Atacante trilha o caminho de vítimas do álcool

Ninguém gosta de falar sobre o tema, mas muita gente teme que o jogador tenha o mesmo fim de ídolos como Sócrates e Garrincha

O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h05

O anúncio do fim do contrato de Adriano com o Flamengo, na última terça-feira, foi mais um retrocesso na tentativa de o atacante retomar a carreira depois de duas cirurgias de tendão de Aquiles em menos de um ano e de muitos atos de indisciplina.

Mais do que isso, indica que a volta talvez jamais aconteça. Adriano trilha o mesmo caminho que vitimou - no futebol e na vida - vários craques do passado. O termo alcoolismo é evitado quando dirigentes e colegas falam sobre o homem uma vez conhecido pela alcunha de Imperador, mas todos admitem: Adriano tem um grave problema com a bebida.

"Infelizmente, ele comete excessos, principalmente na noite. Ele tem um problema com a bebida. Exagera nessa bebida e ele bebe sempre. Não estou dizendo que ele é alcoólatra, que é dependente, mas tem esse hábito", disse o diretor de futebol do Flamengo, Zinho, em conversa exclusiva com o Estado.

O drama do atacante, que ainda atrai interesse e provoca comoção, não é novidade no futebol. Garrincha e Sócrates são os exemplos mais evidentes de craques que se acabaram para o futebol e para a vida prematuramente por causa do abuso do álcool. Mané morreu aos 49 anos, em 1983. Magrão partiu aos 57 anos, em dezembro passado.

Adriano, aos 30 anos, ainda tem tempo para evitar o pior. "O Adriano ganhou muito dinheiro, veio de uma situação social desfavorável e tem um traço de alcoolismo", alerta o psicólogo João Ricardo Cozac, atuando há 20 anos prioritariamente na área da psicologia do esporte, em clubes como Palmeiras, Corinthians, Goiás e o Cruzeiro.

Fazendo a ressalva de que nunca teve contato direto com Adriano para poder traçar um diagnóstico preciso, o psicólogo, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte e do Exercício Físico, usa sua experiência com casos semelhantes para fazer um alerta.

"O alcoolismo e a presença de drogas e do cigarro no mundo do futebol são muito grandes."

Segundo Zinho, que mora no mesmo condomínio do atacante, o cenário de problemas se intensifica por causa das más companhias. O dirigente diz que, em vez de buscar refúgio com a mãe, Rosilda, e a avó, Wanda, Adriano quer se apoiar nas pessoas erradas.

"Algumas escolhas são primordiais para o ser humano ser feliz. Você não escolhe pai, irmão. Mas outras são do livre-arbítrio. E se ele não escolher certo vai se estrepar", alertou Zinho, ex-jogador que viu alguns colegas enfrentarem o mesmo problema.

Vigilância. Soma-se aos ambientes frequentados pelo jogador e seus "amigos" o fato de Adriano viver em uma época em que a rotina das celebridades está exposta como nunca. Qualquer passo em falso e, em poucos minutos, estão a informação, o desmentido, o vídeo e a foto a circular pela internet, especialmente nas redes sociais.

"Na época do Garrincha, por exemplo, existia um certo romantismo que ligava o futebol à boemia. Sem dúvida (se jogasse nos dias de hoje) o Garrincha enfrentaria a mesma vigilância e não sobreviveria três meses em um grande clube", destaca Cozac.

A cada novo tropeço, falta a treino ou episódio como o da semana passada, quando um vídeo mostrou Adriano em um show de funk bradando palavras desconexas sobre sua origem humilde na favela, a descrença no retorno do atacante ao futebol de alto nível aumenta.

"É uma pena. Ele está jogando tudo fora", lamentou o técnico Andrade, que comandou o jogador no Flamengo campeão brasileiro de 2009 - a última lembrança de seus tempos de Imperador, com excelentes atuações e a artilharia da competição.

"A carreira é muito curta. Quando ele acordar e quiser voltar no tempo, não vai mais poder", disse Andrade.

Na visão de Cozac, só há uma solução para uma reviravolta na vida de Adriano. Ele precisa admitir que tem um problema com a bebida e aceitar ajuda profissional. "Um traço muito comum no viciado é a negação. Ele não reconhece que precisa de ajuda. Não vejo no Adriano um desejo concreto de mudança."

Em 2009, quando marcou 19 gols no Brasileiro e foi artilheiro do torneio, ao lado de Diego Tardelli, o atacante ainda tinha um objetivo pela frente. "Ele pensava em disputar a Copa do Mundo de 2010", lembrou Andrade. "Acabou não indo por outros problemas de indisciplina."

Na hipótese cada vez mais concreta de Adriano nunca mais atuar por um clube profissional de futebol, seu futuro fora dos campos é motivo de preocupação para quem convive ou conviveu com o Imperador.

"Se ele não tem mais o futebol, não tem mais objetivo, uma meta... Um jovem acordar todo dia sem saber o que vai fazer é muito ruim, né?", ponderou Zinho. "Eu, como torcedor, como amante do futebol, um talento desses parar precocemente e da maneira que está hoje, se acontecer vou ficar muito triste." / G. Jr. e L. M.

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