Wander Roberto/COB
Wander Roberto/COB

Atletas menores de idade levam vida de gente grande nos Jogos Pan-Americanos

Os 'caçulas' têm exigências do esporte de alto rendimento e ‘dramas’ da adolescência

Gonçalo Junior e Paulo Favero, enviado especial a Lima, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2019 | 04h30

Na quinta-feira, Jacqueline Castro ficou brava com o filho. “Você não me dá notícia. Está tão ocupado assim que não pode nem dar 'oi' para mim? O que está acontecendo?”, reclamou a auxiliar administrativa no celular. A resposta do filho veio em seguida. “Mãe, eu estou treinando muito. Até apareci na tevê”, respondeu Rayan Victor. O diálogo simples e corriqueiro retrata uma parte da realidade dos atletas adolescentes da delegação brasileira nos Jogos Pan-Americanos. Jovens de 15 a 17 anos têm de conciliar os desafios do esporte de alto rendimento e os dramas da adolescência, como a mãe querendo saber porque eles não atendem o celular.

O Brasil está representado no Pan por dez atletas que ainda não completaram a maioridade. Todos moram com os pais e estão no Ensino Médio, já preocupados com a realização Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal caminho para a universidade – sim, todos pensam em um diploma universitário paralelamente à vida esportiva. Pelo jeito de falar e pela trajetória esportiva, todos parecem mais velhos do que atestam as cédulas de identidade.

Rayan Victor Dutra tem 17 anos e está no 3º ano do Ensino Médio no colégio metodista Isabela Hendrix, em Belo Horizonte. Ele estuda de manhã e treina ginástica de trampolim à tarde no Minas Tênis Clube. É uma modalidade pouco conhecida no Brasil com saltos e acrobacias que chegam a 6 metros de altura em uma cama elástica. Para compor a equipe brasileira, Rayan precisou da autorização da mãe para viajar para seu primeiro Pan. Isso acontece com todos eles. Afinal, menores de idade não viajam sozinhos.

Fã dos jogos de videogame como GTA e apaixonado por brincadeiras com crianças, Luis Felipe Moura começou nos saltos ornamentais por incentivo da mãe, dona Francisca. “Meu sonho é estar na Olimpíada. Sei que tenho condição”, planeja o aluno do primeiro ano do Ensino Médio que mora em Brasília.

Para a arqueira Ana Luiza Caetano, ser um talento precoce tem o lado bom e o lado ruim. “A gente chega sem uma pressão muito grande já que somos muito novos. Por outro lado, temos de mostrar algum resultado e evolução”, diz a menina de 16 anos e que mora em Maricá (RJ ).

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Afirmar que Ana Luiza é arqueira é apenas meia verdade. Velejadora desde criança, ela teve de abrir mão de muita festinha e passeio no shopping com os amigos – quase todos os atletas adolescentes lamentam isso. Para compensar, Ana criou um diário de bordo que virou o livro Bons Ventos: Diário de Aventuras Iradas. O sucesso do primeiro livro levou a convites para a palestras e a produção do segundo livro: Eureka, título paradidático que aborda, entre outros assuntos, os valores olímpicos, folclore brasileiro e a conscientização ambiental.

Também com 16 anos, Ana Beatriz leva adiante a paixão e a tradição familiar no polo aquático. O pai, Nilson Mantellato, e a mãe, Ana Cristina Mantellato, foram jogadores da seleção. A irmã Gabriela disputou os Jogos Olímpicos no Rio, em 2016. Agora, o bastão está com ela nos Jogos Pan-Americanos.

Os pais de Ana Beatriz Mantellato afirmam que a adolescente de 16 anos não leva uma vida de adolescente de 16 anos. Ela estuda em um colégio bilíngue em período integral e treina no resto do dia no Clube Paineiras do Morumby. Depois do jantar, ela teima para colocar os trabalhos. Fica até 2h. Ela é uma atleta e também uma aluna de alto rendimento. “Ela não tem tempo de ser adolescente. Isso preocupa um pouco a gente. Vivemos isso com as outras filhas, que também são atletas, mas a vida do atleta de ponta é assim”, diz a mãe.

Victória Vizeu é a "caçula" da esgrima. De acordo com a mãe, Maria Cristina Vizeu, ela nunca foi ligada em balada, mas ficaria até a madrugada conversando ou assistindo séries ou filmes com os amigos nos raros finais de semana em que não tem competições ou compromissos escolares. Como acontece com Bia Mantellato, quer ser uma atleta competente, mas não se contenta em ser uma estudante mediana no Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo. 

Neste ano com a agenda mais intensa do ciclo olímpico da equipe de espada feminina categoria adulta e todas as competições individuais e por equipe das categorias cadete e juvenil, ela precisou ir atrás de professores do próprio colégio e também de aulas particulares para recuperar as matérias perdidas. "Ela trocaria facilmente dez dias na Disney por seus treinos no Clube Atlético Paulistano. Digo isso com propriedade, pois no ano passado fiz esta viagem para Orlando e ouvi reclamações todos os dias, sem exceção", conta a matriarca. 

Marco La Porta, vice-presidente do COB e chefe de missão em Lima, afirma que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e a delegação brasileira seguem vários procedimentos para trazer ainda mais segurança para os jovens. “Na apresentação, realizada na reunião de boas-vindas para todos os atletas que chegam à Vila, são feitas algumas recomendações especiais para as equipes que possuem menores de idade. Eles não podem sair desacompanhados. Os chefes das equipes devem acompanhar sempre o menor, não importa se for para a competição, treino, policlínica ou mesmo qualquer atividade de lazer. Além de ser expressamente proibido beber e fumar em qualquer situação”, explica o dirigente.

“Nós fizemos um curso preparatório de gestão de equipes no COB. O principal é entender o perfil de cada um. É preciso entender que os jovens têm ansiedade e vontade grande. Isso não pode extrapolar para não prejudicar o desempenho. Fazemos uma mescla com os mais experientes e transmitimos calma e tranquilidade, sem que eles percam essa vontade, que é muito boa. É bom ter jovens na equipe. Essa certa 'irresponsabilidade' é boa, desde que bem trabalhada” Marcelo Roriz, chefe da delegação do Tiro com Arco.

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