José Sotomayor/AFP
José Sotomayor/AFP

Ativismo de atletas cresce e se diversifica, bem a tempo da Olimpíada de 2020

Jogos Pan-Americanos mostram esportistas com postura políticas e críticas aos governantes

Jerry Brewer, Washington Post

14 de agosto de 2019 | 14h45

No verão antes das Olimpíadas de Tóquio, esta era de ativismo entre atletas persiste, e os manifestantes e suas preocupações se diversificam. Limitar-se a esportes? Nada disso, fique com a vida e as sensações, não só jogando.

Os Jogos Pan-Americanos quadrienais, dificilmente a principal vitrine de atenção que costumavam ser, recebeu a última rodada de exibições em Lima, no Peru. O evento retornou à consciência do público por causa da audácia de dois atletas representando os Estados Unidos. Na sexta-feira, enquanto o hino The Star-Spangled Banner tocou durante a cerimônia de entrega de medalhas, o esgrimista Race Imboden pousou sobre um joelho e citou racismo, controle de armas, maus-tratos de imigrantes e o presidente Donald Trump como suas principais queixas. Por razões semelhantes, a atiradora de martelo Gwen Barry levantou um punho no sábado perto do fim do hino. "Precisamos pedir mudanças", escreveu Imboden no Twitter.

Depois de um aumento gradual, a onda atual de ativismo por parte de atletas pegou fogo em 2016 com um capitão de time, o negro Colin Kaepernick, ajoelhando-se sobre uma perna e falando sobre questões raciais, especificamente a brutalidade policial e a opressão sistêmica. Embora as motivações relacionadas ao Black Lives Matter permaneçam na vanguarda de muitos protestos de atletas, um movimento maior se desenvolveu, destacando uma multiplicidade de preocupações sociais, que transcendem a raça, o gênero e a orientação sexual.

Mesmo se as estrelas das ligas esportivas mais ricas ficam mais silenciosas, o movimento continua e forçando seu caminho de volta aos holofotes, alardeando inexoravelmente para a monumental eleição presidencial de 2020. Esse também é um ano olímpico, o que faz com que os protestos durante os Jogos Pan-Americanos pareçam um ato de abertura para o ativismo em Tóquio.

Haverá um ato no nível do adotado por Tommie Smith e John Carlos levantando seus punhos negros durante as Olimpíadas de 1968 na Cidade do México? Poderia haver muitas exibições que exibam o triste cenário das divisões existentes nos Estados Unidos?

Eu não tenho certeza se isso está conduzindo a esse tipo de história porque, por exemplo, o valor do choque de um protesto pode não estar lá com tantos atletas que entraram em ação. Seria preciso algo mais original e controvertido do que jamais vimos para ter o poder de inspirar uma discussão significativa. Por mais importante que seja o atual ativismo dos atletas - os megafones são necessários para expor dramaticamente a negligência e a ignorância -, estamos presos a uma rotina na qual as pessoas estão aderindo às suas formas de pensar pré-programadas e evitando a oportunidade de ter suas mentes desafiadas. Está cada vez mais difícil provocar o público de uma maneira que valha a pena. É por isso que a expectativa de protesto durante as Olimpíadas de 2020 deve vir com algumas perguntas: Que tipo de protesto? Da parte de quem? E será algo novo?

É mais provável que, em vez de um ato, as Olimpíadas de 2020 sejam definidas a partir de uma perspectiva norte-americana por certos personagens contando suas histórias, falando suas verdades, enfrentando as críticas e emergindo vitoriosos, quer você goste deles ou não. Pense na equipe de futebol feminino dos EUA e no triunfo da Copa do Mundo em meio a uma luta por um pagamento justo. Pense em Megan Rapinoe sendo ela própria sem qualquer remorso: uma lésbica orgulhosa, preocupada com muitas questões de direitos humanos, que recusa a resignação, parece apreciar o debate verbal com um presidente do qual ela não gosta e tem um desempenho do mais elevado nível em meio à tempestade.  

Rapinoe e sua equipe estarão de volta para os Jogos Olímpicos. Assim como os jogadores da WNBA que expões suas ideias, liderando o time de basquete feminino dos EUA e uma equipe de técnicos de basquete masculino com Gregg Popovich e Steve Kerr, que se recusaram a permanecer em silêncio sobre a violência armada enquanto se preparavam para a Copa do Mundo.

Há tantos outros que se destacam e dão um rosto humano aos problemas, que serão impossíveis de se ignorar durante as Olimpíadas. Às vezes, se é apenas mais um protesto copiado durante o hino, a história é retratada como uma questão de contabilidade. Infelizmente, as pessoas se tornam insensíveis a isso. Mas grandes personagens exibindo poder, excelência e humanidade ainda penetram em nossa consciência.

Por exemplo, a ginasta Simone Biles não se encaixaria na definição tradicional de uma manifestante. Mas o seu domínio, para mim, é uma forma de ativismo, especialmente porque a USA Gymnastics continua a se recuperar após o seu desalentador e enraivecido escândalo de abuso sexual. Biles, uma sobrevivente do abuso de Larry Nassar, foi para Kansas City, Missouri, para o campeonato dos EUA e começou dizendo na quarta-feira: "É difícil vir aqui para uma organização e que fracassou conosco tantas vezes. Eles não conseguiram realizar um maldito trabalho. Vocês tinham um emprego. Vocês literalmente tinham um trabalho e não conseguiram nos proteger".  

No domingo, ela ganhou seu sexto título geral dos EUA e surpreendeu o mundo inteiro ao pousar um histórico recorde inédito de pontos triple-double. Se você não ficou impressionado com sua capacidade atlética, graça e poder, você deveria parar de assistir esportes. E se o talento dela de tirar o fôlego, pelo menos uma vez na vida, não faz você se importar com sua situação e com a necessidade de garantir que os ginastas não sejam mais alvos de predadores, você nem deveria ter o privilégio de vê-la competir.

O Comitê Olímpico e Paralímpico dos EUA provavelmente tomará medidas adicionais para impedir que os atletas protestem em Tóquio. Já respondeu a Imboden e Barry ao enfatizar os termos de elegibilidade dos atletas, nos quais eles se comprometem a "abster-se de demonstrações de natureza política".

Em um comunicado, o vice-presidente de comunicações do USOPC, Mark Jones, disse sobre Imboden, segundo a Associated Press: "Respeitamos seus direitos de manifestar seus pontos de vista, mas estamos desapontados por ela ter escolhido não honrar quais as consequências de seu compromisso."

Embora a pressão pública possa ajudar a minimizar a punição, isso é algo que também chega com o protesto. Liberdade de expressão não garante liberdade perante todas as repercussões. Kaepernick perdeu sua carreira na NFL porque se ajoelhou. O poder de um protesto reside na desobediência, que deve chocar as pessoas. O preço que você está disposto a pagar, não importa o quão injusto seja, também confirma a convicção por trás de suas crenças. A esperança é que, com o tempo, as pessoas compreendam as razões de tal sacrifício em um nível mais profundo.

Um ano atrás, durante o 50º aniversário do protesto Smith-Carlos, perguntei a Carlos como ele avaliava os riscos e recompensas de seu protesto. Em 1968, os atletas foram avisados para não fazerem exibições. O USOC e o COI sabiam do impacto potencial do Projeto Olímpico para os Direitos Humanos. Eles queriam uma Olimpíada sem complicações, o mesmo que todos os comitês desejariam para o próximo ano. Quase todos os atletas optaram por obedecer. Smith e Carlos não conseguiram.

"Sim, eu poderia ter ido e bajulado, lançado sorrisos, saudações", disse Carlos. "Eles disseram: 'Faça tudo direito e podemos conseguir um emprego para você. Você ganhará US$ 100 mil por ano.'" Mas eu iria abrir mão da minha alma por 100 mil dólares por ano? Esquecendo meus filhos? Esquecendo meus netos e vendendo minha alma por um trabalho em vez de tomar uma posição pelos direitos humanos?"

Seu protesto foi único. Sem sapatos, meias pretas. Punhos negros. Ele penetrou na muralha de frieza do país. Eles foram difamados. Viveram vidas difíceis por causa de sua decisão. E mais de meio século depois, a história os entende. Eles ainda estão polarizando, com certeza. Eles também têm estátuas em sua alma mater, a Universidade Estadual de San Jose na Califórnia.

Realisticamente, eu não acho que os três últimos anos de ativismo de atletas vão gerar uma Olimpíada explosiva. Para alguns artistas de alto desempenho, eu não acho que isso tenha que vir a acender a conversa também. Mas como Smith e Carlos mostraram, você nunca sabe quem pode chocar você. Ou como se pode fazer isso.

A onze meses de Tóquio, há uma antecipação nervosa. Alguns podem considerar isso ruim ou ameaçador, mas nem de perto tão preocupante quanto os problemas aos quais se tenta dar destaque. Você não quer atos? Faça esse maldito trabalho: ouça melhor, se importe mais e engrandeça a humanidade./TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.