Astro do futsal, Falcão sonha com despedida grandiosa das quadras

Jogador tem mais dois anos de contrato com o Orlândia, mas já não pensa mais em disputar a Copa do Mundo

Marcio Dolzan, especial para o Estadão, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2012 | 19h05

SÃO PAULO - Ele é o ícone de toda uma geração que aprendeu a gostar de futsal. Dono de uma técnica ímpar, de uma visão de jogo precisa e de uma canhota mortal, Alessandro Rosa Vieira, o malabarista da bola que o mundo inteiro reverencia pelo apelido Falcão, já escreve seu nome na história do esporte. Falcão foi eleito o melhor jogador das Copas do Mundo de 2004 e 2008 e teve participação decisiva na campanha do título mundial deste ano, quando, mesmo voltando de lesão e com uma paralisia parcial no rosto, salvou o Brasil de vexatória eliminação nas quartas de final, diante da Argentina.

Na decisão, Falcão marcou o gol que levou o jogo contra a Espanha para a prorrogação. Mas, como confirmou ao Estado nesta entrevista, por telefone, fez em terras tailandesas sua última exibição em Copas do Mundo. "A próxima eu vou estar com 39 anos, e a melhor coisa que tem é você parar por cima", disse. O ala, contudo, planeja vestir a camisa da seleção por mais uma temporada e disputar títulos pelo seu clube. Vencedor de sete Ligas e sete Taças Brasil, Falcão renovou contrato com a Intelli/Orlândia por mais dois anos. "O ano que eu passei aqui foi muito especial." Confira a entrevista na íntegra.

Você teve uma temporada em que precisou conviver com muitas lesões, que inclusive chegaram a ameaçar sua participação na Copa do Mundo. Como foi enfrentar isso?

Foi um ano puxado. Eu não tive a famosa pré-temporada e sou um atleta muito dependente da pré-temporada. Então foi um ano que foi se arrastando, com uma lesãozinha aqui, voltava jogando, outra lesãozinha ali, saía da fisioterapia direto para a quadra. No fim da Liga, eu senti um incômodo na virilha, joguei a final machucado e duas semanas depois já era a data da viagem com a seleção. Fiz um exame, já estava cicatrizado e cheguei no Japão treinando forte, para me readaptar fisicamente. Acabou sobrecarregando a panturrilha e sofri outra lesão. Achei que não jogaria mais o Mundial. Quando deu no exame que era só um esgarçamento, que não chegou a romper o músculo, que ainda tinha uma possibilidade. Eu então me agarrei nessa possibilidade e peguei dez dias forte para que conseguisse jogar, simplesmente jogar. E tive a felicidade de, além de jogar, ter sido decisivo, assim como fui na final da Liga Futsal também.

Por que você não conseguiu fazer a pré-temporada?

Porque tive de fazer uns amistosos da seleção brasileira, na Guatemala, aqui no Brasil, nas regiões Norte e Nordeste. Então eu praticamente vim de trinta e poucos dias de férias direto para jogos. Acho que foi um erro, porque a maioria dos que estiveram ali naqueles jogos do início do ano acabou se lesionando durante a temporada. Eu acabei não tendo a pré-temporada, assim que cheguei no meu clube praticamente cheguei perto dos jogos iniciais, então foi tudo meio atropelado.

Foi difícil passar tanto tempo na torcida durante a Copa do Mundo? Como você participava ou procurava ajudar os colegas do time?

Foi muita confiança da comissão, principalmente da parte de treino, da parte tática, da parte técnica, de analisar o adversário. Para mim era horrível só treinar e não poder jogar. Você não poder fazer nada. Mas nos jogos, antes dos jogos, no intervalo também, eu tentava ajudar com o que a gente estava vendo fora de quadra. E isso, de alguma forma, acaba sendo importante. (Nesse sentido) foi bem bacana.

O retorno contra a Argentina você pode apontar como um dos grandes momentos da sua carreira?

Ah, pode. Pode porque era minha última Copa do Mundo, e a gente até brinca que, naquele momento, as malas já estavam no aeroporto. Ia ser o maior fiasco da história do futsal nacional. E eu tive a felicidade de entrar em um jogo baixando de dez minutos para acabar e de ter sido decisivo. Com mais calma, analisando, os dois jogos mais difíceis foram o dos 3 a 2 contra a Argentina e dos 3 a 2 com a Espanha. Nos seis gols feitos neste jogos eu estava em quadra. Nos quatro tomados eu não estava. 

 

Na decisão contra o Espanha o técnico Sorato resolveu lançar mão de você só em alguns momentos. Isso já estava pré-definido ou foi opção do treinador durante o jogo?

Foi opção do treinador, até por imaginar que, queira ou não, eu não treinei nada e só estava jogando. Então, fisicamente eu não estava bem. Se eu ficasse muito tempo talvez queimasse os cartuchos todos de uma só vez, porque eu fiquei realmente 30 dias só me recuperando para jogar - e você tem mais 13 caras bons pra caramba que estavam treinando todos os dias. Então ele soube colocar, tirar no momento certo. Antes que eu me desgastasse muito. Se acho que poderia jogar mais? Talvez eu ache que sim, mas também tem o lado do treinador, da confiança de saber o momento certo de estar usando determinado jogador. 

Você falou que essa foi sua última Copa do Mundo. Está decidido isso?

Sim. A próxima eu vou estar com 39 anos, e a melhor coisa que tem é você parar por cima. Daqui a pouco a gente vai lá só para ajudar, para jogar alguns minutos, mas fica o risco de ganhar e de perder e ninguém vai olhar para a minha idade. Todos vão olhar para o que eu fiz na minha carreira. Então é o momento de parar por cima, de sair por cima. Ano que vem eu quero ainda vestir a camisa da seleção, curtir um pouco esse título mundial, mas se analisar com calma é o momento certo de fazer uma despedida bem bacana. Isso faz parte dos planos que eu tive na minha carreira, e saber o momento de fazer uma despedida que para mim seja um momento especial, com a seleção. Já penso isso há alguns anos, para ser como eu sempre quis.

 

Você renovou por dois anos com o Orlândia. O que pesou na escolha?

Pesou porque é o time de um dono só (Vincenzo Spedicato, diretor-presidente do Grupo Intelli, que patrocina o time), um cara sério, um cara que ama o futsal, um cara que senta no banco com o massagista da equipe, de uma empresa muito forte, muito certa. Quatro jogadores campeões do mundo jogam aqui (no Orlândia) - era para ser cinco, se o Ciço não tivesse se machucado. Isso mostra que, embora seja uma equipe do interior, é uma equipe de um dono só, e tudo se resolve muito facilmente. O ano que eu passei aqui foi muito especial, a forma como eu fui tratado, não tenho o porquê de não ficar. Resolvemos renovar por mais dois anos e estou muito feliz pela decisão.

Teve oferta de outros clubes?

Teve sondagem, não chegou a ter nada oficial, até porque o pessoal sabe dos valores e nem todo clube tem condições de fazer um planejamento para isso. O Jaraguá do Sul chegou a questionar, houve boatos do Corinthians, mas ninguém chegou para mim fazendo proposta, foram boatos apenas, coisas que não acabaram andando. O Jaraguá realmente tinha proposta, mas não chegou a ser concretizada. Sinceramente, se aqui quisessem que eu continuasse, a minha intenção era continuar aqui. A vida que se leva, a região de Ribeirão Preto é muito bacana, a família está adaptada. Fiquei muito feliz da minha decisão.

Atualmente, você vê algum jogador que possa se tornar uma referência no futsal assim como você é hoje?

Não, não vejo. Bons jogadores você vai ver aos montes, mas para você ser referência, um ídolo, é uma série de coisas juntas. Você tem de saber dar uma entrevista, você tem de saber o momento certo de interagir com a torcida, de trazer a torcida para o seu lado, das pessoas sentarem no sofá para lhe assistir, você ser decisivo, você ganhar títulos, você fazer gol na final. É um conjunto de coisas e uma sequência. Você pode ter tudo isso e não ter carisma, não saber falar. Isso a gente vê no futebol. Bons jogadores a gente tem muitos, ídolos tem poucos. Hoje você vê um menino dando entrevista e a preocupação dele é ficar mandando beijo para o pai, para a mãe, para a namorada, e isso não é bom. Tem de ter um trabalho específico para que isso aconteça.

Você foi convidado para participar do Jogo contra a Pobreza (em Porto Alegre, que terá Ronaldo Nazário e Zidane) no fim do ano. Já decidiu se aceitará o convite?

Eu tenho uma viagem para a Bahia dia 20, e não sei ainda o horário dessa viagem. Vou ver voos e tudo, porque os nomes que vão estar ali, meus filhos querem fazer fotos. Vou fazer o possível para estar. Se eu puder, com certeza vou, porque não posso perder essa oportunidade de levar principalmente as crianças, que ouviram falar do Zidade, e deve ter outros nomes fortes em campo. E eu também, tietando a história do futebol, porque deve ter nomes bem bacanas.

Você atua bastante no Twitter, interage com seus fãs. Isso é um hobby, um vício ou uma maneira de ficar mais próximo do torcedor?

Acho que tudo junto. Como a gente viaja muito, às vezes é um passatempo mesmo. O fato de ter contato com os fãs é bom. É um hobby que virou passatempo e também um vício, de interagir com os fãs, de ter esse contato direto. Eu me coloco muito no lugar deles, de estar vendo uma foto normal minha, que postei na minha casa. São detalhes que o fã não vê na televisão. A televisão é sempre a mesma matéria, o cara indo treinar, o cara indo jogar. Eu sou muito ruim nesse negócio de redes sociais, mas o Twitter é algo que está sendo muito bacana.

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