Gent SHKULLAKU / AFP
Gent SHKULLAKU / AFP

Com nó no estômago, jovens atletas ucranianos fogem da guerra e vão atrás dos seus sonhos na Albânia

Longe de casa, oito adolescentes tentam focar na rotina de treinamentos enquanto acompanham as notícias do conflito com a Rússia

Briseida Mema/AFP, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2022 | 15h00

Na Albânia, vários jovens do atletismo ucraniano estão treinando para realizar seus sonhos de alcançar a glória esportiva internacional, apesar da dor de ter deixado seu país, invadido pelas tropas russas, e da angústia que sentem por seus parentes que ainda estão em solo ucraniano. Entre eles, oito atletas — quatro meninas e quatro meninos — querem homenagear seu país no pódio.

"Esta guerra mudou nossas vidas, mas não nossos sonhos", diz Mariya Larina, uma arremessadora de peso de 17 anos que já representou a Ucrânia no exterior. Seu desafio atual é chegar à final do campeonato mundial de atletismo juvenil, marcado para agosto na América do Sul, mais precisamente na Colômbia.

No dia 27 de março, os oito adolescentes, acompanhados por dois treinadores, deixaram a região de Bakhmut, em Donetsk, cidade no sudeste da Ucrânia, para ir a Lutsk, no oeste do país, antes de seguirem para Varsóvia. A viagem, financiada pelo Comitê Olímpico Ucraniano, foi encerrada com um voo da capital polonesa para a Albânia, onde a delegação está hospedada em um hotel de Tirana, capital albanesa, pago pela prefeitura local.

"É muito difícil treinar na Ucrânia agora", diz Mariya, que se destacou no Campeonato Europeu de Atletismo Júnior de 2021 na Estônia e conquistou a prata no Campeonato Sub-18 dos Balcãs no mesmo ano na Sérvia.

Durante uma sessão de aquecimento no Estádio Elbasan, os atletas correm, saltam e alongam-se ao som de Dzidzio, um grupo ucraniano cujo repertório os conforta. Mesmo no estádio, Mariya fica grudada nas páginas de notícias. Alguns dias atrás, ela soube que uma granada caiu perto de sua casa. A mãe e a avó ficaram na Ucrânia.

"A situação em toda a região de Donetsk é difícil. É perigoso para suas vidas", suspira. "Eu estava muito preocupada", acrescenta ela. Quando conseguiu falar com a mãe ao telefone, disse-lhe que "estava com muito medo e eu não conseguia parar de chorar", conta a jovem.

Como Mariya, numerosos jovens atletas se refugiaram no exterior, como na Bulgária, Turquia, Itália, entre outros países. Valentyn Loboda, de 17 anos, atleta do salto com vara, deixou a Ucrânia pela primeira vez por causa da guerra. Ele admite ainda estar em choque com os últimos acontecimentos. "Minha vida mudou porque hoje estou na Albânia e minha família está na Ucrânia. Não pensei que minha primeira vez no exterior seria assim", diz o jovem com um olhar perdido. Ele treina com todas as forças, mas sua cabeça ainda está longe.

"Eu sou um homem agora, tenho de engolir minhas lágrimas e ficar calmo", explica ele. "É muito perigoso continuar na Ucrânia. Esta guerra mata pessoas", acrescenta. Ele fala todos os dias com seus parentes e tenta tranquilizá-los.

Antes de deixar a Ucrânia, os resultados esportivos de Loboda não eram bons. Mas, apesar disso, ele está determinado a pular o mais alto possível para que sua mãe se orgulhe dele. Embora eles vivam longe dos combates que ocorrem na Ucrânia desde a invasão russa no fim de fevereiro, a guerra está afetando fortemente seus estados mentais. Segundo o treinador Pavlo Zadorozhniy, de 60 anos, o conflito "afeta o humor" dos atletas. "Eles acompanham tudo o que acontece na Ucrânia, estão em contato com suas famílias. A situação é difícil e todos estão muito preocupados."

Hanna Tkachova, arremessadora de martelo de 19 anos, soube nos últimos dias que seu pai havia sido ferido perto de Volnovakha, uma cidade ao norte de Mariupol. A tristeza e a angústia se espalharam por todo o grupo. "Mas não estamos desmotivados e vamos continuar a lutar muito para dar o melhor de nós", diz Mariya. "A guerra mudou minha vida, mas não mudou meu sonho de vencer na Colômbia para mostrar que a Ucrânia é um país forte."

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