Audácia na final

Quando um pequeno pouco se importou com o Corinthians, calou Itaquera e vai à decisão

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2016 | 04h34

Sabe todos os elogios distribuídos para o Corinthians com generosidade, por causa da rapidez na reconstrução, pelos resultados expressivos, pelo crescimento na Libertadores, pela liderança no Paulistão? Pois é, merecidos.

Mas o maior teste pelo qual passou a rapaziada de Tite veio no início da noite de ontem, em casa, e atende por Audax. E o todo-poderoso alvinegro não passou. A equipe de Osasco de novo justificou o nome, deu sufoco enorme no campeão brasileiro, ficou duas vezes em vantagem e por pouco não garantiu a vaga na final do Estadual no tempo normal. Fez a festa nos pênaltis.

Tudo verdade o que se falou a respeito do Audax nos últimos dias, sobretudo após a surra no São Paulo uma semana atrás. Ajustado, equilibrado, objetivo e abusado - embaralhe adjetivos e vão se encaixar com naturalidade. O técnico Fernando Diniz montou um grupo homogêneo, de toque de bola bonito, que sabe envolver o adversário sem olhar para o peso da camisa. Por isso, se deu bem contra os grandes.

Não mudou o roteiro, nem com o estádio de Itaquera lotado. Os jogadores do Audax ignoraram a Fiel, mantiveram a estratégia, resistiram à pressão inicial e foram para o intervalo com 1 a 0, em belo gol de Bruno Paulo. Tite notou que perdia o duelo no meio-campo, mudou e voltou para a segunda etapa com Romero e Rodriguinho nas vagas de Alan Mineiro e Guilherme.

As mexidas funcionaram, em parte. Veio o empate, com André, mas o bendito Audax pulou à frente, com uma obra de arte de Tchê Tchê. Num dos raros vacilos, cedeu novo empate, com André e deixou para o destino ajudá-lo nos pênaltis. E como ajudou! A frieza e a eficiência prevaleceram, o Audax vai à decisão. E o Corinthians bota as barbas de molho para não ser surpreendido na Libertadores. E como quebra a cara nos pênaltis em casa. Que coisa!

Alegria torta. Duelos entre Santos e Palmeiras compõem a memória afetiva de milhões de torcedores. Desde o início do século passado, disputam clássicos de arrepiar. Houve período, entre os anos 60 e 70, em que um tinha Pelé como Rei e o outro ostentava Ademir como maestro. Alegria garantida.

A satisfação de novo dará as caras hoje na Vila - de maneira parcial e torta. As arquibancadas do tradicional estádio estarão reservadas só para seguidores alvinegros; não haverá espaço para os alviverdes, que terão de acompanhar o tira-teima por rádio ou tevê. Passa a vigorar a final de torcida única.

A medida parece profilática e preventiva, mas vem com o carimbo da incompetência do Estado para controlar arruaceiros. Algo como afirmar que os extremistas venceram e são mais ousados e organizados. Por isso, podem ir ao campo, mesmo que, para tanto, mandem para escanteio os demais. Vitória do autoritarismo dos trogloditas.

Como o acaso se diverte a sapecar ironias, imagine como ficará o "Urbano Caldeira" se o Palmeiras ganhar - hipótese nem um pouco improvável. A plateia calada, pois composta por santistas e os jogadores rivais a comemorarem para ninguém. Tristeza. Se bem que, de certa forma, a pintura desbotada que se verá na Vila representa o momento que vivemos. No Brasil de hoje, oponente virou inimigo a ser extirpado, diferenças se resolvem no tapa.

Mas, na bola, as duas equipes têm condições de escrever outro episódio marcante de uma história que começou em outubro de 1915, com 7 a 0 para o Santos sobre o Palestra.

O Santos de Dorival e o Palmeiras de Cuca chegam à briga por vaga na decisão em condições semelhantes. A vantagem alvinegra está no fato de mandar - quesito no qual se dá bem, pois sabe como poucos utilizar-se do "fator campo". No entanto, não é fora de propósito a possibilidade de pênaltis, como no Paulistão e na Copa do Brasil de 2015.

O Santos se recompôs, após a perda de atletas na passagem de um ano para outro. O Palmeiras procura recuperar-se após o baque com a saída da Libertadores. Jogo equilibrado.

 

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