As intocáveis

Eu aguardava o Jenson Button fechar a conta do hotel no início da madrugada de domingo para segunda no Bahrein, e não pude deixar de ouvir quando o piloto inglês confessou a um amigo, pelo celular, que "as Ferraris pareceram intocáveis"". Claro, intocáveis no sentido de inatingíveis, foi como eu entendi. De resto, ele não falou nem do fraco desempenho das McLaren e nem do risco Red Bull, que pareceu tão ameaçador quanto o da Ferrari.

, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2010 | 00h00

Na verdade, acho que nada foi surpresa para os rivais. O meu palpite para esta corrida de abertura sempre foi uma boa briga entre Ferrari e Red Bull, com as outras grandes, tipo McLaren e Mercedes, um pouco atrás.

Claro que esta situação pode mudar de uma hora para outra. Uma equipe grande nunca para de trabalhar durante o campeonato e isso torna a Fórmula 1 muito dinâmica. Mesmo sem poder treinar, o corpo de engenheiros de uma equipe de ponta sempre encontra meios de melhorar um carro à base de simulações. O resto fica por conta do dinheiro, que elas têm também, para produzir novas peças e levá-las para a pista em fim de semana de GP.

Mas se existe algo que nunca deixou de ser verdadeiro na Fórmula 1 é a constatação de que um carro bem nascido só tende a evoluir durante o ano. Portanto, que as outras se apressem porque Ferrari e Red Bull já estão em ritmo de campeonato.

Ter um bom carro logo de cara é o sonho de qualquer piloto. Felipe Massa, Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Mark Webber ganharam este presente, mas as coisas não saíram tão bem porque, dos quatro, apenas Alonso não teve problemas mecânicos.

Mas a questão é que isso ainda é pouco para uma Fórmula 1 que, no papel, prometia mais competitividade. Nem o fim do reabastecimento, que visava provocar mais disputas na pista do que nos pit stops, nem a dificuldade de pilotar carros que iam mudando de peso durante a corrida deu certo.

As mudanças não funcionaram e a corrida de abertura do Mundial está entre as mais chatas dos últimos anos. Até melhorou um pouco nas voltas finais, graças a pneus e freios bem desgastados, mas nada que chegasse a entusiasmar.

Confesso que já saí do Bahrein pensando em como as próximas corridas poderiam ser melhores. Tornar obrigatório o mínimo de dois pit stops é uma ideia que já se discute, mas seria suficiente? Se o problema é a perda aerodinâmica que os carros sofrem quando se aproximam de um outro para a ultrapassagem, a solução só pode ser encontrada em medidas mais drásticas, que não podem ser adotadas no meio de um campeonato.

Quem se lembra da revolucionária ideia lançada há menos de dois meses por Bernie Ecclestone de se criar atalhos nos circuitos ? Cada piloto poderia usar o atalho para fazer uma ultrapassagem até cinco vezes durante uma corrida. Parece loucura, não é? Mas a cada nova corrida chata como a do Bahrein, a loucura vai parecer cada vez menor.

O voo que sai às 3,50 da madruga do Bahrein levou praticamente a Fórmula 1 inteira até Dubai. De lá, o pessoal se dividiria entre os que iriam para a Alemanha, Inglaterra, Itália e, no nosso caso, o Brasil. Para mim, Rubinho Barrichello, Massa e Emerson Fittipaldi, um jeito de voltar pra casa mais cedo. Porém, muito cansativo porque este foi um dia em que não existiu diferença entre manhã, tarde e noite.

Vivi os três períodos no autódromo, já que nesta época do ano anoitece antes das 18 horas naqueles lados do mundo. Tendo que deixar o hotel às 2 da manhã, não dava para dormir. Começamos o voo às 3,50 e, como Dubai está uma hora à frente do Bahrein, quando descemos no aeroporto já estava amanhecendo de novo. Aí me dei conta de que naquele dia 14 de março eu ainda não havia dormido e já estávamos no dia 15. Tudo bem. Só tinha pela frente mais um voo de 14 horas e 16 minutos até São Paulo, atualmente o mais longo do mundo.

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