Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Atletas olímpicos também são afetados por mudanças de legislação nos EUA

Base dos medalhistas norte-americanos é formada nas universidades

Felipe Laurence, especial para o Estado

30 de outubro de 2019 | 10h59
Atualizado 30 de outubro de 2019 | 15h28

Aprovada pela Califórnia no final de setembro, a lei SB-206, apelidada de Fair Pay to Play Act (Lei do Pagamento Justo para Jogar, em tradução livre), foi criada pensando essencialmente no futebol americano e no basquete por conta das enormes receitas geradas por estas modalidades, mas os atletas de esportes olímpicos serão afetados de forma importante quando a mesma entrar em vigor, a partir de 2023. Sempre liderando o quadro de medalhas em todas as edições da Olimpíada desde 1996, os Estados Unidos têm a sua base de atletas que sobem ao pódio nos Jogos Olímpicos formada pela Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA, na sigla em inglês).

“Somos obrigados a pedir uma carta da organização do evento dizendo que abrimos mão das premiações para não perdermos a bolsa de estudos”, explica Cesar Cielo, um dos maiores nadadores na história do Brasil e que nadou pela Universidade de Auburn, no Alabama, antes de aparecer para o mundo nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. “Contava com ajuda do meu pai para cobrir meus gastos pessoais.”

Cielo, que foi escolhido como o nadador do ano na NCAA em 2007, diz que na natação e em outros esportes olímpicos a nova lei afetaria principalmente atletas que já competem em alto nível nas competições internacionais. “Consigo entender os dois lados do argumento sobre essa lei, mas acho que na natação valeria uma análise caso a caso.”

Após se destacar no Mundial de Natação e nos Jogos Pan-Americanos em 2007, Cielo resolveu abrir mão do seu último ano na universidade para se profissionalizar e buscar patrocínios para os Jogos Olímpicos do ano seguinte. “Pensei que, mesmo se ganhasse só uma medalha de bronze, isso já me daria uma possibilidade de fazer um dinheiro maior do que ficar com a bolsa em Auburn.”

Desde 2015, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos (USOC) e a NCAA têm um acordo em que os atletas medalhistas podem depositar o bônus dado pelo próprio comitê em um fundo que será sacado após sair da universidade. Premiações das competições e por quebras de recordes mundiais, no entanto, ainda são proibidas.

O caso da norte-americana Missy Franklin, que foi um dos destaques da natação norte-americana nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, é emblemático. Ela ganhou quatro medalhas de ouro e estabeleceu dois recordes mundiais na competição, mas precisou abrir mão de qualquer premiação porque ainda não tinha nem entrado na universidade e, caso recebesse, não poderia receber uma bolsa de estudos.

“Ela teve uma carreira universitária complicada e acabou não repetindo os resultados que teve antes de entrar na NCAA”, lamenta Cielo. “Tenho certeza de que esta lei estivesse sendo discutida naquela época ela poderia estar com um dinheiro legal para o resto da vida.”

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