Laurent Gillieron/AP
Laurent Gillieron/AP

'Arquivos não eram confidenciais' , diz funcionária demitida do Rio 2016

Justificativas foram entregues ao presidente do Comitê por meio de uma carta, divulgada nesta terça

SILVIO BARSETTI , TIAGO ROGERO , JAMIL CHADE , O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2012 | 03h27

Enquanto autoridades brasileiras e inglesas se esforçam para amenizar a crise, uma das dez pessoas demitidas pelo Comitê Rio 2016 por furto de arquivos do Comitê Londres 2012 (Locog) questionou ontem o teor da carta que assinou para ser desligada da entidade brasileira. Renata Santiago, que chegou a trabalhar na cerimônia de abertura dos Jogos, revelou ter sido acusada, na carta de demissão, de "violação de informações confidenciais e comerciais".

"Hora nenhuma me apropriei de informações confidenciais ou comerciais", disse, em carta endereçada ao presidente do Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman. Desde segunda-feira, o Estado tentava contato com Renata. Ontem, a carta foi divulgada.

"Todas as informações (arquivos eletrônicos, documentos impressos, fotos) reunidas e trazidas ao Rio 2016 por mim, ratifico, não eram confidenciais e muito menos comerciais e foram fruto de um trabalho árduo visando uma melhor organização para os nossos Jogos, sem nenhuma pretensão diferente desta", disse no documento.

Em Londres, Renata trabalhou na cerimônia de abertura e na Vila Olímpica, no Centro de Serviços aos Comitês Olímpicos Nacionais. Com Nuzman, foram 12 anos de trabalho. "Não consigo realizar que o senhor tenha acreditado que eu fosse ou seja capaz de cometer atos fraudulentos e criminosos, já que sempre demonstrei-lhe minha honestidade e fidelidade e às instituições das quais o senhor é ou foi presidente", disse Renata, que trabalhou no Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e na preparação para o Pan de 2007.

"Não foram apenas 12 dias, foram 12 anos", afirmou na carta.

Ela contou ter sido instruída, nas primeiras semanas, a acessar o sistema do Locog. Na segunda-feira, o Comitê havia informado que os dez funcionários demitidos "agiram por iniciativa própria, sem o conhecimento de seus chefes imediatos e de nenhuma outra liderança do Rio 2016".

Embora exima-se de culpa, a ex-funcionária do Rio 2016 afirmou que outros demitidos "realmente podem" ter se "apropriado de muitas informações confidenciais e/ou comerciais de suas áreas e de outras".

Ao Estado, uma pessoa ligada ao Comitê Organizador da Rio 2016 confirmou ontem que os observadores haviam assinado contrato que os proibia de copiar determinados arquivos sem autorização. Ele disse não saber se houve má-fé ou se as pessoas que cometeram o ato não sabiam que faziam algo irregular mas os secondees (integrantes do grupo observador) tinham acesso a informações internas importantes.

"Não sei como esse pessoal ficou surpreso de ter sido mandado embora", disse. "Ainda bem que quando a coisa veio à tona todos já estava aqui. Se fosse lá (em Londres) talvez pudesse ter acontecido algo mais grave, como alguém ter sido preso", afirmou. Ele conta que tão logo o Locog contatou o Comitê Rio 2016, os computadores de vários funcionários foram inspecionados. Depois, houve reunião interna para esclarecer o caso e evitar que problemas semelhantes pudessem acontecer no futuro.

Negativa. Citado no site do Comitê como "responsável pelo programa de Observadores do Rio 2016 nos Jogos de Londres", o analista José Arthur Peixoto negou ontem ter chefiado o grupo de 200 funcionários. A assessoria de imprensa do Rio 2016 também negou a informação divulgada por sua própria página da internet, alegando que o cargo de Peixoto era apenas operacional.

Comitês de Rio e Londres consideram esclarecido o caso do roubo de documentos. Em entrevista ao Estado, a diretora de Relações Públicas do Comitê Organizador de Londres, Jackie Brock-Doyle, insistiu em dar o assunto por encerrado e, ao contrário do que se declara nos bastidores, a cooperação plena com o Rio continuará. Ela confirmou que as pessoas envolvidas no roubo também incluíam funcionários de escalão intermediário do Rio 2016.

Segundo ela, os documentos que haviam sido ilegalmente copiados não eram de um setor específico da organização e incluíam materiais de vários departamentos. Alguns deles inclusive já estavam superados. Parte do dossiê tinha mais de cinco anos e estava desatualizada. Outro grupo de documentos já estava até mesmo com os brasileiros, já que havia sido solicitados meses antes.

A impressão de Londres é a de que fizeram as cópias dos documentos, pensando em mais tarde consultá-los para ver o que poderia interessar. "Acho que a melhor forma de entender é imaginar um grupo de crianças em uma loja de doces", declarou.

"Apesar de o incidente da cópia dos arquivos ser lamentável, não houve uma violação séria de segurança e nenhum dado pessoal foi comprometido", garantiu. Ela chamou a atitude de "tola" e "desonesta" por parte do "pequeno grupo de pessoas".

Ontem, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, tratou como um "assunto privado" o furto de documentos do comitê londrino. "É uma relação entre dois entes privados, comitê Rio 2016 e o comitê britânico". Aldo afirmou que o episódio tem de servir de "lição" e disse caber às autoridades britânicas fazer alguma investigação sobre o tema. / COLABOROU VALÉRIA ZUKERAN

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