Atleta de fim de semana corre risco

A morte de um atleta profissional dentro do campo, como a do zagueiro Serginho, na última quarta-feira, revive teses e medos de que o esporte faz ou pode fazer mal. De fato, baterias excessivas de treinamento e longas e exageradas temporadas de competições podem hipertrofiar o coração de atletas e gerar problemas graves. No entanto, o sedentarismo é muito mais perigoso e responsável por um número bem maior de mortes que aquelas decorrentes de atividade física. Entre um extremo e outro está a boa medida de saúde. Para encontrá-la, é necessário autoconhecimento e orientação de especialistas. Uma figura oposta a essa é a do atleta de fim de semana, aquele sedentário que, para relaxar ou supostamente entrar em forma, aproveita o domingo ou separa uma única hora durante a semana para tirar o atraso e malhar.No Brasil, os problemas cardiovasculares são a principal causa de morte. Ataques cardíacos matam 300 mil brasileiros por ano. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), 65% ocorrem abruptamente, que é a chamada morte súbita. Porém, dados da SBC revelam também que 70% das mortes súbitas acometem as vítimas quando elas estão em casa. Ou seja, não ocorrem durante atividades esportivas.Entre os praticantes de esporte, mais de 80% das mortes são também por problemas cardiovasculares. No caso de atletas amadores ou sedentários que passam a fazer exercício, o risco maior é de enfarte, que ocorre quando falta sangue ao coração devido à obstrução ou rompimento das artérias. Com o passar do tempo, a tendência é que placas de gordura se depositem na parede das artérias coronárias. Em geral, o processo se intensifica a partir dos 40 anos. "No atleta de fim de semana, o risco é quando há esforço forte sem preparo", diz Carlos Serrano, cardiologista do Instituto do Coração. O potencial de problemas é ainda maior se o falso atleta possui algum fator de risco, como hipertensão, colesterol alto, diabetes, tabagismo e uso de anabolizantes. Antecedentes familiares também pesam.Ao mesmo tempo, a prática esportiva é parte integrante da receita de cura dos mesmos problemas citados acima. "Na boa dose, o exercício regular é benéfico porque baixa a pressão, reduz o colesterol, controla diabetes e o excesso de peso e melhora a circulação", diz Serrano. "Pessoas que passaram por cirurgias cardíacas são obrigadas a fazer exercício para a recuperação."Limite - A boa medida da atividade que não prejudica é respeitar os limites pessoais e apostar na continuidade. O mínimo de exercício por semana é 150 minutos, distribuídos em pelo menos três sessões espalhadas ao longo da semana. "O excesso é ruim, mas muito pouco também. O corpo humano precisa de atividade física", diz Serrano. Na verdade, para quem busca saúde ou entrar em forma, o esporte de fim de semana é nulo. "O único benefício é momentâneo, é a diversão", diz o professor de Educação Física Henrique Martins. "Treinamento envolve continuidade. Sem isso, não se atinge nenhum objetivo. Não diminui o colesterol, não melhora a circulação, a hipertensão. Não emagrece e não se ganha condicionamento", afirma."O organismo precisa de estímulo e descanso. Com seis dias de descanso, o organismo terá de ter o mesmo estímulo do exercício anterior, não um maior", diz Martins. "E o que é pior, muitas vezes, o atleta de fim de semana vai além do que pode, para tirar o atraso. Aí ele não vai ter adaptação muscular e vai ficar com dor".

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