As mulheres no comando do jogo

Brasil segue tendência internacional e passa a utilizar cada vez mais árbitras para atuar em partidas masculinas

GIULIANDER CARPES, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

COSTA DO SAUÍPE - Paula Vieira tem apenas 1,60 metro de altura, mas quando sobe na cadeira de juiz da quadra central do Brasil Open se transforma na maior autoridade do jogo. Ela é uma das três árbitras que comandam as partidas masculinas do torneio. Reflexo de uma tendência recente nas quadras mundo afora e que se expande também na maior competição da modalidade no País: o surgimento de mulheres.

Os traços delicados dela, da australiana Shannon Walding e da portuguesa Mariana Alves, que foi juíza de cadeira na final de Wimbledon do ano passado e está entre as melhores do mundo em ambos os sexos, amenizam um pouco a aridez de golpes potentes e, por vezes, palavrões exaltados no saibro baiano. Embora não evitem a rispidez do linguajar de alguns jogadores mais insatisfeitos com marcações duvidosas. Isso é algo com o que elas têm de aprender a conviver.

"A gente sempre espera que nada de errado ocorra", conta Paula, 28 anos. "Mas não estamos ali só para passar a pontuação da partida. Quando existe um problema de disciplina, temos de resolvê-lo."

No torneio qualificatório, a feminilidade - a graça das árbitras - não evitou problemas para Mariana e Paula. A primeira foi chamada de "tia" por Caio Zampieri depois que deu uma advertência ao brasileiro - o tenista pronunciou um palavrão em quadra, comportamento antidesportivo. Já a brasileira foi obrigada a tirar um ponto de Daniel Muñoz de la Nava pelo mesmo motivo. Detalhe: o adversário do espanhol, Ricardo Hocevar, tinha match point. O torneio terminou ali para o visitante.

São situações inusitadas, mas pelas quais uma juíza precisa passar antes de conquistar o sonhado "golden badge", distinção que as põe no topo da carreira e na lista de possíveis árbitras de uma final de Grand Slam.

O caminho até lá é longo e cheio de pequenas armadilhas. "Temos de percorrer uma grande escada na carreira. Para começar a arbitrar é preciso fazer cursos, depois é muito importante conquistar a confiança dos jogadores e supervisores, algo que é normal que leve mais tempo", diz a gaúcha. "Demora bastante para crescer na profissão e basta um deslize para sua carreira correr ladeira abaixo. Temos de ter muito cuidado."

Paula é a primeira juíza de cadeira brasileira. Uma das três latino-americanas. Além da gaúcha, que tem o "bronze badge", há uma com a mesma distinção e outra um degrau acima. Para se ter noção, apenas no Brasil há quatro juízes do sexo masculino no mesmo patamar de Paula. "É uma carreira que exige muito da pessoa e são poucas as mulheres que estão dispostas a abdicar da rotina, até da família, para correr o mundo, semana após semana, nos torneios", afirma.

Seja para jogos de chaves masculinas ou femininas, a juíza está lá na cadeira, sem mostrar preferência. "Estamos aí para garantir o cumprimento das regras, sejam os jogadores homens ou mulheres", salienta. "E há tenistas difíceis de ambos os sexos."

É um caminho que, aos poucos, elas também vão pavimentando. A ATP apoia, mas é fundamental que a juíza conquiste o respeito dos tenistas. "É uma relação mais difícil", explica Ricardo Reis, juiz e supervisor da ATP. "Mas, nesse nível, essas meninas já romperam muitas barreiras."

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