Aaron Lynton
Aaron Lynton

‘Não sei como não morri naquele dia’, diz surfista de ondas grandes

Em entrevista, ele destaca o momento mais difícil da carreira

Entrevista com

Yuri Soledade

Andreza Galdeano, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2016 | 07h00

O surfe brasileiro não está brilhando apenas com os atletas do Circuito Mundial. Nas ondas grandes, o País também tem muitos talentos, e de coragem. É o caso de Yuri Soledade, que divide sua vida como empresário, pai e atleta na ilha de Maui, no Havaí. Há 22 anos, o baiano deixou o Brasil para seguir sua trajetória como surfista do outro lado do mundo e recebeu recentemente o prêmio de maior onda da temporada no Big Wave Awards, o “Oscar” do surf. Em entrevista ao Estado, ele conta sua experiência e destaca o momento mais difícil da carreira, quando se machucou, deslocou o ombro e quebrou uma costela e perna. “Mesmo contra ordens médicas, dúvidas das pessoas mais próximas e muita dor, consegui surfar a onda da minha vida e ter o reconhecimento mundial.”

Como você começou no surfe?

Tudo começou a partir da influência do meu irmão Junior Soledade, lá na Bahia, aos 9 anos, em Olivença. No início, não tinha condições de ter prancha, então comecei com um pedaço de madeirite. Assim que ganhei a primeira prancha, a paixão aumentou e me dediquei de corpo e alma.

Enfrentou dificuldades no Havaí?

Os locais aqui no Havaí são muito intensos, pois para eles o surfe é uma fonte de referência. No início não era visto como local e foi um pouco mais difícil, tive alguns problemas, mas me saí bem. Sempre respeitei para ganhar respeito, aos poucos eu fui cativando e hoje posso dizer que não tenho problema algum. 

Como consegue conciliar a vida de empresário e surfista?

Hoje tenho quatro restaurantes aqui na ilha de Maui e mais de 70 empregados. Realmente não é fácil, mas tenho uma equipe muito boa e uma sócia que entende esse meu lado atleta e sempre me cobre quando preciso. O segredo é sempre viver o momento e focar no presente. Quando estou nos restaurantes, faço tudo sem pensar nas outras coisas, mas quando o mar sobe ou as ondas estão boas, eu tiro o tempo e foco apenas para surfar.

Qual a sensação de surfar a maior onda da temporada e ser premiado?

Foi a realização de mais um sonho, uma recompensa por tudo que passei e todo o esforço que fiz para mostrar a qualquer um que é possível. Essa temporada foi especial, pois tivemos as maiores ondas já registradas. Saber que surfei a maior onda da história no Havaí é algo que não dá para colocar em palavras, principalmente depois de tudo o que passei e dos meus acidentes surfando. 

Qual o maior sufoco que você já enfrentou em Jaws?

O maior perigo é você apagar, seja por pancada ou falta de ar. Quem surfa essas ondas sabe que qualquer momento pode ser o último. Meu maior sufoco foi há alguns anos, quando levei um pancada da prancha no rosto e acabei quebrando o maxilar. Apaguei por alguns segundos e a única coisa que me fez voltar foram as lembranças dos meus filhos. Até hoje não sei como não morri naquele dia, realmente acho que não era a minha hora.

Como surgiu a amizade com o Márcio Freire e o Danilo Couto?

Eles são amigos de infância, lá da Bahia. Surfávamos e competíamos juntos. Depois que me mudei para o Havaí, eles vieram me visitar e resolveram ficar. No começo, os atletas só surfavam ondas grandes aqui com a ajuda do jet ski. Nós, carinhosamente apelidados pelos locais como “Cachorros loucos ou Mad Dogs”, começamos a tentar superar esse tabu e mostrar que era possível ir na remada. Hoje em dia podemos dizer que quebramos essas barreiras e somos reconhecidos mundialmente por isso.

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