As comemorações e o esporte

Cena 1: um gigantesco jogador de basquete da NBA recebe um passe pelo alto, no estilo conhecido como "ponte aérea". Em pleno voo, ele segura a bola com as duas mãos, deixa o peso do seu corpo desabar sobre o corpo do adversário, enterra a bola na cesta e fica pendurado por vários segundos no aro, balançando no ar enquanto solta um grito de vitória. A tabela não aguenta o peso e estilhaça-se em milhares de pedaços. Os caquinhos de vidro caem sobre a cabeça do marcador, humilhado, que acompanha a dança do enlouquecido pivô, ainda comemorando seu ponto.

MARCOS CAETANO, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Cena 2: o quarterback de um time de futebol americano faz um passe no estilo "Hail Mary" ("Ave Maria") em direção à zona de pontuação. É a última jogada da partida e, caso consiga reter a bola e tocar os pés no chão, o receptor marcará preciosos seis pontos que garantirão a virada do seu time.

Ele se projeta no vazio, as mãos estendidas, mãos de Eurídice pedindo preces, em busca da bola em forma de míssil que vem girando como tal. Dois truculentos marcadores saltam junto com ele. No ar, os três corpos se chocam como se fossem dar origem a uma nova galáxia. O atacante consegue, ainda assim, agarrar a bola e tocar as pontas dos pés na área de pontuação, antes de ser varrido pelos marcadores: touchdown! Ainda agachado, ele saca uma caneta que escondia no meião, autografa a bola que ainda tem nas mãos e a dá de presente a um dos atônitos marcadores.

Cena 3: Pelé está no Maracanã, enfrentando o Vasco, nos anos 60, quando o time do Santos era virtualmente imbatível. Mas o Vasco tinha uma zaga para ninguém botar defeito: Brito e Fontana. Muita força, garra, alguma truculência e doses de catimba. Fontana, o mais violento, exercia marcação impiedosa sobre o camisa dez do Santos. Com Pelé caçado em campo, o Vasco abriu 2 x 0, placar que nem o mais otimista de seus torcedores poderia imaginar. Foi quando Fontana resolveu tripudiar, gritando para o companheiro de zaga em voz alta: "Ô Brito, o tal do Rei não vinha jogar? Cadê o Rei?". E ficou nisso por boa parte do jogo, apesar dos pedidos de Brito para que ele não cutucasse a fera.

Mordido, Pelé fez dois gols, um deles nos instantes finais, e acabou com a festa vascaína. Após marcar o segundo, foi ao fundo das redes, pegou a bola, entregou-a para Fontana e disse: "Leva esta bola de presente para a sua mãe. Diz que foi o Rei que mandou".

Cena 4: Muhammad Ali, uma das maiores lendas do esporte de todos os tempos, ainda era apenas um jovem desafiante ao título quando, em 1964, subiu ao ringue para enfrentar Sonny Liston, um dos grandes campeões da história do boxe. Jackie Gleason, um popular comediante da televisão, vaticinou: "Prevejo que Sonny Liston vencerá aos dezoito segundos do primeiro round e minha estimativa inclui os três segundos que os lutadores levarão para chegar ao centro do ringue".

Ali, que na época ainda era Cassius Marcellus Clay, dançou, dançou, dançou - e Liston não ousou erguer-se de seu banquinho para disputar o sétimo assalto. "Eu sou o rei do mundo!", gritou Ali, "engulam suas palavras!" No ano seguinte, no primeiro minuto do primeiro assalto, Ali mandou Liston à lona - e a foto do campeão, altivo, chamando o adversário caído de volta à luta é simplesmente um dos ícones do Século 20.

Por que eu contei tudo isso? Apenas para dizer que as comemorações, mesmo com toques de provocação, fazem parte do esporte. Pelé e Ali se tornaram mitos, mesmo tendo tirado sarro de seus adversários. A dancinha dos meninos do Santos, agora copiada por muitos times do Brasil? Ora, tenham a santa paciência! Quem acha que isso é desrespeitoso não gosta de esporte - e muito menos de viver.

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