As águas vão rolar

As águas vão rolar

Ao promover a Copa do Mundo, a África do Sul representa o continente na tarefa de receber seus filhos, que voltam, crescidos, para casa

José Vicente, Artigo, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

A África é o berço da humanidade. Muitas águas rolaram desde aquele tempo imemorial e nelas foram carregados para os mais variados cantos da terra cada um dos multivariados torcedores que desfilarão agitados, alegres e eufóricos em suas arquibancadas, as bandeiras do seu país.

A partir de junho a África do Sul, em nome de todo o continente africano, abre e estende os braços para receber seus filhos, que cresceram, viraram gente grande e saíram por aí.

Encontrarão na volta uma casa renovada, cheia de vida e repleta de esperança. Uma casa simples, que se apresenta como memória viva do começo de tudo, na rusticidade e magia da vida tribal, mas também uma casa complexa, cujas feridas do Apartheid ainda exigem cuidados, a economia e saúde pública merecem preocupação e, mesmo o pacto político do recomeço encontra-se em estado de atenção.

É certo que a Copa do Mundo de futebol irá proporcionar investimentos estrangeiros, oportunidades de negócios, aumento de empregos, melhoria na economia, na infraestrutura do país, além de visibilidade mundial.

Mas seria indispensável, e mesmo impostergável, se, como antecipou e desejou Nelson Mandela, o pai de sua refundação, que a Copa do Mundo se tornasse um legado duradouro.

Consolidar o processo de paz interna e desenvolvimento social, e comprometer definitivamente os sul-africanos com os valores da democracia, do estado de direito e da dignidade da pessoa humana, devem ser prioridade maior de todos que advogam a favor do bem-estar e progresso social e político da África do Sul. Assim como de todos que desejam equilíbrio e sustentabilidade de todo o Continente Africano.

Essa é a mais importante contribuição que a Copa do Mundo poderia lhes disponibilizar. Esse é o melhor legado duradouro que se lhe pode propiciar.

Quando soar o apito do juiz e os sons das cornetas nas arquibancadas os sul-africanos terão a oportunidade de sepultarem para sempre os erros do passado, e com a torcida de todo o planeta, seguirem incontinentes em direção ao futuro. Será um importante passo adiante, definitivo e sem volta. A África do Sul poderá acordar muito melhor. E as águas, ou melhor, dizendo, a bola continuará a rolar.

É ADVOGADO E REITOR DA FACULDADE ZUMBI DOS PALMARES.

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