Divulgação/ ECP
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Auditoria interna aponta problemas de assédio moral no tratamento a atletas no Clube Pinheiros

Documento traz denúncias de alguns competidores da ginástica artística, modalidade que vem tendo desempenho relevante nos últimos anos; clube se defende

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 16h29

Um auditoria interna na ginástica artística do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, detectou problemas no tratamento dos atletas em denúncias feitas por alguns dos esportistas. O documento do ano passado serviu de base para mudanças estruturais na modalidade, como a instalação de câmeras no ginásio onde os atletas treinam diariamente. Procurado pelo Estadão, o clube informou que "realiza auditoria interna em todos os departamentos de forma periódica para avaliar a aderência às políticas e procedimentos". E se defende das acusações.

Parte do relatório foi divulgada em reportagem da TV Globo no domingo. O documento citado apresentava insatisfações de atletas e acusações de assédio moral e até injúria racial. "Todas as auditorias são conduzidas pelo departamento de Governança e Compliance do Esporte Clube Pinheiros, sendo adotadas, quando necessário, ações corretivas nos procedimentos que estão em desconformidade com os processos e políticas interna", informou o clube, sem mais detalhes. "Cumpre esclarecer que os resultados obtidos das referidas auditorias são confidenciais e de competência exclusiva do Esporte Clube Pinheiros."

Arnaldo Queiroz Pereira foi diretor de Esportes Olímpicos e Formação do Pinheiros entre 2003 e 2007 e depois no período de 2015 a 2019. Ele diz ao Estadão que a auditoria na ginástica artística começou por um motivo diferente do seu resultado e que o primeiro relatório apontou exageros de quem fez. "Tomei ciência desse relatório em junho de 2019. Conversando internamente, a gente notou que tinham carregado um pouco na tinta. Os treinadores atendem dezenas de famílias e eles têm uma aprovação impressionante", conta. Pereira não está mais no Pinheiros.

Ele diz que não viu a versão final do relatório de governança, pois já não ocupa mais sua função no clube. Mas lembra que algumas medidas foram tomadas na época em função que foi apurado e até para tornar o ambiente mais saudável. "Algumas ações pudemos fazer, porque os treinadores precisam de ajuda para calibrar ações nos treinos. Não acho que o grito configura assédio moral. Mas houve ação corretiva e decidimos colocar as câmeras e conversar com os treinadores para dar apoio para requalificação. Íamos tentar mexer um pouco nas idades de entrada das crianças também. A ideia era que em 2020 a idade seria um pouco maior para admissão", diz.

Arnaldo pondera que alguns gritos são esporádicos e fazem parte da cultura de diversas modalidades quando se está com um grupo de atletas de idades variadas durante um treinamento. "Os exercícios são dificeis e os gritos são para acerto, são comemorados. Confio muito na qualificação dos treinadores e no trabalho que fizeram no Pinheiros. São cerca de 300 famílias que frequentam os treinamentos, incluindo a escolinha. Não houve nada de errado ali", defende, lembrando que os treinos são abertos e qualquer um que está no clube pode assisti-los.

Nas redes sociais, diversos depoimentos corroboraram com o comentário do ex-diretor do Pinheiros e atualmente conselheiro. Marcus Vinicius Silva postou que acompanha os treinos mais de perto por causa de sua filha e que "nunca presenciei nenhum tipo de discriminação de cor ou qualquer outro tipo lá dentro".

O ginasta Angelo Assumpção, que é negro, foi atleta do Pinheiros até o fim do ano passado. O clube optou por não renovar o seu contrato e ele insinua que houve racismo na decisão. Diz que foi suspenso antes de ter o contrato não renovado. Em 2015, um vídeo mostrou que alguns ginastas o tratavam com discriminação, como Arthur Nory, que reconheceu o erro na época. "Não foi uma brincadeira. Foi uma atitude repugnante e inaceitável que hoje não pode acontecer mais. A gente não pode ser conivente com uma situação como essa", disse Nory para a TV Globo.

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Ele foi atleta do clue por mais de dez anos e após uma avaliação técnica, financeira e comportamental do colegiado esportivo responsável pelas renovações contratuais, decidiu-se não renovar o seu vínculo
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Pinheiros, em nota oficial

O Pinheiros informa que a não renovação de contrato de Angelo Assumpção tenha outro motivo que não seja técnico. "Ele foi atleta do clue por mais de dez anos e após uma avaliação técnica, financeira e comportamental do colegiado esportivo responsável pelas renovações contratuais, decidiu-se não renovar o seu vínculo. O Esporte Clube Pinheiros reforça que repudia qualquer ato discriminatório ou preconceituoso, possuindo políticas internas, regulamentos, canal de denúncias e normativos que reforçam a conscientização de toda a sua comunidade e o compromisso do clube com a ética e a integridade."

Nos últimos tempos, a ginástica artística tem sido uma das modalidades mais vitoriosas no Pinheiros, junto com as tradicionais judô e natação. Nory foi bronze olímpico nos Jogos do Rio e campeão mundial no ano passado. Nos Jogos Pan-Americanos de Lima, ele e Chico Barretto brilharam. "Reiteramos que os atletas e técnicos vêm recebendo todo suporte psíquico e físico com a equipe médica do Pinheiros neste último ano, para que a gestão dos técnicos e convívio entre os atletas seja satisfatório e benéfico a todos", conclui o Pinheiros, que é o principal clube formador de atletas olímpicos do País.

Confederação

A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) solicitou esclarecimentos ao Clube Pinheiros após a divulgação de parte do relatório interno sobre a modalidade. Em nota, a entidade afirmou que "a CBG não tolera e repudia todo e qualquer tipo de assédio e de preconceito. A entidade possui um Programa Permanente de Ética e Integridade justamente para combater assédio moral, racismo, doping e demais práticas nocivas à dignidade humana", disse.

"Em suas ações, a confederação constantemente orienta toda a comunidade gímnica a encaminhar denúncias. Há no site da CBG uma área especialmente reservada ao acolhimento delas, para posterior análise e providências. Educação é a melhor forma de prevenção, portanto a CBG editou cartilhas e constantemente promove palestras e ações em seu programa de integridade. Quando ocorrem os casos, acionamos nossas estruturas internas e órgãos judicantes para investigar, processar e, se necessário, punir. A CBG solicitou esclarecimentos ao Esporte Clube Pinheiros quanto aos fatos relatados para análise e medidas cabíveis", continuou.

Confira a nota do Clube Pinheiros:

Sobre os questionamentos a respeito da auditoria no setor de Ginástica Olímpica, o Esporte Clube Pinheiros vem esclarecer que:

- O atleta Ângelo Assumpção foi dispensado exclusivamente por questões de performance e desempenho.

- Clube não aceita e repudia qualquer insinuação de que tenha havido racismo. Tanto é que implantou, desde o novembro de 2019, o Pinheiros Inclui- programa de Inclusão e Diversidade, visando combater qualquer tipo de discriminação, além de incluir jovens talentos de todas as etnias, gêneros e classes sociais.

- As auditorias realizadas foram de iniciativa do próprio Clube e conduzidas pelo departamento de Governanca e Compliance. É parte de uma nova política de transparência de sua gestão.

O Clube informa ainda que realiza auditoria interna em todos os departamentos de forma periódica, justamente para promover ações de ajustes nos procedimentos que estejam em desconformidade com nossos processos e políticas internas.

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