de oposição). Rosário está na mira da presidente Cristina desde 2008, quando se tornou o foco dos protestos ruralistas contra o governo.

A última da lista é Buenos Aires, controlada pelo prefeito Maurício Macri, de oposição. No entanto, a capital argentina terá apenas o jogo de encerramento.

Desta forma, além de Rosário e a realização de um único jogo em Buenos Aires, ficou fora da competição internacional mais importante ocorrida dentro da Argentina em duas décadas o balneário de Mar del Plata, ponto costumeiro de eventos esportivos nacionais e internacionais.

De quebra, a distribuição não é geograficamente equitativa, já que existe uma concentração de jogos no centro-oeste e noroeste do país. Na escolha das cidades tampouco pesaram os tamanhos de seus estádios (San Juan possui capacidade para 25 mil pessoas, Jujuy conta com 23 mil cadeiras e Salta apenas 20 mil).

Populismo esportivo. Analistas políticos acusam a presidente Cristina de aplicar "populismo esportivo" em pleno ano eleitoral. Esse é o caso do think tank Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, que afirmou ao Estado que "não há dúvida de que o torneio foi encarado com olhos políticos pelo ex-presidente Nestor Kirchner (marido da presidente Cristina e considerado, até sua morte em outubro passado, o verdadeiro poder no governo da mulher), que pensava que um triunfo esportivo argentino nessa Copa reforçaria o governo do ponto de vista eleitoral".

Ricardo Gotta, editor de esportes no jornal Tiempo Argentino, considera que a distribuição das cidades "é algo peculiar, mas está pensada com espírito federalista. Por um lado não é nada prático, pois os times precisarão viajar de um lado para outro continuamente em poucos dias". No entanto, Gotta disse ao Estado que "o lado positivo é que esta distribuição permitirá que as pessoas do interior tenham acesso às grandes seleções da região, coisa que costumeiramente não poderiam ver. Além disso, a Copa América levou à modernização de velhos estádios. Sem ela, essas obras talvez nunca teriam sido feitas".

Fraga argumenta que "desde a Copa de 1978 (organizada pela ditadura e usada politicamente para respaldar o ditador Jorge Rafael Videla) vivemos na época de maior utilização política do futebol. O governo coloca publicidade oficial com fins eleitorais no meio dos jogos, financia as dívidas dos clubes de futebol e organiza e paga as torcidas".

O "populismo esportivo" do governo também ficou evidente no ano passado quando aliados da presidente tentaram convencer o ex-técnico da seleção argentina Diego Maradona a integrar as listas de deputados nas eleições de 2011. Embora tenha declinado uma entrada direta na política, Maradona tornou-se ativo cabo eleitoral de Cristina.

Os analistas afirmam que a pedra fundamental do "populismo esportivo" é a estatização das transmissões dos jogos de futebol - batizada pela presidente de "Futebol para todos" - implementada dias após a derrota do governo nas eleições parlamentares de 2009.

Na ocasião, em troca de US$ 150 milhões anuais até 2019 à AFA e aos clubes, o governo ficou com o controle total das transmissões dos jogos, veiculados pelo canal estatal TV Pública. Durante os jogos transmitidos pelo canal, as únicas publicidades consistem na divulgação de obras e leis feitas pelo governo Kirchner.

Ainda dentro da utilização política do futebol, Fraga destaca que o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, esteve por trás da criação do movimento das "Torcidas Unidas Argentinas", que organizou os temidos "barrabravas" (hooligans) em uma entidade formal. Seus integrantes são costumeiramente usados nas manifestações políticas do governo.

Chuva de sedes. Em 1987, a Argentina - na época sob a presidência de Raúl Alfonsín, caracterizado por sua sobriedade em relação ao futebol - organizou a Copa América com as seleções de dez países participantes em apenas três cidades (Buenos Aires, Córdoba e Rosário). Dois anos depois, foi a vez do Brasil, que distribuiu os jogos de dez times em quatro cidades. Em 1991, no Chile, a dezena de seleções que participava da Copa concentrou-se em quatro sedes diferentes. Na sequência, em 1993, no Equador, os doze times participantes espalharam-se em seis cidades.

Dois anos mais tarde, no Uruguai, as doze seleções foram colocadas em quatro cidades. Em 1997, na Bolívia, doze times foram distribuídos em cinco sedes. Em 1999 foi a vez do Paraguai, que colocou a dúzia de seleções em quatro cidades.

Na primeira competição do novo século, na Colômbia em 2001-- ano do início de uma dura campanha eleitoral - os doze times foram colocados em sete cidades. Dois anos mais tarde, o governo do presidente peruano Alejandro Toledo, assolado por greves, crises ministeriais e a declaração do estado de emergência, distribuiu as doze seleções em sete cidades.

Em 2007, coincidindo com sua ofensiva contra os meios de comunicação e ao surgimento de diversos protestos estudantis contra seu governo, além do agravamento da crise econômica, o presidente venezuelano Hugo Chavez ordenou que o torneio, com doze seleções, fosse distribuído em nove cidades.

Desta forma, com a designação de oito cidades para os jogos da Copa América, a presidente Cristina só perde para a marca de Chavez em 2007.

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