Athit Perawongmetha/Reuters
Athit Perawongmetha/Reuters

Atletas e comitês olímpicos fazem pressão pelo adiamento da Olimpíada de Tóquio

Manutenção da data de abertura mesmo com a pandemia do novo coronavírus causa polêmica no mundo do esporte

Ciro Campos, Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

20 de março de 2020 | 16h19

Dirigentes esportivos, atletas e comitês olímpicos nacionais têm se manifestado nos últimos dias a favor da mudança de data dos Jogos de Tóquio, no Japão. O impacto de pandemia do novo coronavírus tem criado uma pressão sobre o Comitê Olímpico Internacional (COI) para mudar a data do evento, previsto para começar dia 24 de julho. Apesar do ambiente de cobrança, as federações internacionais das modalidades ainda não manifestaram sobre o tema.

Atletas da natação e do atletismo, as duas provas mais nobres da Olimpíada, já começam a demonstrar seu descontentamento com a postura do COI em não mudar a programação dos Jogos de Tóquio. Por causa da pandemia de coronavírus, muitos estão tendo de ficar em isolamento e sem possibilidade de treinar. Os clubes esportivos também estão fechados.

"É um ano que representa muito para nós atletas de alto rendimento. Eu não sou a favor. O mundo grita para uma outra situação, focada na saúde. Nosso planejamento está sendo recuado. Muita gente sem piscina e sem poder treinar, ou seja, sem conseguir seguir os planos de treinamento. Não cabe a mim decidir, mas sim falar sobre. Quanto mais a gente se unir e olhar para o próximo, vamos passar por essa", disse a nadadora Etiene Medeiros.

A programação da atleta foi totalmente prejudicada por causa do coronavírus. Ela estava em uma reta final de preparação para a seletiva olímpica, que seria de 20 a 25 de abril, mas o evento que garante vaga nos Jogos de Tóquio foi adiado para 22 a 27 de junho. Assim como ela, outro brasileiro importante da natação pediu adiamento dos Jogos: Bruno Fratus, que nas redes sociais questionou Kirsty Coventry, presidente da comissão dos atletas do COI.  

"Kirsty, como colega nadador e atleta olímpico, eu te peço para reconsiderar e consultar outros atletas pelo mundo. Não tenho certeza se você está sabendo que muitos atletas, como eu, estão impossibilitados de treinar. Além disso, o conselho para ‘continuar fazendo o que vocês estão fazendo’ me parece desconectado da realidade quando você vê líderes mundiais diariamente na televisão pedindo para as pessoas se isolarem", disse.

Quem também fez coro aos que pedem adiamento foi a grega Ekaterini Stefanidi, campeã olímpica do salto com vara nos Jogos do Rio, em 2016. A estrela do atletismo criticou a postura do COI. "Todos nós queremos que os Jogos de Tóquio ocorram, mas qual é o plano B se isso não ocorrer? Saber sobre uma possível opção tem um grande efeito no meu treinamento, pois posso estar assumindo riscos agora que não assumiria se soubesse que também há a possibilidade de um plano B. Precisamos decidir se arriscamos nossa saúde e continuamos treinando no atual ambiente", disse à Reuters.  

Ciente das críticas e da pressão que vem sofrendo para mudar sua postura, Thomas Bach, presidente do COI, pediu um pouco de calma aos atletas. "Vamos continuar agindo de maneira responsável no interesse dos nossos atletas, mas respeitando os dois princípios: o primeiro, a saúde de todos nossos atletas e a contenção da contaminação dos vírus, e o segundo, protegendo o interesse dos atletas e dos esportes olímpicos, e esse foi espírito desta produtiva reunião", disse.

DIRIGENTES CRITICAM

O Japão tem a previsão de receber mais de 600 mil estrangeiros durante o período e garante até o momento que não pretende mudar a data. A postura irredutível tem irritado personalidades do esporte a ponto de na última terça-feira, representantes de comitês olímpicos nacionais debaterem em uma videoconferência o risco de se realizar um evento tão grande durante uma pandemia.

"As notícias que recebemos todos os dias são desconfortáveis para todos os países do mundo, mas para nós, o mais importante é que nossos atletas não podem treinar e celebrar os Jogos em condições desiguais. Queremos que a Olimpíada aconteça, mas com segurança", disse o presidente da entidade espanhola, Alejandro Blanco. Segundo o dirigente, os atletas locais estarão em desvantagem na Olimpíada pois não têm conseguido treinar. A maioria está em confinamento, para evitar o contágio.  

 

O Comitê Colombiano também manifestou preocupação com a realização da Olimpíada. O pedido deles é para deixar a competição para depois . "A decisão mais prudente e, é claro, a mais respeitosa do Comitê Olímpico Internacional e dos organizadores de Tóquio é adiar os Jogos, caso não possam garantir a participação sem riscos", afirmou Baltazar Medida.

Potência olímpica, a Grã-Bretanha aumenta a lista de países que têm apelado para adiar os jogos. Em entrevista ao jornal The Guardian o diretor da UK Athletics, órgão que rege o atletismo no Reino Unido, Nic Coward, revelou sentir uma angústia nos atletas. "Com o fechamento das instalações, a capacidade dos atletas de obterem a melhor forma possível é comprometida na melhor das hipóteses. Isso está criando pressão intensa. As pessoas precisam entender isso", comentou.

O país com mais mortes no mundo pelo novo coronavírus, a Itália, também pensa parecido. Presidente do comitê olímpico local por 14 anos e atual presidente da federação nacional de basquete, Giovanni Petrucci fez críticas pesadas. "Eu não sou contra a Olimpíada, mas dizer que a Olimpíada ainda vai continuar é um grande erro de comunicação", disse. "Não sou o único que pensa assim. Outros simplesmente não querem dizer isso", acrescentou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.