antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

As arquibancadas do Engenhão neste dias não são freqüentadas apenas por olhos apaixonados de torcedores que esperam ver o Brasil faturar o ouro no futebol masculino. Nas instalações modernas - e caríssimas - do estádio erguido para o Pan há dezenas de pares de olhos argutos, que enxergam nos garotos boa oportunidade de negócios. Não é segredo para ninguém que os europeus, com as burras cheias de dinheiro, garimpam talentos cada vez mais jovens.Para clubes como Milan, Barcelona, Real Madrid, Manchester não pesa nada bancar 3 ou 4 milhões de euros em adolescentes promissores. Trata-se de investimento de risco, e o pensamento é mais ou menos o seguinte: se vingarem, a grana retorna com juros; se forem blefe, tudo bem, faz parte do jogo. E que a próxima tacada seja eficiente.Por isso, eles espalham olheiros em qualquer competição em que haja seleções - independentemente da categoria. No Pan, o Brasil está representado pela garotada do Sub-17, e alguns talentos botam as asinhas de fora. Não só chamam a atenção, como é o caso de Lulinha - diligentemente preparado como produto de exportação - como até já estão apalavrados. Caso dos gêmeos Rafael e Fábio, revelados pelo Fluminense e com passaporte na mão para debandarem para a Inglaterra. O Manchester já acertou com os manos, que só esperam completar 18 anos para zarparem.O fenômeno não é recente, embora tenha ganhado força recentemente. Há levas de meninos que a todo ano aceitam proposta para estudar e jogar na Europa. Por isso, vira e mexe a gente descobre lá um brasileiro desconhecido por aqui. Foi o que aconteceu com o Deco, que se mandou para Portugal bem novinho e hoje é referência no Barcelona e na equipa do Felipão. Dias atrás o Real Madrid desembolsou 30 milhões pelo zagueiro-central Pepe, do Porto, que o havia pescado de Alagoas por uma ninharia. O mineiro Afonso é outro que perambula por times europeus sem que tenha fixado nome em casa.Sempre que leio a respeito de casos como esses lembro de episódio que me ocorreu uns 15 anos atrás. Na época, eu era correspondente do jornal romano Corriere dello Sport e de vez em quando alguém repassava meu nome e número de telefone para colegas de outros diários italianos. Teve até empresário ligando pra mim, para pedir informações sobre jogadores. Como não sou bobo, tirava o corpo fora, porque não queria me comprometer com gente que eu nem conhecia. Além disso, estou do lado de cá do balcão - e não pretendo mudar jamais.Havia, porém, um personagem especial. Era um sujeito que se anunciava como apresentador de tevê e que me aporrinhava a cada mês, sob o pretexto de obter detalhes de atletas que despontavam nos principais times brasileiros. Ele dizia que preparava reportagens para sua emissora. Não me convencia. Até que um dia o apertei e abriu o jogo: disse que precisava atualizar-se a respeito de jovens, de 14, 15 anos. ''''Tenho amigos empresários que preferem investir em desconhecidos, em jovens em formação'''', explicou. ''''O futuro é esse, porque não dá para gastar mais com Maradona, Zico e Careca.'''' E, em desespero de causa, apelou. ''''Sabe como é, se você me indicar nomes e o negócio sair, todos ganhamos. Todos, entendeu?''''Fiz que não entendi. Disse-lhe que não mexia com isso e pedi para não me ligar mais. O cara era picareta, mas já sinalizava o caminho dos europeus: caçar talentos de chupeta.

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